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  • 15/09/2011
  • 19:52
  • Atualização: 21:47

Carlos Villalba traz aclamado show "Nomeolvides" a Porto Alegre

Argentino, que faz show neste fim de semana no Renascença, fala com exclusividade ao CP

Carlos Villalba traz aclamado show ´Nomeolvides` a Porto Alegre | Foto: Porto Alegre em Cena/Divulgação/CP

Carlos Villalba traz aclamado show ´Nomeolvides` a Porto Alegre | Foto: Porto Alegre em Cena/Divulgação/CP

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  • Luiz Gonzaga Lopes / Correio do Povo

A ideia de um homem ser uma ponte entre dois mundos, mental e espiritual, entre o animal e o super homem, como diria Nietzche. No caso do produtor argentino Carlos Villalba, este homem vem sendo a ponte entre o Rio Grande do Sul e o Mercosul há quase duas décadas, sendo decisivo em iniciativas como Porto Alegre em Buenos Aires, Buenos Aires em Porto Alegre, Festival de Inverno e Porto Alegre em Cena. É exatamente no festival cênico (18ª edição ) que Villalba ou Carlitos, como é carinhosamente chamado pelos amigos da comunidade cultural gaúcha, mostra a sua porção cantor e compositor, apresentando na íntegra o disco "Nomeolvides" (2010), em duas apresentações neste sábado e domingo, às 20h, no Teatro Renascença (Erico Verissimo, 307). Há ingressos à venda para as duas noites no site Ingresso Rápido e no local.

O disco consumiu três longos anos e o resultado são 10 músicas que não pertencem a nenhum gênero particular, mas que falam muito de amor e de situações que se repetem na vida. No palco, Villalba terá convidados muitos especiais como as cantoras Liliana Herrero, em "Aquí" e "Lo que lo Vento se Llevó" e Cida Moreira em "Madreselva" e "Bailando". Caroline Neal empresta a voz ao poema "Fairy Song", do poeta romântico inglês John Keats, que permeia a música "Nomeolvides", a primeira do disco e do show. A Orquestra Velásquez é formada por Diego Schissi (diretor musical e piano), Ignácio Varchausky (baixo/contrabaixo), Alan Platcha (guitarra), Mario Gusso (bateria/percussão), Gustavo Mule e Natalia Cabello (violinos), Silvina Alvarez (viola), Paula Pomeraniec (violoncelo) e Martín Pantyer (clarinetes e sax).

Nesta entrevista exclusiva ao Correio do Povo, Villalba fala sobre o disco, show, amigos, relação com Porto Alegre e recepção da crítica.

Correio do Povo – O que há de "inolvidable" (de "nomeolvides") no disco e no espetáculo?

Carlos Villalba - "Nomeolvides" tem vários planos. O primeiro é dirigido a meu filho Felipe que, quando pensei no disco, tinha um ano e alguns meses. Sou um senhor grande de quase 50 anos e pensei o que lhe posso deixar, que foto minha eu gostaria que ele guardasse. O outro plano são meus pais a quem dedico a canção "Nomeolvides". Eles já tem 80 anos e se separaram quando eu tinha dez e foi uma tristeza que encheu minha adolescência de melancolia. "Nomeolvides" é a vã pretensão da imortalidade de nossas vidas, de nossas relações amorosas.

CP – Como defines a tua música?

Villalba – São canções de temática amorosa que não transitam por nenhum estilo particular.

CP – Neste espetáculo teremos somente canções do disco ou alguma outra especialmente preparada?

Villalba – Se mostrássemos outras canções se perderia esta pretensão cinematográfica do espetáculo , no qual, como bem percebeu Mauricio Pereira (músico paulista): "o sumo das canções de Nomeolvides gera uma única canção maior".

CP – Sobre que tratam as canções de "Nomeolvides"?

Villalba – Há uma ideia manifesta de repetir imagens, frases e situações nas canções de "Nomeolvides". Todas as mulheres estão contidas em uma mulher, em um mesmo trem, em um mesmo quarto, em um mesmo prato de comida em uma mesa, as folhas de outono que caem e caem sem cessar, como disse Luiz Augusto Fischer. Como fazemos para conviver com tanta precariedade? Não sabemos o que fazer com estas coisas improváveis e inverossímeis da vida. Os protagonistas destas canções estão perdidos, não se veem, só se recordam.

CP – Qual a sua relação com Porto Alegre e com o Porto Alegre em Cena?

Villalba – Minha relação com a cidade nasceu há 18 anos com a primeira edição do Porto Alegre em Cena. Acompanha a maravilhosa obra de Tato Pavlosky: "Rojos Globos Rojos". Então, conheci a meu irmão de alma, Luciano Alabarse. O engraçado é que tudo o que tive a ver com a apresentação foi um desaste. Tivemos que cancelar a primeira noite. Quando voltei a Buenos Aires disse a meus sócios: "É a gente mais encantadora que conheci na minha vida, mas não façamos mais nada em Porto Alegre. Uma vida depois posso dizer, sem dúvida, que a partir desta primeira aproximação minha vida não voltaria a ser a mesma. Geramos uma ponte cultural consolidada entre as duas cidades, o que me deixou uma quantidade incrível de amigos que, como bem me ensinou meu filho Felipe de cinco anos, são a nossa "família de Porto Alegre".

CP - Quais os músicos e convidados do show?

Villalba – No disco, gravaram algumas das canções, grandes artistas como Cida Moreira, Liliana Herrero, Alberto Muñoz, Caroline Neal e Kevin Johansen, acompanhados por diferentes formações orquestrais com a participação de 35 músicos de primeiríssimo nível dirigidos por Diego Schissi. Nos concertos dos festival, haverá participação especial de Caroline Neal recitando um poema de Keats (John, poeta romântico inglês), com o qual se inicia a canção "Nomeolvides" e logo estarão duas das maiores cantoras do que o Hermeto (Pascoal) chama de "Mercosom", Liliana Herrero e Cida Moreira. Além de tudo, são minhas amigas de alma. Liliana é pura luz Cida é quem deu o impulso ao meu regresso à música. Com ela faremos duas canções: "Madreselva" e "Bailando" em versões diferentes.

CP – Como foi a recepção do disco pela crítica argentina?

Villalba – Para minha surpresa, boa. Tenho pudor de dizê-lo mas o diário La Nación o considerou entre os dez melhores discos de 2010. Para ser sincero o que mais me comoveu foram os comentários de muitos artistas que admiro do Brasil e da Argentina, que me deram tanto orgulho e que os levo na alma. Há uma anedota curiosa em relação a estes comentários. Há vinte anos, eu queria lançar meu primeiro disco em paralelo a organização dos primeiros Porto Alegre em Buenos Aires. Então tive a oportunidade de conhecer um disco de Vitor Ramil e pensei comigo: "Para que vou gravar estas canções se já há alguém as escreveu e as interpretou muitíssimo melhor do que poderei fazer". Duas décadas depois que Vitor havia truncado involuntariamente minha "carreira artística", ele escreveu: "Nomeolvides - suas composições e seu conceito – é único no panorama musical contemporâneo da Argentina. Se eu tivesse que associá-lo com algum álbum de outro artista não seria com nenhum compatriota de Carlos e sim com "Água e Vinho", de Egberto Gismonti". Aí, senti que a vida me havia dado uma tapinha carinhoso nas costas.

CP – Qual sua visão do fato de os músicos gaúchos terem maior aproximação com argentinos e uruguaios do que com paulistas e cariocas?

Villalba – Estranho que não havia sucedido antes. Agora se percebe esta relação como natural, cômoda e multiplicadora. Se compartilha uma língua comum nessa grande região pampeana, litorânea. A comunicação então é mais simples. No Porto Alegre em Cena, as obras de Uruguai e Argentina não possuem legendas. Lenta porém certa é a impressão de que São Paulo e outras cidades como Belo Horizonte vão se somando a este intercâmbio. Creio que Arthur de Faria tomou para si este grande movimento de idas e vindas musicais, diminuindo as distâncias entre os três países. Neste aspecto, Surdomundo (Imposible Orchestra) é um projeto magnífico que deveria contar com muito mais apoio público e privado do que tem recebido. Alguém deveria agradecer a este "muchacho" por tantos serviços prestados, não é mesmo? Não há medalhas ou atos públicos para gente como Arthur de Faria ou Luciano Alabarse?

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