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29/03/2014 13:45

O universo trans em peça gaúcha e cearense no FTC

Ator Silvero Pereira fala do espetáculo que será apresentado até domingo no Festival de Curitiba

Silvero Pereira estrela o espetáculo que será apresentado até domingo no Festival de Curitiba<br /><b>Crédito: </b> Juliano Ambrosini
Silvero Pereira estrela o espetáculo que será apresentado até domingo no Festival de Curitiba
Crédito: Juliano Ambrosini
Silvero Pereira estrela o espetáculo que será apresentado até domingo no Festival de Curitiba
Crédito: Juliano Ambrosini

O ator Silvero Pereira encarna diversos travestis, transformistas e mulheres transexuais no espetáculo "BR-Trans", na Mostra 2014 do Festival de Teatro de Curitiba. No palco, as histórias dessas pessoas se fundem numa unidade de medo, solidão, preconceitos e morte em que não se sabe onde termina a história de uma e começa a de outra e a do próprio ator. O espetáculo que é uma produção conjunta gaúcha e cearense será apresentado neste sábado, às 21h, e no domingo, às 19h, no Teatro Paiol, na capital paranaense.

O festival com 400 espetáculos e 1,4 mil apresentações em 82 espaços culturais se estende até 6 de abril em Curitiba, com 35 espetáculos na programação da Mostra, sendo oito estreias nacionais e cinco de grupos estrangeiros, de países como Reino Unido, Chile e Argentina. Mais informações pelo site oficial.

Gisele, Bruna, Dani e outras mulheres que surgem diante do público são fruto da pesquisa, das inquietações e da parceria de Silvero Pereira, de Fortaleza, Ceará, com a diretora e atriz gaúcha Jezebel de Carli a respeito do tema. O texto surgiu de conversas com as próprias pessoas que inspiraram os personagens, em casas noturnas e em ruas de Porto Alegre.

Em cena, dois músicos ajudam a alinhavar as narrativas, pontuadas por canções. No espetáculo, que estreou em 2013 no Assentamento Utopia e Luta, em Porto Alegre, o próprio ator opera a luz para contar as histórias reais que coletou. “BR-Trans” foi desenvolvido através do Edital Interações Estéticas 2012 (Funarte/Minc), em residência no Somos Pontão de Cultura LGBT, de Porto Alegre, com apoio de profissionais de artes cênicas gaúchos.

O trabalho de Silvero Pereira pôde ser conferido recentemente no filme “Serra Pelada”, de Heitor Dhalia, em que ele atua no núcleo das Marias, homossexuais que viviam no Garimpo. Nesta entrevista, Silvero fala sobre o espetáculo, a pesquisa das histórias reais de transexuais, travestis e transformistas de Porto Alegre e da gratidão ao grupo Somos pela existência do projeto.

• Leia a entrevista:

Correio do Povo - Como foi concebido o projeto de BR-Trans?
Silvero Pereira – O projeto surge a partir de uma pesquisa de 12 anos que realizo sobre Teatro e o Universo Trans no Ceará e da necessidade de expandir essa pesquisa por outros lugares do país afim de compreender esse espaço discriminado e marginalizado e tendo o teatro como instrumento de transformação social buscando quebrar preconceitos por meio da arte. Assim, BR-TRANS surge na parceria entre o Pontão de Cultura SOMOS-RS financiado pelo Edital Interações Estéticas 2012 do MINC e FUNARTE. A ideia é investigar a vida de travestis, transformistas e transexuais na cidade de Porto Alegre e comparar com a vida daquelas que vivem no Ceará e assim tentar descobrir e convergências e divergências e relatando essas descobertas a partir de uma obra cênica, espetáculo teatral, tendo sua dramaturgia construída por meio das experiências vivenciadas e coletadas numa residência de 6 meses na capital gaúcha.

CP – A tua pesquisa chegou a que conclusão sobre como é a vida dos travestis, transformistas e mulheres transexuais?
Silvero – Hoje chego à conclusão de que essas meninas não são marginais, elas não estão na margem, elas são meio. A sociedade tem como base a família, a educação e a religião e essas mesmas instituições abandonam e expulsam as travestis, transformistas e transex, logo, essa marginalização é produto dessa tríade. Portanto, a marginalização do universo trans é filho de uma sociedade excludente que deveria acalentar e não renegar.

CP – O que representa para o espetáculo participar da Mostra principal do Festival de Curitiba?
Silvero ­–
O Festival de Curitiba nos representa, acima de tudo, um reconhecimento artístico. Durante muito tempo, minha pesquisa foi questionada na arte (no Ceará) se seria teatro ou transformismo. Nesse momento estamos na programação oficial do Festival com o BR-TRANS, além da seleção no Festival internacional de São José do Rio Preto - SP e com circulação nacional pelo Palco Giratório com o solo "Uma Flor de Dama". Assim, Curitiba nos representa uma oportunidade de divulgar nossa pesquisa, contribuir com questões sociais e nos dar visibilidade e possibilidade de circulação.

CP – Gostaria de saber sobre as pessoas que inspiraram a peça em Porto Alegre.
Silvero –
Em primeiro lugar deve-se falar da ala para travestis e companheiros no Presídio Central de Porto Alegre, pois foram elas e seus maridos que mais me emocionaram e impulsionaram meu desejo de falar sobre as dores provocadas por uma sociedade cruel e hipócrita. Outras figuras importantes são: Marcely Malta - representante da Igualdade-RS com toda sua história, força, sofrimento, luta e vitória ao decidir ser transexual e sair do interior em busca de sua verdade na capital; Marina Reidel - Professora que enfrentou obstáculos na família e na educação, mas que hoje faz mestrado em Direito; Babi - Transformista que queria ser atriz, mas hoje mora em pelotas com a família que a impede de ser travesti; as transformistas Laurita Leão, Maria Helena Castanha, Glória Cristal e Dandara Rangel - Pela resistência na arte transformistas e a importância histórica no teatro gaúcho; as travestis da avenida Farrapos e a coragem de enfrentar a cidade para assumir seus desejos e buscar felicidade.

CP – Também seria interessante que você falasse da equipe do espetáculo, dos gaúchos, como a diretora Jezebel de Carli e também do Grupo Somos.
Silvero -
O SOMOS é o responsável pelo projeto e minha vinda ao Rio Grande do Sul. Tudo começou pelo desejo que tínhamos de trabalhar juntos fortalecendo as ações de gênero e arte e pela identificação com o artista plástico Sandro Ka. Assim, surge também o desejo de interagir com outros artistas locais como o Iluminador Luccas Simas de quem eu já admirava alguns trabalhos, o Músico Rodrigo Apolinário que acompanhou todo o processo e tornou-se fundamental na execução final do espetáculo, a colaboração na cenografia de Marcos Krug, o olhar fotográfico de Renata ibis e Luciane Pires e o belíssimo e apaixonante encontro com a diretora Jezebel de Carli, que a princípio seria uma orientadora no processo criativo, mas que foi muito feliz seu envolvimento e a forma como nos identificamos na relação entre ator e diretor. A Jezebel foi fundamental no sucesso da obra porque foi capaz de me tirar do conforto cênico e me provocar novas perspectivas e avançar na minhas pesquisa nessa linha de teatro.

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Fonte: Luiz Gonzaga Lopes / Correio do Povo





» Tags:Teatro Variedades

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