Porto Alegre, segunda-feira, 24 de Novembro de 2014

  • 26/04/2014
  • 00:39
  • Atualização: 00:45

Performances do Festival de Teatro de Rua se espalham por Porto Alegre

Curador do festival comenta os destaques do evento em entrevista

Ator e diretor Alexandre Vargas é idealizador do evento | Foto: Laura Circueka / Divulgação

Ator e diretor Alexandre Vargas é idealizador do evento | Foto: Laura Circueka / Divulgação

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  • Vera Pinto/Correio do Povo

Neste final de semana o 6º Festival de Teatro de Rua de Porto Alegre (FITRUPA) chega ao seu ponto alto, com apresentações de todos os grupos participantes, no sábado (dia 26) pelos bairros e domingo (dia 27) no Parque Farroupilha/Redenção, das 10h às 21h. Em diferentes linguagens, grupos da capital gaúcha, diversas partes do Brasil e da Espanha e França mostram seus trabalhos, em cerca de 60 apresentações em 25 bairros, contemplando as 17 regiões.

O principal evento do gênero no Brasil teve início no último dia 20, possibilitando trocas entre artistas, discussões, debates e inúmeras atividades formativas, além de apresentações em espaços abertos e pontos de cultura. Estimular a reflexão e desafiar posturas e posicionamentos estabelecidos, abrindo espaço para diálogos francos sobre a produção teatral contemporânea e sua relação com o espaço público estão nos objetivos. Veja a programação no site oficial.

Confira abaixo entrevista com o idealizador, coordenador e um dos curadores do festival, Alexandre Vargas:

CP: Qual foi o teu objetivo ao criar o festival e qual o público atingido inicialmente?
AV -
"Em que lugar físico, geográfico, afetivo e mental se encontra o teatro de rua no Brasil?” É à luz dessa pergunta que foram estabelecidas as bases para a constituição do Festival de Teatro de Rua de Porto Alegre que teve a sua 1º edição em 2009. Produzir reflexão, desafiar posturas e posicionamentos entre o tradicional e o contemporâneo é uma intencionalidade artística do festival.

O objetivo era alterar a relação entre o teatro e a cidade. Múltiplas e vigorosas propostas de intervenções no espaço público podem ser observadas nos vários âmbitos de atuação dos artistas na contemporaneidade. Essa promoção do hábito do encontro entre os artistas com o cidadão, com a população, convocam à reflexão os pensadores da nossa situação política, social, econômica e cultural na atualidade. Até hoje o processo que surge da relação e das idiossincrasias dos artistas com a cidade mantêm a reflexão crítica, o olhar atento e a percepção aguçada sobre o principal objetivo do festival: a cidade como principio, interlocução e fim. Na 1o. Edição, em 2009, o publico atingido foi entre 40.000 a 50.000.

CP: A formação de plateia para teatro de rua e o intercâmbio e aperfeiçoamento de artistas estão nos pontos centrais, em termos de meta?
AV -
A formação de plateia para a CIDADE! Não para o teatro de rua. É um festival pensado para a cidade, não para defender um nicho de atuação. O festival com as suas ações, orgânicas e complementares, fomenta a construção de novas relações de trabalho e produção, o desenvolvimento de novas técnicas, a criação de novas poéticas e também a formação de novos públicos, pois estabelece outros vínculos com a população.
O Festival Internacional de Teatro de Rua de Porto Alegre - FITRUPA repensa as relações por meio do exercício estético dos artistas participantes entre a população, seja pelos conteúdos e formas abordados nas obras, seja pelas relações estéticas estabelecidas nos trabalhos teatrais, seja na interlocução com outros agentes da sociedade. Portanto, não se trata apenas de proporcionar entretenimento, o desafio e a meta é a ampliação do pensamento.

CP: Você poderia falar da evolução do evento, inclusive com números? Ele mudou de perfil ao longo do tempo?
AV -
A evolução do festival está associada com o seu objetivo e suas metas. Portanto hoje, pode-se afirmar que existe uma modificação efetiva da geografia do teatro na cidade de Porto Alegre que aponta para o enraizamento dinâmico do teatro na cidade e para a cidade. Na atualidade o festival realiza atividades culturais em 28 bairros nas 17 regiões da cidade. Com reconhecimento do público e crítica, o Festival Internacional de Teatro de Rua de Porto Alegre é o principal evento do gênero no Brasil. Incluindo essa edição já foram realizadas 242 apresentações, por 92 grupos de artes cênicas de rua, entre eles alguns dos principais grupos do Brasil e do exterior. Na 6o. Edição foram 300 inscrições de 22 Estados do Brasil e de 11 países, é uma demanda que sinaliza o reconhecimento do festival como um dos eventos mais importantes do gênero. Sim, o perfil mudou ao longo do tempo, basicamente a internacionalização do festival.

CP: O que envolve um evento deste porte? Em termos de logística, pessoal, etc?
AV -
No primeiro plano está a composição de um organograma de conceitos e a partir disso é realizado a estruturação dos programas do festival, ou seja preservamos a identidade artística do evento. No sentido administrativo e de gestão envolve um planejamento de curto, médio e longo prazo, na prática temos que atuar sobre o agora e projetar os dois próximos anos. É básico o entendimento da legislação sobre as leis de incentivos, sobre os planos de cultura do município, do estado e federal. Fundamental é ter um senso de agilidade e de percepção para possíveis investidores e para criar uma matriz orçamentária. Atuamos com uma equipe enxuta, mas o festival envolve 350 pessoas diretamente e 950 pessoas indiretamente.

CP: Quais seriam as maiores dificuldades para sua realização?
AV -
A maior dificuldade é a cultura do “Imediatismo”, ou seja, não se permite pensar a longo prazo. Portanto hoje não podemos planejar o festival com 2 anos de antecedência devido ao sistema de financiamento que temos no Brasil. Outra dificuldade extremamente danosa é a demora nas questões contratuais de patrocínio, um projeto pode levar até seis meses para ter o contrato assinado, essa demora inviabiliza a execução do cronograma e dificulta a relação com os fornecedores de serviço. É necessário mencionar que essa demora em assinar os contratos se reflete em demora de pagamento, nesse sentido isso vem impactando o mercado de trabalho, ou seja, existe na cadeia produtiva diversos fornecedores que não querem mais trabalhar com projetos culturais devido a demora em executar os pagamentos.

CP: O que você destacaria na programação deste ano?
AV -
Destacaria além da produção regional os espetáculo “Bivoac” de um dos mais significativos grupos de teatro de rua do mundo o Generik Vapeur da França, a “Sagração da Primavera” do Catalão Roger Bernat que é a montagem do espetáculo da Pina Bauch pelo público. A TrouppPas D’argent que é uma jovem e premiada Companhia de Teatro do Rio de Janeiro. E a cena do Centro-Oeste representada pelas cias: Andaime, Teatro que Roda e Cia Nu Escuro.

CP: A forma como a rua trata a arte, com seus personagens corriqueiros ou os raros, mas de não menos importância, sempre foram o objeto dos artistas de rua, não?
AV -
Está cada vez mais difícil fazer essa segregação “Artista de Rua”, por uma simples razão: os espaços urbanos, e até os rurais, são ocupados pelas mais diversas manifestações artísticas. Não é de hoje, mas o objeto do artista é a sociedade. A consistência do teatro de rua reside no grupo vulnerável de pessoas que o compõe. Esse teatro desaparece com essas pessoas, mas ele se move baseando-se em desenhos independentes. Sua forma, sua maneira de organizar-se, sua maneira de entrar em contato com os espectadores e com a realidade social circudante, em muitos casos não se adapta aos modelos teatrais vigentes. Em geral esse teatro deriva de necessidades pessoais e do grau de distância dos valores e práticas reconhecidas e consolidadas.

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