Porto Alegre, domingo, 23 de Novembro de 2014

  • 26/04/2014
  • 11:37
  • Atualização: 11:55

Salman Rushdie vem a Porto Alegre para Fronteiras do Pensamento

Britânico de origem indiana é um dos malditos da Literatura

Salman Rushdie vem a Porto Alegre como palestrante do ciclo Fronteiras do Pensamento | Foto: Martyn Hayhow / Divulgação / CP Memória

Salman Rushdie vem a Porto Alegre como palestrante do ciclo Fronteiras do Pensamento | Foto: Martyn Hayhow / Divulgação / CP Memória

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  • Juremir Machado da Silva / Correio do Povo

Salman Rushdie vem a Porto Alegre como palestrante do ciclo Fronteiras do Pensamento. Michel Houellebecq fez o mesmo em 2007. Entre eles, um ponto em comum: a maldição. Rushdie é cidadão britânico de origem indiana. Houellebecq é francês nascido na ilha da Réunion. Ambos são ricos, famosos, admirados, odiados e isolados. A maldição de cada um deles, porém, é muito diferente. Houellebecq é um estranho no mundo, um maldito por temperamento. Rushdie tornou-se mundialmente conhecido quando se lançou contra ele uma maldição, uma fatwa, uma condenação à morte, por, supostamente, com seu livro "Versos Satânicos", ter ofendido a religião islâmica.

Michel Houellebecq é meu amigo. Um homem estranho. Fomos juntos à Patagônia. Introduzi a sua literatura no Brasil traduzindo para a editora Sulina seus livros "Partículas Elementares" e "Extensão do Domínio da Luta". Uma foto dele, na capa da revista francesa Sofilm (abaixo), mostra uma imagem preocupante: um corpo decadente. Paradoxalmente sua ficção parece mais pujante do que nunca. Enviei-lhe algumas questões para uma entrevista. Respondeu-me com a ironia de sempre: "Estou tentando escrever um romance. Não queres responder por mim? Juro que não reclamarei". A maldição é uma tradição na literatura. Charles Baudelaire e Jean-Arthur Rimbaud foram malditos. O menino Rimbaud largou a poesia para traficar armas na África. Baudelaire explorou a margem.

Conheci Salman Rushdie em 19 de março de 1995, no Salão do Livro de Paris. Eu era correspondente em Paris de um jornal gaúcho e estava emocionado. Rushdie chegou cercado por um fortíssimo esquema de segurança. Podia ser assassinado a qualquer momento. Provocou tanta excitação que a sua chegada virou barraco. Intelectuais interpuseram-se entre ele o público, em pé, não para protegê-lo, mas para filmá-lo. A plateia lançou uma fatwa contra os que não queriam sentar. Os filósofos Claude Lefort e Alain Finkielkraut tiveram de intervir para garantir a palavra ao convidado, que se divertiu: "Tem um aspecto positivo nisso: é como se eu voltasse à vida normal e participasse sem problemas de uma briga banal". Lefort definiu: "É um encontro político histórico". Foi. Havia tensão e indignação na atmosfera.

As palavras de Salman Rushdie nunca foram desmentidas: "Até hoje a comunidade internacional não se propôs a expulsar o Irã da ONU ou a adotar sanções contra uma nação que atenta contra os direitos do homem". Michel Houellebecq não tem dúvidas: os direitos do homem ainda são uma ficção. Rushdie disparava: "É triste estar num salão do livro cercado de policiais, a não ser que agora a Polícia se interesse por literatura. Agradeço pela proteção. Queria não apenas ser defendido, mas ver o Ocidente partir para a ofensiva. O Irã possui um regime impopular, tem grandes dificuldades econômicas e teria de ceder diante de fortes pressões internacionais. Falta a vontade política". Na obra de Houellebecq, só os chamados "terroristas" têm vontade política. O resto é letargia.

Durante o encontro, Salman Rushdie foi questionado por um muçulmano: "Por que o senhor insiste em atacar o nosso profeta?". O escritor apertou os lábios e respondeu: "Eu não faço isso. Contei nos 'Versos Satânicos' a história de um encontro do profeta com o diabo. Nada inventei. Isso consta nas escrituras. Meu livro trata mais do problema da imigração e critica muito mais o Ocidente". O muçulmano gritou: "Blasfêmia". Salman, por fim, fez sua profissão de maldito: "O silêncio será a minha morte, pois me nutro de palavras e não tenho outra saída, mas ainda creio que tudo mudará". Michel Houellebecq foi processado por dizer que a religião muçulmana era a mais idiota entre todas as existentes.

Por que esse gosto pela provocação? Por que essa necessidade de confronto? Salman Rushdie escapou da morte. É um homem elegante. Houellebecq vive condenado por si mesmo à estranheza. Estilos diferentes, biografias incomuns, uma mesma convicção: a literatura deve exprimir o mal que transtorna as sociedades e perverte os homens.

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