Porto Alegre, domingo, 23 de Novembro de 2014

  • 26/04/2014
  • 16:26
  • Atualização: 16:43

Musical conta breve e intensa trajetória de Cazuza

Peça tem 16 artistas e será apresentado neste fim de semana em Porto Alegre

Hits da Barão Vermelho e sua carreira solo estão no repertório | Foto: Divulgação / CP

Hits da Barão Vermelho e sua carreira solo estão no repertório | Foto: Divulgação / CP

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  • Vera Pinto / Correio do Povo

Agenor de Miranda Araújo Neto (1958-1990), um dos maiores compositores da música brasileira, com suas letras poéticas e recheadas de crítica, falou como ninguém da juventude dos anos 1980. Sua vida breve e muito intensa, é tema de "Cazuza Pro Dia Nascer Feliz, o Musical", que chega a Porto Alegre, no Teatro do Bourbon Country, protagonizado por Emílio Dantas, dirigido por João Fonseca e com texto de Aloísio de Abreu.

Dezesseis artistas sobem ao palco, para dar vida aos seus pais, João e Lucinha Araújo, ao produtor Ezequiel Neves, ao cantor Ney Matogrosso - por quem foi apaixonado e cuja importância foi diminuída no filme "Cazuza, o Tempo Não Para' de Sandra Werneck e Walter Carvalho - a amizade com Bebel Gilberto, e a relação com os companheiros de banda, Frejat e Guto Goffi.

Hits da Barão Vermelho e sua carreira solo estão no repertório, como Bete Balanço", "Codinome Beija flor", "Ideologia", "Exagerado", "Faz Parte do Meu Show" e algumas que nunca chegou a gravar, como "Malandragem", "Poema" e "Mais Feliz".

A montagem dá continuidade à pesquisa desenvolvida por João Fonseca, de uma cena musical brasileira mais despojada e teatral, iniciado com "Gota d’água" e que culminou no "Tim Maia". Para a construção do texto, Aloísio de Abreu partiu das conversas com pessoas próximas a Cazuza e fez uma ampla pesquisa para a criação da estrutura dramática do espetáculo, procurando contar a história de forma ágil. Avançou a partir dos momentos de virada na carreira e na vida dele: a descoberta do teatro, o gosto pelo rock, o momento em que resolve cantar, montar uma banda, se profissionalizar, o estouro, as brigas, a mudança no estilo de sua obra, o estrelato solo, a descoberta da doença, a urgência poética no fim das forças. Enfim, momentos que levam a história adiante.

CP: Como foi sua preparação para elaborar o texto e quanto tempo durou este processo? Você entrevistou a mãe de Cazuza, seu ex-companheiro, Serginho e Frejat. Tem mais alguém que tivesse contribuído no processo?

Aloísio de Abreu - As principais fontes foram estas mencionadas. Eu me debrucei sobre "Só as mães são felizes". depoimento que a Lucinha deu à jornalista Regina Echeverria, alem de "Por que a gente é assim?", livro onde o Ezequiel Neves - que foi produtor do Barão Vermelho e do Cazuza, - tambem escreveu. Serginho e Frejat me situavam, esclareciam fatos. A partir deste material, eu criei uma estrutura narrativa onde a música fosse o eixo dramático. Cazuza tem canções muito confessionais, outras são crônicas do seu (nosso) tempo e uma poesia contemporânea, direta, cortante e profunda. Em musicais, canções avançam com a história. Fiz isso com as músicas dele, sem pensar em cronologia, mas, sim, pra contar uma história. A história do Cazuza.


CP: Sual a tua motivação para escrever sobre o ícone da juventude oitentista, que morreu cedo, aos 32, e em apenas oito anos de carreira representou, com a força de sua poesia e crítica, toda uma geração?

AA - Andro Chaim, o produtor e idealizador do projeto me convidou. Fiquei imensamente feliz. Sou da mesma geração do Cazuza, estava sempre por perto, temos vários amigos em comum - eu faço teatro, assim como o Serginho, a Bebel Gilberto fez tambem. Escrever sobre o Cazuza é um pouco como escrever sobre nós mesmos, que vivemos a boemia, a festa e a juventude num Brasil que começava a se abrir. A poesia do Cazuza é atemporal e tem uma comunicabilidade impressionante. Ele é amado por pessoas de todas as idades e classes sociais. Até hoje! E até hoje suas músicas tocam nas rádios. Ele é um artista de uma pureza bruta. Me sinto privilegiado de poder contar essa história. Principalmente no teatro!


CP: Quando eu soube do musical, a primeira coisa que me veio à cabeça é se ele falaria do romance de Cazuza com Ney Matogrosso, uma de suas maiores paixões. Porque no filme, praticamente ficou de fora, o que é essencial e afetou sua credibilidade. Que tratamento você deu ao personagem dele, o Ney?

AA - A história de Cazuza e Ney está no palco como foi na vida. O Ney foi fundamental pro Cazuza. Foi ele que gravou "Pro dia nascer feliz" e fez do Barão Vermelho um sucesso. Embora tenham tido um relacionamento breve - três meses - ficaram amigos até o fim da vida do Cazuza. O Ney é o máximo! Um artista maior!


CP: Apesar disto, a peça emocionou Lucinha Araújo. Pela omissão de Ney no filme, feito a partir do livro "Cazuza, Só As Mães São Felizes", escrito por ela junto com a jornalista Regina Echeverria. e numa época, cogitar que fossem proibidas regravações de canções de seu filho, você acredita que 25 anos depois, ela conseguiu elaborar tudo? Isto considerando uma delcaração sua, de que talvez tivesse sido melhor ter tido um filho normal, e que só mais tarde viu que deu a luz a um gênio?

AA - A Lucinha é uma fortaleza. Ela é o esteio do filho, do João (marido e pai do Cazuza e que morreu em 2013) e assiste o espetáculo todas as sextas-feiras. Acho que ela se sente bem assim. Viva. Sem falar na obra que ela realiza na Sociedade Viva Cazuza, ajudando crianças e jovens portadores do vírus HIV. Lucinha é muito bacana, generosa, uma mãezona!


CP: Dada a pesquisa que voce fez para compor o musical, a que você atribui o estrondoso sucesso de Cazuza?

AA- O estrondoso sucesso do musical deve-se a um nome: Cazuza! Acho que todo mundo tem um Cazuza dentro de si: rebelde, sentimental, exagerado, delicado. Paradoxos em constante movimento e o teatro é um lugar onde a gente pode se ver, como num espelho. A interpretação do Emílio Dantas é outro fator. Ele faz um excelente Cazuza. Não é imitação, não é cover. É trabalho de ator. Uma composição requintada. Susana Ribeiro fazendo a Lucinha Araújo tambem é um assombro. Aliás, o elenco inteiro é um espetáculo. Veja o André Dias fazendo o Ezequiel Neves e depois me fala. É, acho que todos esses elementos fazem do nosso musical um estrondoso sucesso.


CP: Pelo temperamento intempestivo, Cazuza era objeto de amor e ódio das pessoas, não?

AA -
Não conheço ninguem que odeie o Cazuza.


CP: A que você atribui a atualidade das letras de Cazuza? Pelos rumos que tomaram nossa política e exemplos de falta de ética, ele teria farto material para seu trabalho, se continuasse vivo?

AA - Como disse antes, a poesia do Cazuza é atemporal e tem uma comunicabilidade enorme. Além disso, era um artista inquieto. Em dado momento de sua vida, enquanto estava em Boston fazendo tratamento, ele caiu em si e percebeu que pertencia a uma geração sem ideologias, sem bandeiras. Ele não queria só falar de amor, dor de cotovelo, essas coisas. Antena poderosa que era, conseguiu traduzir, com suas letras, o que toda uma geração pensava e não falava. Ele foi lá e falou. Cazuza, eu quero um pra viver!

SERVIÇO
Cazuza Pro Dia Nascer Feliz, o Musical

Dias: 26 abril (sábado, 17h e 21h) e 27 abril (domingo), 17h.
Local: Teatro do Bourbon Country (Av. Túlio de Rose, nº 80 / 2º andar)
Classificação: 14 anos (menores de 14 anos somente acompanhados de pais ou responsáveis)
Duração: 2h30min incluindo intervalo de 15min


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