Correio do Povo

Porto Alegre, 1 de Setembro de 2014


Porto Alegre
Agora
14ºC
Amanhã
16º 20º


Faça sua Busca


Arte & Agenda > Variedades > Literatura

ImprimirImprimir EnviarEnviar por e-mail Fale com a redaçãoFale com a redação Letra Diminuir letra Aumentar Letra

05/06/2014 16:45 - Atualizado em 05/06/2014 17:01

Clássicos “assanharam” o desejo de escrever de Milton Hatoum

Escritor manauense participa da Feira do Livro de Canoas e ministra curso na Capital

Escritor irá falar em curso sobre o desejo de escrever e as estratégias narrativas<br /><b>Crédito: </b> Ricardo Giusti / CP / Memória
Escritor irá falar em curso sobre o desejo de escrever e as estratégias narrativas
Crédito: Ricardo Giusti / CP / Memória
Escritor irá falar em curso sobre o desejo de escrever e as estratégias narrativas
Crédito: Ricardo Giusti / CP / Memória

Milton Hatoum é um daqueles escritores com os quais dá vontade de ficar conversando entre um ou dois cafés, sem que o assunto se esgote e sem que o assunto literatura se esvaia. De Flaubert a Machado de Assis, de James Joyce a Dyonélio Machado, todos os temas literários ou não podem entrar na conversa com o escritor e professor manauense de 61 anos, radicado em São Paulo. Hatoum é autor de obras que já se inscreveram na história da literatura brasileira contemporânea, como os romances "Relato de um Certo Oriente" (1989), seu primeiro livro (que completa 25 anos em 2014) e "Dois Irmãos" (2000), ambos pela Companhia das Letras, obras que trabalham o drama de uma família de origem libanesa e as ruínas de uma casa que se desfaz ou se reconstrói memorialisticamente. Hatoum já foi traduzido para 12 idiomas em 14 países. Outras obras de expressão do autor são "Cinzas do Norte", "Órfãos do Eldorado", "Cidade Ilhada" (contos) e mais recentemente o livro de crônicas publicadas na imprensa, "Um Solitário à Espreita" (Companhia das Letras, 2013).

Considerado um dos maiores ficcionistas brasileiros contemporâneos, Hatoum está no Rio Grande do Sul para dois eventos. O primeiro deles é na noite desta quinta, às 19h30min, na 30ª Feira do Livro de Canoas, quando participa da mesa do homenageado do evento, o jornalista e escritor carioca Zuenir Ventura, com mediação de Sergius Gonzaga. Na sexta-feira das 19h às 22h, e no sábado, 7, das 9h às 12h, no Gabarito Pré Vestibular (Pinheiro Machado, 140), o autor ministra o curso "A Invenção Literária (Histórias secretas de um romancista)". Os temas dos encontros são A construção do Universo Ficcional (Relato de um Certo Oriente/ Dois Irmãos) e Modos de escrita e desdobramentos imaginativos (Cinzas do Norte / Órfaos do Eldorado). A mediação será do professor Sergius Gonzaga, com mais informações pelos fones 3221-2310 ou 3264-2426.

Em entrevista ao Correio do Povo, Milton Hatoum fala de como ele inventou o seu escritor, do curso que ministra em Porto Alegre, do livro de crônicas, dos 25 anos do seu primeiro livro, do legado de Machado de Assis e também da admiração pela capital gaúcha.

Correio do Povo - Como a literatura se deu em ti? Como inventaste o teu escritor?
Milton Hatoum - Tudo começou com as narrativas orais dos mais velhos da minha família. Depois, a leitura de alguns clássicos assanhou meu desejo de escrever. O resto, ou seja, quase tudo é paciência, trabalho e muita imaginação, que é força da ficção.

CP - Como será este curso que ministrarás durante dois dias em Porto Alegre?

MH - Vou falar sobre os quatro romances: Relato de um certo Oriente, Dois irmãos, Cinzas do Norte e Órfãos do Eldorado. E, claro, vou comentar as dificuldades que enfrentei para escrever esses livros. Somos movidos pelo desejo de escrever, mas o romance só funciona quando o demônio aparece. O demônio do impasse, do silêncio e das interrogações. Pretendo também comentar alguns aspectos das estratégias narrativas, questões sobre o narrador, tempo, espaço e construção de personagens, dando exemplos concretos de romances e contos.

CP - Ao ler "Um Solitário à Espreita", temos a impressão de uma gratidão tua para com aqueles que passaram ou ainda fazem parte da tua vida, principalmente nas crônicas de "Adeus aos Corações que Aguentaram o Tranco". O que poderias dizer sobre os forjadores, os escultores da tua literatura?

MH - A literatura sempre paga um dízimo à realidade, como disse o crítico Lourival Holanda. Em algumas crônicas, mistura de memória afetiva e lances inventados, tentei falar sobre pessoas e suas máscaras, que, juntas, forjam personagens. Mas o tema das tuas perguntas será abordado nos cursos.

CP - "Relato de um Certo Oriente" comemora 25 anos neste 2014. Tu poderias falar deste um quarto de século percorrido, dos prazeres e dos sofrimentos para chegares até a tua escrita atual?
 

MH - Foram 25 anos de aprendizagem, de tentativas fracassadas, de muita experiência de vida e leitura, de manuscritos terminados, mas não publicados, e de mudanças radicais na minha vida. A grande mudança foi espacial, geográfica, profissional e afetiva: em 1998 saí definitivamente de Manaus e vim morar em São Paulo, interrompi minha atividade docente na Universidade Federal do Amazonas, abandonei um doutorado na USP e me lancei de corpo e alma à escrita do “Dois irmãos”. Esse romance foi uma espécie de alforria. Não conseguia conciliar a atividade docente com a de escritor. Essas rupturas causaram sofrimento. Mas desde que me mudei para São Paulo, pude escrever e publicar três romances, um livro de contos e outro de crônicas, além de traduções e ensaios. Se eu tivesse ficado em Manaus, estaria emparedado. Bom, de algum modo e até certo ponto, todos nós estamos emparedados, mas em São Paulo recuperei a energia que estava engessada quando vivia na minha cidade.

CP - "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria". Com esta frase, Machado de Assis em 1881 encerrava um dos seus mais viscerais e inventivos romances, marco do realismo no Brasil, "Memórias Póstumas de Brás Cubas". Qual é o legado para as gerações atuais deste autor cujo narrador dedicou o livro ao verme que roeria a sua carne fria.

MH - O legado de uma literatura sofisticada, extremamente refletida e inovadora, que herdou muita coisa da literatura brasileira e europeia. Machado foi o maior escritor da América Latina do século 19, e também um dos grandes precursores de Jorge Luis Borges, embora este, aparentemente, não tenha lido a obra do Bruxo.

CP - Para fechar, também em "Um Solitário à Espreita", fica transparente um pouco da tua admiração por Porto Alegre, onde tens muitos amigos e onde se é possível que os pipoqueiros e estivadores possam ter lido Dyonelio Machado e a aura da Livraria e Editora do Globo pode se fundir com a discussão de Finnegans Wake, de Joyce. Explique-nos um pouco mais esta relação afetuosa com a capital gaúcha.

MH - Os extremos se atraem. Para nós, amazonenses, o Rio Grande do Sul é o Outro mais distante: um território físico e cultural totalmente diferente da Amazônia. Mas é o Outro que nos pertence e com o qual dialogamos, mesmo à distância. Os livros da Editora Globo aparecem no “Cinzas do Norte”, em que o personagem Ranulfo (tio Ran) lê, deitado numa rede, “os livros que vinham do Sul”. Eu li alguns desses livros no Ginásio Amazonense Pedro II. Li, muito jovem, romances de Erico Verissimo, livros que me atraíram para a arte de narrar e que também me permitiram conhecer a história do Rio Grande do Sul. Tenho amigos gaúchos, pessoas admiráveis em todos os sentidos: Lucia e Luis Fernando Verissimo, Sergius Gonzaga, Assis Brasil. Um dos grandes poemas brasileiros é “Cobra Norato”, de Raul Bopp. Conheço razoavelmente a obra de escritores gaúchos, mesmo a dos mais jovens, como a poesia de Angélica Freitas e a prosa de Veronica Stigger e de Michel Laub. E há uma coisa que me atrai em Porto Alegre: a vida portuária. Mas é preciso derrubar aquela parede que tapa a visão do porto. Manaus e Porto Alegre ainda não aproveitaram a potencialidade visual, cultural e histórica de suas áreas portuárias. Belém, uma cidade extraordinária, fez isso. A Estação das Docas, na capital do Pará, é uma obra arquitetônica notável. Ela integra o rio à cidade, a natureza ao mundo urbano. Talvez essa mudança esteja acontecendo em Porto Alegre, mas não em Manaus, que construiu a suntuosa Arena Amazônia, mas virou as costas ao rio Negro, uma das mais belas paisagens do planeta.


Fonte: Luiz Gonzaga Lopes / Correio do Povo






O que você deseja fazer?


Busca

EDIÇÕES ANTERIORES

Acervo de 09 de Junho de 1997 a 30 de Setembro de 2012. Para visualizar edições a partir de 1 de Outubro de 2012, acesse a Versão Digital do Correio do Povo. No menu, acesse “Opções” e clique em “Edições Anteriores”.