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  • 20/12/2017
  • 14:44
  • Atualização: 15:16

"The Post" faz uma ode ao jornalismo e às virtudes da imprensa livre

Mais conciso que "Spotlight", longa dirigido por Steven Spielberg tem Meryl Streep e Tom Hanks como protagonistas

Filme reconstrói os bastidores da publicação dos Pentagon Papers pelo The Washington Post em 1971 | Foto: Divulgação / CP

Filme reconstrói os bastidores da publicação dos Pentagon Papers pelo The Washington Post em 1971 | Foto: Divulgação / CP

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  • Correio do Povo

* Com informações da AFP

Numa época em que os meios de comunicação estão sendo acusados de vender "notícias falsas", Steven Spielberg, Meryl Streep e Tom Hanks oferecem ao público um filme celebrando a importância do jornalismo e as virtudes de uma imprensa livre. "The Post", que estreia Estados Unidos na sexta-feira - no Brasil, chega ao circuito comercial em 25 de janeiro -, relata os emocionantes bastidores da publicação dos Pentagon Papers, em 1971 pelo The Washington Post, que expôs as mentiras por trás do envolvimento dos EUA no Guerra do Vietnã.

Dirigido por Spielberg, cuja longa lista de créditos inclui "O Resgate do Soldado Ryan", "A Lista de Schindler", e "ET", o longa apresenta Meryl como a publicista aristocrática Katharine Graham e Hanks como editor executivo do jornal, Ben Bradlee. O drama no coração do filme gira em torno da decisão de Graham de seguir em frente e publicar os documentos, uma jogada que poderia ter tido consequências potencialmente fatais para o jornal familiar que assumiu oito anos antes do suicídio de seu marido.

Os Pentagon Papers divulgados pelo ex-analista militar norte-americano Daniel Ellsberg, formavam um relatório classificado com 7 mil páginas que determinava - ao contrário das afirmações públicas de funcionários do governo dos EUA - que o conflito do Vietnã não era possível. O New York Times publicou trechos até que a administração do presidente Richard Nixon obteve uma injunção judicial, impedindo o jornal de continuar a fazê-lo por motivos de segurança nacional. Foi aí que o Post entrou, corrompendo o perigo legal e financeiro para assumir os riscos.

Spielberg, Streep e Hanks participaram de uma exibição de "The Post" no santuário do jornalismo, o Newseum, em Washington, na semana passada, localizado a poucos quarteirões da Casa Branca. Ausente no evento, mas circundando as conversas, estava o presidente Donald Trump, que realizou uma campanha vitriólica contra os meios de comunicação que ele acredita serem injustos para ele. O Republicano tem sido particularmente cúmodo sobre a CNN e o New York Times, mas ele também atacou repetidamente o Post, chamando-o de "desonesto", "falso" e afirmando que o diário propaga "notícias falsas". Ele se refere ao jornal em seus tweets como o "Amazon Washington Post", uma referência a Jeff Bezos, dono da gigante de varejo online Amazon que comprou o Post da família Graham em 2013.

Ainda mais potente que "Spotlight"

Depois que o conciso "Spotlight: Segredos Revelados" venceu o Oscar de melhor filme em 2016, as comparações entre os longas se tornarão uma constante. Contudo, esta nova produção apresenta ainda mais relevância: trata-se de uma pequena obra-prima que não falha na missão e na responsabilidade de ser um filme alavancado no passado, com o ambiente fumarento e o caos nas redações dos grandes jornais retratado de forma verossímil, além de trazer uma abordagem psicológica sobre os dramas da publicista em divulgar ou não materiais que poderiam mudar a América. "Spotlight" foi basicamente um manual jornalístico de como relatar uma história, esmiuçando passo a passo o processo. Este é muito mais um filme sobre como gerir um jornal.

O Washington Post enfrentou ameaças legais crescentes e outros obstáculos importantes durante a época dos documentos do Pentágono. O equilíbrio da verdade e a liberdade de informação com preocupações comerciais significativas foi um tema de corrida através da provação da vida real. Também separando "The Post" de "Spotlight" está o fato de que os protogonistas do primeiro são praticamente o oposto de seus personagens. Meryl foi nomeada 20 vezes ao Oscar, com três vitórias, mas a mulher que vive na obra agora está atingindo seu auge profissional, no final da vida. Hanks foi indicado cinco vezes - venceu duas. Já seu Bradlee, conhecido como o pai da América, é, aparentemente, um verdadeiro idiota no filme, o que pode oferecer aos espectadores uma mudança de ritmo agradável.

"Um filme sobre patriotismo"

Falando aos repórteres no tapete vermelho no Newseum, Spielberg, Hanks e Streep relutaram em chamar o presidente pelo nome e minimizaram os rumores de que o filme é uma espécie de ataque à Casa Branca. "Eu acho muito importante que seja visto não como um jogo político e partidário por parte do que eles chamam de mídia liberal ou Hollywood", disse Spielberg. "Eu não vejo isso como um filme partidário, mas um filme sobre patriotismo e um filme sobre a mídia corajosa, o Quarto Estado e o que eles fizeram para poder publicar os Pentagons Papers que levaram a Watergate", completou. O escândalo de Watergate, o qual o Washington Post também desempenhou um papel principal, foi o tema de um blockbuster de Hollywood de 1976, "Todos os Homens do Presidente", com Robert Redford e Dustin Hoffman como os repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein. 

Apesar dos protestos de Spielberg, é impossíevel não encontrar paralelos entre sua obra e a vilipendiação da informação por Trump. O filme leva o espectador de volta a um momento em que as liberdades que pensávamos ter como garantidas foram ameaças, assim como estão hoje. Trata-se de um filme atemporal, que utiliza o passado para mostrar a urgência dos meios de comunicação na manutenção da democracia. O filme está aqui para avisar de novas ameaças à liberdade de imprensa.

Assista ao trailer de "The Post":