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  • 22/12/2017
  • 16:16
  • Atualização: 17:24

Cineasta iraniano cumpre prisão domiciliar por filme que denuncia corrupção

Em "A Man of Integrity", Mohammad Rasoulof é acusado de promover propaganda contra o regime

Obra venceu o prestigiado prêmio Un Certain Regard no Festival de Cinema de Cannes, em maio | Foto: Loic Venance / Arquivo AFP / CP

Obra venceu o prestigiado prêmio Un Certain Regard no Festival de Cinema de Cannes, em maio | Foto: Loic Venance / Arquivo AFP / CP

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  • AFP

Não é fácil levar uma vida boa e virtuosa no Irã se o filme mais recente do cineasta Mohammad Rasoulof, "A Man of Integrity", for levado como um arquétipo do cotidiano no país. Na trama, Reza é um jovem que decidiu se mudar para uma área rural com a esposa e o único filho para fugir da agitação da cidade grande. Ele sobrevive com os recursos de sua fazenda, mas quando empresas privadas, autoridades locais estreitam relações comerciais, a busca por riquezas desvela a corrupção no governo. O filme, que ganhou o prestigiado prêmio Un Certain Regard no Festival de Cinema de Cannes, em maio, rendeu ao diretor acusações de "propaganda contra o regime" e de "colocar em risco a segurança nacional".

O longa provavelmente será censurado pelas autoridades nacionais, apesar de ter sido louvado pela crítica internacional; o site Hollywood Reporter o classificou como um "drama convincente, tenso e enfurecedor". No título, o protagonista, vivido por Reza Akhlaghirad, se recusa a pagar suborno por um empréstimo que salvaria seus negócios e encontra-se confrontando uma série de oficiais e empresários. Esta é apenas a mais recente polêmica envolvendo o diretor de 34 anos, não a primeira. Rasoulof ficou na prisão por um ano depois que ele e o colega Jafar Panahi foram presos no set de "Taxi", em 2010, sob as mesmas acusações que sofre agora. O último, inclusive, foi proibido de fazer filmes por 20 anos. Inicialmente preso por seis anos, Rasoulof teve sua sentença reduzida em curso, mas nem mesmo as constantes ameaças o impediram de se aproximar da incômoda verdade que ele insiste que está minando o país.

"A corrupção penetrou em todas as camadas da sociedade", disse à Agência France-Press, via Skype, em sua casa em Teerã, onde está detido em prisão domiciliar. Seu passaporte foi confiscado quando voltou do festival de cinema Telluride, nos Estados Unidos, em setembro. "Isso vai do fundo da escada social até o topo da pirâmide do poder. Os iranianos estão exaustos, porque a corrupção tornou-se um sistema que obriga você a ser corrompido e um corruptor ao mesmo tempo. Mesmo os meus amigos são repelidos por ele, mas não conseguem se afastar", acrescentou o cineasta, cujos filmes aclamados anteriormente "Manuscripts Do not Burn" e "Iron Island" foram proibidos em sua terra natal.

No filme, ninguém recebe um "passe livre", nem mesmo a esposa de Reza, Hadis, chefe de uma escola secundária. Ela não faz nada para impedir que uma menina seja excluída porque vem de uma minoria religiosa. Há também uma analogia com um importante símbolo cultura do país: Reza é um fazendeiro sem significância que cultiva peixes dourados, que os iranianos tradicionalmente exibem em suas mesas no Ano Novo persa (Norouz) para simbolizar a renovação e a vida perpétua. Depois disso, os animais são colocados em lagos e rios para perecerem.

Por enquanto, o destino de Rasoulof não é diferente daquele dos peixes dourados de seu personagem. "Estou completamente no escuro, não sei o que vai acontecer", disse. "Mas eu não vou me permitir ser engolido por isso. Não consigo ver meu filme sendo exibido no Irã enquanto aguardo ser julgado", acrescentou, lamentando como os intelectuais de lá foram presos, reduzidos ao silêncio ou deixaram o país em exílio. Sua empresa francesa de produção ARP lançou uma petição online exigindo que ele tenha permissão para trabalhar e viajar livremente. "Se as pessoas não me apoiassem fora do Irã... minha situação seria muito pior. O que me mantém em pé é que as pessoas não me esquecem e que meu filme será visto", concluiu.


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