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  • 13/01/2018
  • 16:40
  • Atualização: 18:45

"Uma Mulher Fantástica" reflete crise humana e testa limites da empatia

Longa conta a história de uma mulher trans que enfrenta preconceitos após a morte do companheiro

Daniela Vega, primeira atriz transgênero do Chile, protagoniza o longa | Foto: YouTube / Divulgação / CP

Daniela Vega, primeira atriz transgênero do Chile, protagoniza o longa | Foto: YouTube / Divulgação / CP

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  • AFP

Insultos, espancamentos, assédio policial, "amor ilegítimo": é assim que vive a progafonista de "Uma Mulher Fantástica" que o diretor Sebastián Lelio criou em um Chile conservador para refletir uma "crise humana" global. Aclamado pelos críticos dos Estados Unidos, o longa estrelado por Daniela Vega, a primeira atriz transgênero do país latino-americano, foi nomeado para o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro e é um dos nove pré-selecionados para a mesma categoria do Oscar. A obra conta a história de Marina Vidal, que enfrenta a morte de seu parceiro em meio a preconceitos, censuras e violência.

A produção procura levar à reflexão de por que algo tão simples como o amor entre duas pessoas é complicado."Não só ilumina aspectos da sociedade chilena, de onde a história emana, mas aspectos da crise humana que atravessamos", disse o cineasta de 43 anos, em uma entrevista por telefone à Agência France Press. "Diz respeito aos limites da empatia, o que estamos dispostos a permitir ao outro, que arroga a autoridade para determinar que há pessoas ilegítimas ou amizades ilegítimas, quem impõe barreiras, com que autoridade", explicou o diretor sobre sua produção, que estreiou no Brasil em 7 de setembro de 2017.

Também presente na conversa, a protagonista indicou que este não é um filme biográfico. "Marina e eu compartilhamos que somos  trans, que gostamos de cantar ópera e de homens bonitos, nada mais", disse. "Ela é muito mais elegante do que eu, tem mais paciência. Éla é uma mulher muito mais pacífica, eu sou mais explosiva, mais latina", continuou. Mesmo assim, a personagem é acusada de ser um monstro destruidor de famílias, numa cena anterior ao momento em que dois homens cobrem violentamente o rosto dela com uma fita adesiva para que ela seja torturada.

"Eu não teria permitido isso, eu não sei", ele respondeu sobre como sua reação a esta situação teria sido. "Eu experimentei a violência como muitas pessoas no mundo. No meu caso, a violência foi institucional, até hoje o Estado chileno não reconhece a identidade trans e que isso deve ser entendido como violência também", completou a atriz. Já elio disse que o filme, que tem sua première nos EUA em 2 de fevereiro, vem gradualmente ganhando seguidores em seu país de origem. "No Chile, foi difícil as pessoas nos assistirem porque não pretende ser um documento de realidade e, nesse sentido, foi difícil para as pessoas se renderem a ele", analisou.

Fornecer perguntas e não verdades

Lelio e Vega estão focados na promoção do filme. O site Gold Derby coloca a película, vencedora do Urso de Prata de melhor roteiro no Festival de Cinema de Berlim, como a favorita ao Oscar de melhor produção em língua não-inglesa. "Quando um filme ganha um prêmio tão importante, há uma visibilidade consolidada, isso significa que ele será visto por muitas pessoas e que isso só pode ser bem-vindo", disse o diretor, que também conta com "Gloria" no currículo. "Mas você não precisa estar tão obcecado com os prêmios porque os filmes não são cavalos de corrida, são artefatos sensíveis e delicados", esclareceu.

Vega confessou que leva as premiações "com muito humor". "Eu tento vestir o vestido que me convém melhor". A imprensa especializada aplaude a interpretação da atriz, de 28 anos. A revista Vanity Fair, por exemplo, escreveu que o filme "não teria tido resultado sem essa estrela". "Gratamente impactantes", respondeu Vega sobre as críticas positivas de seu trabalho. "Nosso filme, pelo menos para mim, pretende instalar questões em vez de propor verdades ou respostas", reconheceu.