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  • 08/02/2018
  • 16:25
  • Atualização: 17:26

"O Sacrifício do Cervo Sagrado" retrata o absurdo da tragédia moderna

Filme estrelado por Colin Farrell e Nicole Kidman estreia nesta quinta nos cinemas

Longa é dirigido pelo grego Yorgos Lanthimos | Foto: Divulgação / CP

Longa é dirigido pelo grego Yorgos Lanthimos | Foto: Divulgação / CP

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Colin Farrell estava eufórico no Festival de Cannes, em maio passado. Com dois filmes na competição - "O Estranho Que Nós Amamos", de Sofia Coppola, e "O Sacrifício do Cervo Sagrado", de Yorgos Lanthimos -, ele celebrava o que admitiu ser seu retorno. "Andei fazendo algumas escolhas que parece que não foram muito boas, mas agora sinto que retomei o caminho", comemorou. Com displicente elegância de dia e impecáveis trajes a rigor à noite, Farrell foi um dos astros mais solicitados nas galas do maior festival do mundo, e nos dois filmes citados fez a montée des marches, a tradicional subida da escadaria pelo tapete vermelho, escoltava a mesma dama - Nicole Kidman, também presente em ambos os filmes.

Colin Farrell, reabilitado de sua fase (não tão bem-sucedida) de astro de ação, continua desfrutando o prestígio de suas escolhas mais 'artísticas'. "Ele me devia isso (o papel de "O Sacrifício do Cervo Real"). Vocês sabem", disse na coletiva do filme, "que eu não era a primeira escolha dele em 'O Lagosta'. Yorgos tinha outro ator que estava com uma agenda mais requisitada que a minha e teve de cair fora. Entrei para quebrar o galho, e deu certo. Acho que as coisas começaram a mudar para mim com esse cara."

Lanthimos pertence a uma nova geração de cineastas europeus, não apenas gregos, na faixa dos 40 anos. Tem 44. Só para efeito de comparação, o sueco Ruben Östlund, diretor de "The Square - A Arte da Discórdia", que ganhou a Palma de Ouro e concorre ao Oscar de filme estrangeiro, tem 43. Ambos gostam de personagens submetidos a pressões psicológicas tremendas, e possuem a fama de 'enfant terribles' de suas respectivas cinematografias. Lanthimos começou a surgir em Cannes, em 2009, com "Dente Canino", sobre adolescentes que vivem confinados pelos pais temerosos. Temendo a violência do mundo, eles decidem que os filhos só terão liberdade quando perderem os dentes caninos. A crise familiar leva a um banho de sangue que você talvez possa intuir, se não viu o filme.

A barra pesa mais ainda em "O Sacrifício do Cervo Real", primeiro filme do cineasta rodado nos EUA, em Cincinnati. Farrell faz um conceituado cirurgião. Jovem, rico, bela mulher (Nicole), filhos. Toda essa estabilidade/felicidade é ameaçada quando surge o filho de um antigo paciente de Farrell, acusando-o de haver matado seu pai. Como um daqueles sinistros mensageiros das tragédias gregas, o garoto vai se imiscuindo na vida de Farrell. As coisas começam a dar errado. Os filhos, vítimas de algum sortilégio - mas qual? -, ficam à beira da morte. E é nesse momento de estresse que o garoto submete Farrell ao golpe final. Como Sofia, no best-seller de William Styron e no filme de Alan J. Pakula, o doutor vai ter de fazer uma escolha e matar... A mulher ou os filhos?

Não há cervo real neste filme. O que há é a representação metafórica de uma situação clássica da tragédia grega. Em "Ifigênia", de 1976, o diretor Michael Cacoyannis já adaptara a tragédia de Eurípedes em que Agamenon é obrigado a sacrificar a própria filha para se redimir, perante os deuses, da morte do cervo mítico (Ifigênia em Áulis). Mesmo vivendo entre humanos, e compartilhando suas paixões, os deuses das tragédias gregas muitas vezes cobram preços terríveis. Em plena modernidade, o personagem de Farrell é submetido ao tormento que o destrói física e moralmente, colocando sua vida de cabeça para baixo. É o que Lanthimos gosta de fazer, mas essa retomada de conceitos clássicos não faz dele um trágico, como Cacoyannis, também autor de Electra, a Vingadora, Zorba, o Grego e As Troianas.

Lanthimos é um moderno que subverte seus clássicos com um humor absurdo à Eugene Ionesco. Seu objetivo é dissecar a banalidade do cotidiano, e por isso ele insiste que a obra, com toda a sua carga de sofrimento e horror, é uma comédia. Colin Farrell entrou no espírito da brincadeira. Hollywood faz tantos filmes para que as pessoas se sintam bem, os chamados "feel good movies", que o cinesta tomou a liberdade de seguir outra via. Estamos vendo o filme "feel bad" (sinta-se mal) do ano. Brincadeiras à parte, o filme oferece uma contrapartida radical para quem não quiser entrar no espírito de Momo, durante o carnaval.

Chocante. O mais sinistro (bizarro?) na experiência estética proposta por Yorgos Lanthimos é que seu filme é extremamente elaborado. Belíssimos planos, ambientes, uma trilha grandiloquente - que desnatura o sacrifício ao prescindir de violinos chorosos -, tudo isso arma o clima. Mas o mais impressionante é a interpretação antinaturalista. Todo mundo sabe que está dentro de uma tragédia - Nicole, Farrell. Em Cannes, o sorridente e descontraído Farrell era a negação de seu personagem. "Como ator, é bom ser levado ao limite, como Yorgos faz com a gente. Na vida espero que nada disso ocorra, nunca, comigo".