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  • 16/05/2018
  • 18:02
  • Atualização: 18:20

Filme sobre comunidade indígena brasileira Krahô é apresentado em Cannes

Produção contou com os membros da comunidade interpretando eles mesmos e falando em seu próprio idioma

Equipe da produção seguraram cartazes com mensagens como

Equipe da produção seguraram cartazes com mensagens como "Pare o genocídio de indígenas" | Foto: Antonin Thuillier / AFP / CP

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"O Brasil negado no Brasil é o que interessa em Cannes", disse nesta quarta-feira a cineasta Renée Nader Messora, ao apresentar seu filme "Chuva e cantoria na aldeia dos mortos", sobre os indígenas Krahô. Junto com o português João Salaviza (Palma de Ouro de melhor curta-metragem em 2009 por "Arena"), a brasileira gravou o filme durante nove meses, depois de ter passado longas temporadas com comunidade de 3.500 pessoas, no estado do Tocantins.  Mais cedo, ao chegaram ao tapete vermelho, a equipe da produção seguraram cartazes com mensagens como "Pare o genocídeo de indígenas". 

O filme, que fica entre o documentário e a ficção e está em competição na seção Um Certo Olhar. A produção contou com os membros da comunidade interpretando eles mesmos e falando em seu próprio idioma, o que fez das gravações uma façanha, dado que "ambos só entendiam 5% do que diziam", contaram.

A resistência de um jovem Krahô a se tornar xamã após a morte de seu pai - que o leva a partir temporariamente para a cidade - serve como argumento e pretexto para mostrar o dia a dia destes indígenas, suas tradições e cerimônias. "Os Krahô são responsáveis por seu próprio bioma, mas estão ameaçados, principalmente pela monocultura de soja e cana e pela pecuária", explicou Nader Messora. Em sua estreia em Cannes, esta cineasta brasileira, casada com Salaviza, destacou a importância de que no maior festival de cinema do mundo "se esteja vendo um filme sobre os Krahô, falado em seu idioma".

"Ser indígena é um modo de ser"

De acordo com Salaviza, "Chuva e cantoria na aldeia dos mortos" não é um filme abertamente ativista. "Apesar de todo o respeito que temos pelos indígenas no Brasil que estão gravando filmes militantes pondo sua vida em risco", disse.

Ambos os diretores buscaram chegar a uma visão mais justa, a seu ver, para abordar a questão indígena no cinema, no Brasil e no mundo. "Em geral, o indígena é apresentado ou como um profeta, que sai da floresta para dizer duas palavras e desaparece, ou de uma forma mais política, em contraste com a cultura ocidental", disse o cineasta. Seu filme mostra com naturalidade o modo de vida familiar e social dessa população.

"Não é por usar uma calça ou ter um celular que se deixa de ser indígena. No Brasil esse discurso ocorre entre os poderosos e é muito perigoso", adverte. "Ser indígena é um modo de ser e não de aparentar", segundo a cineasta. Ambos os diretores, que vivem entre Portugal e Brasil, filmaram juntos seu primeiro longa-metragem, "Montanha".

"Chuva e cantoria na aldeia dos mortos" é o terceiro filme brasileiro selecionado nesta edição de Cannes. Também se apresentou "O grande circo místico", de Carlos Diegues, na seleção oficial fora de competição, e "Los silencios", de Beatriz Seigner, na Quinzena dos Realizadores.