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  • 07/09/2018
  • 17:33
  • Atualização: 17:36

Filme favorito em Veneza é dirigido pela única cineasta em competição

"The Nightingale" é assinado pela australiana Jennifer Kent

A diretora Jennifer Kent e o ator Baykali Ganambarr na estreia de

A diretora Jennifer Kent e o ator Baykali Ganambarr na estreia de "The Nightingale" | Foto: Filippo Monteforte / AFP / CP

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Uma emocionante história de vingança e amizade envolvendo uma irlandesa condenada e um rastreador aborígine na Tasmânia colonial é considerada a favorita para levar o Leão de Ouro no festival de cinema de Veneza. "The Nightingale", da australiana Jennifer Kent - o único filme dirigido por uma mulher de um total de 21 que disputam o prêmio principal - foi comparado pelos críticos com a obra-prima de Jane Campion, "O Piano", de 1993.

A primeira exibição da perturbadora evocação de Kent da brutalidade da antiga colônia penal, cujos habitantes originais foram praticamente exterminados em um genocídio, foi marcada por insultos racistas e sexistas lançados contra seus criadores. Quando o nome de Kent apareceu nos créditos, um jovem diretor italiano gritou: "Que vergonha, puta! Seu filme é uma merda". Mais tarde, ele se desculpou pelo "insulto deplorável", dizendo que "não pretendia ser misógino".

A escassez de mulheres na lista oficial levou o Festival de Veneza a ser criticado por sua "masculinidade tóxica", e os organizadores foram forçados a fazer um giro embaraçoso para a igualdade de gênero. Mas a atriz que virou diretora se recusou a ser provocada, dizendo a repórteres que o filme provou a "importância de reagir com compaixão e amor à ignorância".

"Vemos outras opções representadas e elas não deram socorro ou alívio", disse Kent, que recusou o sucesso de bilheteria de Hollywood "Mulher-Maravilha" para criar seu próprio épico histórico. "Amor, compaixão e bondade são a nossa salvação e, se não os utilizarmos, todos desceremos pelo ralo", acrescentou.

O filme retrata a extrema violência e racismo da ilha na década de 1820, quando era conhecida como Terra de Van Diemen. A revista "Variety" o qualificou de "um conto de vingança elementar (de) grandeza quase mítica". A crítica Jessica Kiang, do site "The Playlist", disse que, com cortes criteriosos para "voltar aos seus emocionantes e lindos itens essenciais, 'The Nightingale' vai realmente cantar", em referência ao nome do longa, "O Rouxinol", em tradução livre.

Kent disse que é "incrivelmente importante" que o público fique chocado com a brutalidade que ela descreve. "Espero que o horror e a beleza existam lado a lado. Mas estamos tão anestesiados com a violência no cinema que podemos assistir a um filme em que 50 pessoas morrem e não sentir nada. Isso é condenável e desagradável para mim. Eu queria mostrar o custo humano", afirmou. 

A história cruel da Tasmânia

A estrela irlandesa-italiana em ascensão Aisling Franciosi, da série "The Fall", disse que nunca percebeu o quão violenta era a colônia penal, "particularmente em relação às mulheres, que estavam em uma desvantagem de oito para um". "Eles foram enviados para lá por pequenos crimes para povoar a ilha. Fiquei furiosa ao ver o quão cruel, brutal e sistemático era" esse processo.

Kent disse que a história de genocídio e escravidão "precisa ser contada", sustentando o enredo na amizade improvável e tocante entre uma condenada escravizada, interpretada por Franciosi, e um rastreador, interpretado pelo ator aborígene Baykali Ganambarr. "Quando fui pela primeira vez à Tasmânia, fiquei impressionada com a tristeza residual naquela terra. Eu visitei as colônias penais e senti os fantasmas de muitas almas de coração partido que de alguma forma ficaram no local, e eu sempre quis contar essa história", declarou. Ganambarr disse que não havia como "suavizar" a mensagem: isso "foi o que aconteceu com o meu povo e tenho muito orgulho de representá-lo".

Sobre ser a única diretora na competição em Veneza, Kent destacou que a situação não a alegra. "Eu gostaria de ter minhas cineastas irmãs aqui. O trabalho do cinema é refletir o mundo, e se refletimos apenas 50%, não estamos fazendo isso", considerou. A última vez que uma mulher conquistou o prêmio máximo de Veneza foi há 43 anos, quando a diretora alemã Margarethe von Trotta ganhou com "Os anos de chumbo".