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  • 15/06/2018
  • 08:39
  • Atualização: 12:36

Museu V&A de Londres desconstrói lendária personalidade de Frida Kahlo

Mais de 200 objetos como vestidos, pinturas e artigos pessoais serão expostos

Mais de 200 objetos como vestidos, pinturas e artigos pessoais foram expostos  | Foto: Daniel Leal-Olivas / AFP / CP

Mais de 200 objetos como vestidos, pinturas e artigos pessoais foram expostos | Foto: Daniel Leal-Olivas / AFP / CP

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  • AFP

O Museu Victoria e Albert de Londres reúne, em uma magnífica exposição sobre a pintora mexicana Frida Kahlo, objetos que ajudam a entender uma personalidade que exerce seu fascínio até hoje. "Frida Kahlo: Making Her Self Up" ("Inventando-se", em tradução livre) será inaugurada neste sábado e ficará aberta até 4 de novembro. Nela, estarão expostos mais de 200 objetos da Casa Azul, estúdio e moradia de infância da pintora, no bairro de Coayacán, na capital, e onde ela faleceu em 1954, aos 47 anos.

Foi essa casa que serviu de abrigo durante dois anos para o revolucionário russo Leon Trotski, com quem Frida teve um caso breve. Na mostra, há vestidos, joias, cartas, pinturas, fotos de família, maquiagem, medicamentos e até sua prótese. "Essa perna é muito moderna e superbonita. Tem uma bota vermelha. Frida colocou nela retalhos de bordados chineses e até um guizo para que fosse mais evidente. Por que seria uma perna feia, se ela era uma artista?", disse a mexicana Circe Henestrosa, curadora da exposição junto com Claire Wilcox.

Uma vida atormentada pelo corpo

Os problemas de saúde de Frida Kahlo foram devastadores, mas a pintora soube fazer da adversidade uma virtude. Esta filha de um fotógrafo alemão e de uma mexicana teve poliomelite na infância e, como resultado, ficou com a perna direita mais curta, uma extremidade que acabaria sendo amputada em 1953, um ano antes de sua morte.

Quando tinha 18 anos, o ônibus no qual voltava da escola preparatória com um companheiro sofreu um acidente. Nesse episódio, um pedaço de aço atravessou seu abdômen, atingindo sua coluna em três pontos, além de quebrar a clavícula, duas costelas, a perna em onze pontos e a bacia em três. Seus órgãos reprodutores também foram atingidos, o que a impediu de ter filhos.

Perdeu-se uma estudante de Medicina, mas se ganhou uma artista, porque ela começou a pintar durante sua longa convalescença. Com a ajuda de um cavalete especial, ela podia pintar da cama, usando um espelho que lhe permitia usar a si mesma como modelo. "É o início da carreira de uma grande artista, mas também da deterioração de seu corpo", explicou a curadora Circe Henestrosa, que organizou, em 2012, na Casa Azul uma exposição sobre os vestidos.

Lição de Frida: "está tudo bem ser diferente"

A tia de Henestrosa era parte do círculo intelectual da pintora e "levava para ela esses 'huipiles' da região do Istmo de Tehuantepec", no estado de Oaxaca, ao sul do país, lembrou. O "huipil" é uma blusa, ou vestido, indígena mexicano, geralmente de cores vivas e enfeitado com bordados. Com ele, Frida Kahlo "queria demonstrar seus valores mexicanos, queria se ver muito mexicana", em uma época, imediatamente posterior à Revolução, na qual o país busca reforçar sua identidade no indigenismo. Além disso, "ela era comunista, e isso a faz parecer mais do povo", acrescentou a curadora.

As questões políticas não explicam, porém, toda a questão de sua indumentária. "Começa a usar saias longas para disfarçar a perna. É a primeira vez que começa a estabelecer uma relação entre seu corpo e sua indumentária", contou a curadora, lembrando que o "huipil" atrai os olhares para o colo. "Essa é a parte que queremos mostrar na exposição: Frida a pessoa, Frida a mulher, uma pessoa que gostava de perfume, que era incrivelmente feminina, que não deixou que a deficiência a definisse. Uma artista mexicana, de pele morena, deficiente, que sirva de modelo para as garotas jovens: ser diferente é algo incrível, está tudo bem ser diferente".