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Porto Alegre, domingo, 21 de Outubro de 2018

  • 30/12/2017
  • 18:35
  • Atualização: 18:42

Rita Lee chega aos 70 anos mais "bicho grilo" do que nunca

Artista celebra sete décadas de vida neste domingo e compartilha planos para o futuro

"Seria humanamente impossível voltar a chacoalhar o esqueleto", diz a cantora ao refutar a possibilidade de novos shows | Foto: Facebook / Reprodução / CP

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Quando tinha 30 anos, Rita Lee lançou "Modinha". "Ai, quem me dera um dia ficar de papo pro ar tirando um som numa viola", diz o refrão da delicada música, estranha no ninho do roqueiro álbum "Babilônia", o último gravado com a banda Tutti Frutti. Parece uma pista do que a artista queria para si dali para a frente, depois de experiências intensas como a saída dos Mutantes e uma temporada na prisão por ter sido acusada de portar maconha. A recente chegada de Roberto de Carvalho em sua vida sugeria menos barulho e mais calma.

Ao lado dele, a cantora promoveu uma nova transformação no pop brasileiro, privilegiando as sutilezas amorosas. "Mania de Você", "Baila Comigo" e "Caso Sério" foram por esse caminho. Mas excessos, vícios e superexposição não lhe deram a paz que encontrou em 2012, quando anunciou sua aposentadoria dos palcos. De lá para cá, ela tem feito raras aparições públicas e vem se dedicando à literatura. Escreveu uma autobiografia em que se expôs com sinceridade, além de "Storynhas" (2013), ilustrado por Laerte, e "Dropz" (2017).

Rita faz 70 anos neste domingo, do jeito que quis um dia. De papo pro ar em sua chácara nos arredores de São Paulo, tirando um som quando quer, cuida da horta e de bichos num eterno domingo. Diz estar "dando corda" para a escritora e ter músicas inéditas. Shows, nunca mais. "Estou num momento bicho grilo total, enfurnada na toca que é meu universo cheio de bichos e de plantas". A passagem do tempo foi bem retratada na sua obra. Visões do que poderia ser o futuro ("2001"), lembranças do passado ("Eu Sou do Tempo") e o cotidiano apressado ("Corre-Corre") mostram que ela esteve pensando nessas questões.

Para a artista, chegar nessa idade é um estímulo para valorizar o que fez de bom e também pensar no que pode fazer daqui para a frente. "Eu me orgulho de ter sido quem fui, das músicas que fiz, dos shows que apresentei. Agora estou com tempo de sobra para novas experiências empolgantes, como brincar de ser dona de casa, pintar quadros, cuidar da horta, lamber meus filhos e bichos, escrevinhar histórias, acompanhar os netos e aprender com eles sobre as modernidades do mundo", analisa.

Quando estava quase completando meio século de vida, ela lançou um rock chamado 'Menopower', com letra que falava em "cinquentona adolescente"."A criança, a adolescente e a madura estão lá no meu arquivo existencial, basta puxar e revivê-las quando quero. Experimentei todas intensamente. Minha nova fase de velha está sendo mais serena e sarcástica, mas não menos interessante", comenta Rita, que também garante que a cantora se aposentou dos palcos mas não da música.

Continuo compondo como sempre fiz, só falta lidar com minha preguiça para encarar um estúdio. A escritora ainda é novidade para mim, o 'santo' anda baixando naturalmente e eu apenas lhe dou corda". Ela também explica que nunca teve paciência para ouvir seus discos, dizendo que não é uma velha saudosista. "Pra falar a verdade, nem lembro mais da maioria das quatrocentas e tantas músicas que fiz, minha autocrítica se orgulha de ter composto apenas poucas".

A neta da cantora tem lhe apresentado algumas músicas nacionais e internacionais, até mesmo o funk, sobre o qual Rita tem uma opinião forte. "Sinceramente não acho nada demais cantarolar sacanagens cadenciadas. A meninada hoje se expressa muito mais sem papas na língua do que jamais foi. Cada geração com o seu palavrão. Para mim as questões mais urgentes das fêmeas continuam sendo ganhar o mesmo que os machos e ter direito ao próprio corpo", fala. Mas nesse novo cenário, ela não descarta continuar a fazer música.

Ao lado de Roberto, ela têm composto várias canções inéditas que "de repente podemos lançar um trabalho só com demos, que são os primeiros registros de quando o 'santo' baixa de verdade". O ano de 2018 marca os 45 anos da gravação do primeiro álbum solo pós-Mutantes, que acabou engavetado, e circula pela internet e em reedições piratas. Ela não sabe se ha a possibilidade desse disco ser lançado oficialmente. "Lembro que o trabalho não foi lançado devido à baixa qualidade geral da produção, uma vez que foi todo gravado na base de LSD e, portanto, fora de órbita. Na época, não tive a preocupação de agradar a ninguém além de mim mesma", comenta.

Rita garante, contudo, que não adianta pedirem por uma turnê e shows. "Queridos e queridas, seria humanamente impossível voltar a chacoalhar o esqueleto agora, aos 70 anos, como costumava e gostava de fazer. E se for pra cantar sentadinha feito múmia prefiro ficar em casa tricotando", brinca. Hoje, ela prefere ficar reclusa no seu síto. "Só quem me tira de casa por umas horinhas é meu neto Arthur, de dois meses. Melhor ainda quando ele vem me visitar. Estou num momento bicho grilo total, enfurnada na toca que é meu universo cheio de bichos e de plantas... Sair de casa pra quê?", questiona.