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  • 09/07/2017
  • 20:23

Crônicas inéditas de José de Alencar são lançadas em livro

Material foi descoberto em 2015 pelo pesquisador Wilton Marques

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  • Agência Brasil

 Oito crônicas inéditas do escritor cearense José de Alencar (1829-1877), descobertas em 2015 pelo pesquisador Wilton Marques, foram lançadas em livro nessa semana. "Ao Correr da Pena" (Folhetins Inéditos) é o título da publicação, que tem o mesmo nome do folhetim escrito semanalmente por Alencar, entre os anos de 1854 e 1855, no jornal carioca Correio Mercantil. O lançamento foi feito pela editora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Marques explica que, em 1874, crônicas de Alencar foram reunidas em um livro organizado por José Maria Vaz Pinto Coelho, um admirador do escritor. Ficaram de fora, no entanto, oito textos.

"Desde então, toda vez que as crônicas foram publicadas, seguiram o livro, e não o jornal", explica o professor do departamento de letras da UFSCar, por isso os textos são considerados inéditos. Eles nunca foram republicados e, portanto, não foram recolhidos e nem estudados, restava, então, encontrar os motivos que levaram à supressão desses textos.

O livro traz o ensaio "Enigma dos folhetins", de Wilton Marques, com a interpretação das crônicas. "Faço uma discussão para mostrar que foi o Alencar que pediu mesmo [a retirada]. Tem algumas marcas que é possível provar que o escritor não teria interesse daquele texto sair. Eu leio o folhetim, com olhar no ano que ele escreveu, que é entre 1854 e 1855, e o outro olhar em 1874, que é quando foi publicado. Tento mostrar que cada um desses folhetins tem alguma coisa que seria, digamos assim, reprovado publicamente, que traria problemas para ele", explica o autor.

Em uma das crônicas, por exemplo, Alencar faz críticas à língua tupi. "Todo mundo sabe que o Alencar é o grande escritor do romance indianista: O Guarani (1857), Iracema (1865) e Ubirajara (1874)", relaciona Marques. Ele destaca que, considerando a data em que a coletânea foi publicada - em 1874 - ele já era reconhecido por essa obra e seria um contrassenso ter um texto publicado com esse tipo de ironia. "De certo modo criaria um certo constrangimento para o Alencar, porque são textos de juventude", avalia.

Em outro texto, o cearense faz críticas ao mundo político. Ao fazer uma comparação entre o Rio de Janeiro antigo e moderno, Alencar resolve falar sobre "uma tal revolução tecnológica" que teria dado origem a uma "máquina-deputado" e segue uma descrição irônica desta figura. O texto original diz: "Esta máquina serve para votar, levantando-se e sentando-se para dar apartes, fazer cauda aos ministros nas ocasiões necessárias, preencher o número de deputados que as constituições exigem, e finalmente para resistir aos deputados-homens, gente de consciência, que tem a balda de só

apoiar os governos ilustrados. Bem se vê, que para semelhante fim era escusado nesses países empregar-se um homem livre e inteligente, e que basta uma máquina, a qual não possa opor tropeços à marcha da administração".

Marques lembra que, em 1874, quando o livro organizado por Pinto Coelho seria lançado, José de Alencar já tinha sido ministro e era deputado. "Imagino que ele falou: 'Não vou publicar isso, porque isso vai me causar um grande problema'. Ele fala que os ministros corrompem os deputados", explica o pesquisador.

Por ser um texto mais leve, de caráter informativo, mas com "certo traço literário", Marques avalia que as crônicas escritas por Alencar antecipam a entrada do autor na ficção. "Porque o primeiro romance ele vai publicar em 1855, logo depois. Então é uma porta de entrada", avalia.