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  • 02/09/2017
  • 11:24
  • Atualização: 11:30

"O Capital" comemora 150 anos em 2017

Livro é uma das obras mais polêmicas de todos os tempos

Sociólogo e revolucionário Karl Marx publicou primeira edição da obra em 1867 | Foto: CP / Memória

Sociólogo e revolucionário Karl Marx publicou primeira edição da obra em 1867 | Foto: CP / Memória

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  • Glaucia Campregher

Comemora-se este ano os 150 anos da publicação da primeira edição do primeiro livro, de um total de três, de “O Capital’, de Karl Marx. Que livro é esse tão comemorado como temido, tão vendido como queimado, e, por vezes, tão citado como tão pouco lido? De imediato lhes digo que “O Capital” não é nenhum livro fundante de uma seita. É uma obra científica, mesmo que para Marx a ciência seja inseparável da política.

Assim é que, mesmo sem ser “o livro sagrado de uma seita de comunistas”, é verdade que “O Capital” foi escrito para ser lido, e compreendido, por aqueles contemporâneos que se dedicavam a lutar contra a “dominação burguesa” e que já tinham merecido do autor vários outros escritos, entre os quais “O Manifesto Comunista” onde, por sinal, Marx alardeava o que de bom a dominação burguesa tinha trazido ao mundo, quando tinha sido revolucionária.

Mas o caso é que, para Marx, faltava a estes companheiros de luta política a compreensão refinada do funcionamento do capitalismo. E seria impossível fazer a história sem saber o seu motor! “O Capital” foi escrito para dizer qual o motor das sociedades onde o capital domina. E é por isso que este livro é ainda hoje muito potente, capaz de influenciar ideias e ações. Não é, como podem pensar alguns, porque ele mobiliza paixões, como o ódio entre as classes, mas porque consegue explicar alguns fenômenos chaves da dinâmica das nossas sociedades, como a própria razão da dominação capitalista a sua imensa capacidade de geração de riqueza, e a irracionalidade que lhe acompanha  a sua capacidade de destruir tanto a riqueza criada como os meios para sua criação.

Mas um alerta: no caso de Marx, dizer que seu livro é científico, não quer dizer que ele seja neutro, isento de ideologia, mas o oposto. Para Marx reconhecer “a quem interessam” as ideias, tomar partido no embate entre elas, é que é um antídoto contra a ideologia. Sendo assim, o seu livro tem partido, tem lado. Daí ser a maior lição do livro explicar que o capital nada mais é que “o trabalho alienado”, sendo o capitalista aquele que se apropria privadamente do que o trabalho cria coletivamente.

E isso não é simplesmente postulado, mas um fato tornado pela análise, senão evidente, tão cientificamente discutível que até hoje os que defendem o contrário procuram uma resposta cabal. Ou seja, ter lado não atrapalha a acuidade analítica do livro. O capitalista não é mostrado como um vilão, de fato é uma qualidade arregimentar e organizar o trabalho individual disperso, daí Marx ser menos severo na crítica do capitalista, que “pensa com o bolso”, do que na crítica dos economistas cujos argumentos (estes sim ideológicos, falsamente sem lado) não explicam de onde vem o lucro, as crises, ou a concentração da riqueza.

Um segundo alerta tem a ver com “O Capital” ser um livro de difícil leitura. O que tem pouco a ver com Marx ter abandonado em “O Capital” sua escrita fluida e direta, tão treinada em artigos de jornais, manifestos e cartas, pelo linguajar hegeliano obscuro e tortuoso. De fato, obscuro e tortuoso é o processo de produção do capital. Obscuro é o modo como a troca mercantil faz o dinheiro parecer um signo sem significado, e o preço parecer um atributo das coisas e não uma instituição das sociedades com alto grau de divisão do trabalho.

Tortuoso é processo que retira ao trabalho a consciência de que seus produtos não têm apenas uma forma concreta (como mesa ou cadeira), mas uma forma abstrata como coágulo de trabalho social (o que é obscurecido no dinheiro). Obscura é a forma como o lucro é gerado pelo trabalho coletivo, dado que produz um montante de mercadorias cujo valor ultrapassa o valor dos meios de produção empregues, inclusive o salário que lhes é pago. Tortuoso, e violento, é o processo de separação dos indivíduos e seus meios de vida, como se a sacrossanta propriedade privada emergisse do fim da propriedade comunal como direito igual e universal e não como uma desigualdade de saída que obriga os despossuídos a se venderem aos possuidores; venda cuja iniquidade fica igualmente obscurecida, pois não se trata de pessoas vendendo outras, inteiras, mas de pessoas vendendo a si mesmas, e apenas o seu tempo. Um mundo de livres e iguais, só que não...

Aos esclarecimentos das obscuridades exploradas por Marx no livro I, vão se somar outros (cuidadosamente arranjados por Engels depois da morte de Marx) publicados nos livros II e III. Aí vemos: como as crises destroem o excesso de capital para que o processo se reinicie; como o capitalista tende a substituir cada vez mais o trabalho presente pelo trabalho passado (máquinas); como a concentração do capital nas mãos de poucos capitalistas (e nos países que saíram à frente) fazem da posse do trabalho vivo (pelos capitalistas mais fracos, e dos países tardios) uma base miserável para a produção de riqueza nova frente aos primeiros (o que torna estes segundos transferidores de riqueza aos primeiros); como a valorização financeira, onde a riqueza dos capitalistas cresce mesmo que eles não se envolvam com a produção de coisa alguma, tende a adicionar mais crises ao sistema. Tudo isso deixa visível que “O Capital” fala ainda de nosso capitalismo atual, não?!

*Professora da Faculdade de Economia da Ufrgs