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  • 01/02/2018
  • 16:02
  • Atualização: 17:47

Primeira biblioteca móvel da Nigéria aproxima crianças da literatura

Projeto da professora Funmi Ilori conta com quase dois mil livros

Projeto foi criado com financiamento de iniciativa de desenvolvimento do governo nacional | Foto: Stefan Heunis / AFP / CP

Projeto foi criado com financiamento de iniciativa de desenvolvimento do governo nacional | Foto: Stefan Heunis / AFP / CP

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  • AFP

Funmi Ilori já teve o sonho de criar a maior biblioteca da África. Agora ela dirige vans repletas de livros por áreas pobres da Nigéria para ajudar as crianças a descobrir o amor pela leitura. "Os leitores são o quê?" ela pergunta a cerca de 15 jovens, sentados em pequenas mesas de plástico em uma sala de aula adaptada em um dos veículos. "Líderes!", eles gritam de volta, em uníssono. Uma das "iRead Mobile Libraries" estacionou recentemente na escola Bethel, no distrito da classe trabalhadora de Ifako, no coração de Lagos.

Dentro do local, a professora Ruth Aderibigbe comenta que seus alunos, cerca de 200, só têm acesso a publicações de teor didático. "Livros custam muito dinheiro", diz. Quando o projeto apareceu na escola há dois anos com sua ampla seleção, desde obras de colorir para crianças até romances infantis, além de alguns para adultos, ela o recebeu com os braços abertos. "As crianças envolvidas no programa agora falam e melhoram seu inglês", analisa. Dentro da van, um garoto de 10 anos segurava uma cópia de "Meio Sol Amarelo", o bestseller internacional da autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. O livro claramente foi bem lido: sua espinha mal segurou as páginas.

Chimananda recentemente se envolveu em controvérsia depois que uma jornalista francesa perguntou durante uma entrevista se havia alguma livraria na Nigéria. "Eu acho que reflete muito mal sobre os franceses que você tem que me fazer essa pergunta", ela respondeu, analisando que o questionamento era um exemplo da visão racista e colonial da África. Ilori está ciente disso e entende por que a questão ofenderia. Mas ela vê um problema mais amplo e quer se dedicar a tentar resolvê-lo.

"As bibliotecas públicas são funcionais na Nigéria, bem, pelo menos em Lagos. Mas não muitas pessoas maximizam o uso delas", elucida. "Precisamos atrair novos leitores desde uma idade jovem. Nas comunidades rurais, há crianças que nunca seguraram um livro. Eu defendo as bibliotecas comunitárias em todo o mundo. Assim como as igrejas estão surgindo, as bibliotecas deveriam estar surgindo".

Ilori é uma antiga professora primária que iniciou um negócio de empréstimos de livros em 2003. "Eu carregava as obras em uma cesta e ia de porta em porta", recorda. As peças poderiam ser emprestadas por apenas algumas centenas de naira, mas sua experiência levou-a a perceber que poucos adultos no agitado centro econômico da Nigéria tinham o luxo de ter tempo para ler.

Dez anos depois de iniciar essa esquema, ela criou a ideia da biblioteca móvel e solicitou o financiamento de uma iniciativa de desenvolvimento do governo da Nigéria. O pedido foi bem sucedido e ela conseguiu 10 milhões de naira, que, com a taxa de câmbio no momento, era o equivalente a cerca de 60 mil euros. Com isso, ela comprou uma van e um microônibus.

Livros africanos

Agora, graças a doações e patrocinadores, ela conseguiu 13 voluntários, comprar 1.900 livros e quatro vans. Ela visita de quatro a seis escolas todos os dias, organizando oficinas de leitura à noite e finais de semana temáticos para crianças fora da escola, em áreas de favelas com a ajuda de voluntários. Os veículos funcionam como bibliotecas reais: as crianças escolhem o que querem levar para casa para ler e devolvem na semana seguinte junto a uma "revisão" obrigatória sobre o que se trata.

Sade escolhe sua história de aventura favorita, mesmo que já conheça isso de cor. "A leitura é o meu hobby. Os livros me dão ideias e me ajudam a conhecer melhor", diz ela. Adinga prefere a "Bioenergy Insight", uma revista sobre energia renovável que ele encontrou nas prateleiras. "Você tem certeza de que vai ler isso?" pergunta um dos voluntários. O jovem faz uma careta e guarda o periódioco, eventualmente escolhendo um livro de quadrinhos. Depois, as crianças da escola, vestidas com uniformes brancos e verdes, com uma gravata para os meninos, voltam à sala de aula.

Abaixados sob seus braços estão livros como "Toy Story" ou "Cachinhos Dourados e os Três Ursos". Apesar os esforços, Ilori diz que ainda falta alguma coisa. "Precisamos de mais livros infantis africanos", lamenta. Como Chimamanda disse em uma entrevista publicada a The Atlantic em fevereiro de 2017, os livros que ela leu quando criança "e acho que isso é verdade para muitas outras crianças jovens em países que antes eram colonizados, não refletiam minha realidade".