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  • 29/07/2018
  • 16:25
  • Atualização: 16:58

Mesas finais da Flip tratam de Hilda com os mortos e com seus múltiplos

Encerramento foi com a mesa Livro de Cabeceira no qual sete autores leram trechos de obras preferidas

Robinson Borges, Eder Chiodetto, Iara Jamra e Zeca Baleiro na mesa final de debates da Flip | Foto: Walter Craveiro / Flip / Divulgação

Robinson Borges, Eder Chiodetto, Iara Jamra e Zeca Baleiro na mesa final de debates da Flip | Foto: Walter Craveiro / Flip / Divulgação

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  • Luiz Gonzaga Lopes

As duas mesas finais da 16ª Festa Literária Internacional de Paraty trataram das tentativa de conversas com os mortos de Hilda Hist, a homenageada da Festa, e da escritora e seus múltiplos na literatura, na fotografia, no teatro e na música. Na mesa 17, realizada no final da manhã deste domingo, a mesa "De Malassombros - Zé Kleber", reuniu Thereza Maia, pedagoga e folclorista que reúne histórias orais de Paraty, em conversa com Franklin Carvalho, romancista que venceu o prêmio Sesc de literatura em 2016 com o livro "Céus e terra" (Record), sob mediação de Luciana Araújo Marques, que destacou o fato de que ambos trabalham diferentes aspectos da “indesejada das gentes”, como o poeta Manuel Bandeira definia a morte.

O baiano Franklin contou que sua cidade tinha uma aura assombrada: “Na minha infância, nos anos 1970, andávamos em ruas escuras e havia muitas lendas em torno do diabo. Entendi logo que precisava encarar esses medos. Depois de enfrentar o pavor, confesso que fiquei mais tranquilo”. O narrador de seu romance é um menino pobre do sertão que morre na primeira página e se angustia com o que lhe acontecerá na sequência. Thereza falou do livro "Paraty, encantos e malassombros" (Santuário, 2005), no qual relatos sobre assombrações que rondariam a cidade. A autora explicou que há diferenças terminológicas para se referir a manifestações do além: “Visões e fantasmas circulam por aí, mas não dão medo. Já os malassombros assustam e causam pavor em quem topa com eles

Para os dois autores, tematizar a morte é uma maneira de reinventá-la, de evitar que se torne um tabu. “Para mim”, disse Thereza, “a morte é causadora de uma grande tristeza. Mas resta a esperança da imortalidade e de que as pessoas, em algum plano, continuem vivendo.” Já Franklin lembra que “é importante discutir a morte para que ela não pareça virtual. A gente precisa sentar, conversar e, na medida do possível, preparar as pessoas para o que vai acontecer com todos nós”.

A mesa 18, intitulada "O Escritor e seus Múltiplos", foi realizada no início da tarde, reunindo o fotógrafo Eder Chiodetto, o músico Zeca Baleiro e a atriz Iara Jamra, sob mediação de Robinson Borges, tratando da relação com Hilda Hilst. Eder Chiodetto, autor do livro "O Lugar do Escritor", com fotos e ensaios sobre o ambiente no qual os escritores desenvolviam suas obras, falou do primeiro contato com Hilda para inclui-la neste livro, em 1997. "Você está me ligando com 50 anos de atraso", disse Hilda.

"Foram três visitas e pude captar muito do ambiente de reclusão da Casa do Sol. O mais simbólico foi o relógio quebrado que ela tinha ganho de uma amiga, no qual estava escrito 'É mais tarde do que se supõe". Para mim, foi um símbolo daquela escritora encarcerada contra o tempo, que está se esgotando. Uma vez ela me confessou que se obrigou a escrever 500 palavras por dia. Em alguns dias era normal, em outros ela saía exausta do escritório no fim da tarde, só para comer e cuidar dos gatos", lembra Chiodetto.

Zeca Baleiro lembrou de quando recebeu um telefonema de Hilda Hilst dizendo que estava cansada da literatura e queria fazer música. "Eu enviei um CD meu autografado em 1997 para ela e ela me ligou. Não acreditei. Era como se o Frank Sinatra ou o Paul McCartney ligasse. E se abriu comigo, dizendo que estava cansada de literatura, queria fazer música e ela me enviou um disquete com a poesia completa.

Aí trabalhei durante três anos para conseguir musicar 10 poemas. Só faltava as cantoras. Hilda disse que queria Bethânia, Nana Caimmy, Marisa Monte e outras. A Bethânia aceitou e depois Zélia Duncan, Rita Ribeiro, Angela Ro Ro. Assim saiu 'Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé', que saiu só em 2003, quando ela já tinha ido para o Planeta Marduk, como ela chamava a morte" Iara Jamra, que montou o "Caderno Rosa de Lori Lamby" sob direção de Bete Coelho, em 1999, lembra que o texto sobre um menina de oito anos que vende seu corpo incentivada pelos pais, parecia não chocar tanto naquela época do que agora.

"Apresentei na Biblioteca Mário de Andrade, recentemente, e as reações eram de pessoas levantando e dizendo que era uma pouca vergonha. Gente, isto não é pedofilia, é literatura, ficção, é de brincadeirinha. Está tudo muito tenso. As pessoas precisam aceitar e entender as coisas que estão vindo. No fundo, segundo diria a Eliane Robert de Moraes, é o livro mais alegre da Hilda.

A Flip foi encerrada agora a pouco com a mesa Livro de Cabeceira, no qual sete autores, apresentados pela fundadora da Festa, Liz Calder, leram trechos de livros os quais levariam a uma ilha deserta: Alain Mabanckou, Djamila Ribeiro, Selva Almada, Leïla Slimani, Geovani Martins, Isabela Figueiredo e Simon Sebag Montefiore.