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  • 01/12/2018
  • 09:43
  • Atualização: 09:57

Ói Nóis Aqui Traveiz mostra repertório e encerra temporada do ano com "Meierhold"

Espetáculo segue até dia 22, de sexta a domingo, 20h, na Terreira da Tribo

Autor do artigo, Paulo Flores vive Vsevolod Meierhold na montagem | Foto: Tânia Farias / Divulgação / CP

Autor do artigo, Paulo Flores vive Vsevolod Meierhold na montagem | Foto: Tânia Farias / Divulgação / CP

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Vsevolod Emilevich Meierhold (1874-1940), ator, diretor e teórico teatral russo, foi um dos mais importantes revolucionários do teatro contemporâneo. Nascido em Penza, aos dezoito anos desempenhou seu primeiro papel no teatro da sua cidade natal. Ao formar-se ator, em 1898, foi convidado a fazer parte do então recém-fundado Teatro de Arte de Moscou (TAM), de Stanislavski, onde trabalhou por quatro anos.

Templo do naturalismo e do realismo psicológico, o Teatro de Arte foi a grande escola de Meierhold, que, em 1902, decidiu percorrer caminhos próprios fundando uma nova trupe. Meierhold queria investigar os recursos específicos do teatro e dominar todas as possibilidades de uma teatralidade em estado puro. Passou a inspirar-se no simbolismo, no cubismo e, finalmente, no expressionismo alemão.

Meierhold com Stanislavski abriu em Moscou o Teatro Estúdio (1905), um primeiro laboratório para atores ligado ao TAM. Mais uma vez, ambos se desentendem artisticamente e o projeto de desenvolverem um trabalho em conjunto novamente não dá certo. Mesmo que muitas vezes os críticos tratem Meierhold e Stanislavski como opostos teatrais, os dois se admiravam e respeitavam mutuamente. Meierhold foi sempre um crítico e admirador persistente do TAM e declarou certa vez “serei sempre um aluno de Stanislavski”.

Em 1935, Stanislavski diz: “O único encenador que conheço é Meierhold”.

Nomeado diretor dos teatros imperiais, Meierhold encenou óperas e peças teatrais com grande sucesso. Proibido por contrato de exercer outras atividades teatrais fora dos palcos imperiais, criou um pseudônimo para contornar a dificuldade, o de Doutor Dapertutto. Realizou os seus experimentos em espaços alternativos ligados ao movimento de vanguarda.

A partir da pesquisa das formas cênicas populares – como o teatro de feira e o circo – e do estudo da Commedia dell'Arte e dos teatros do extremo oriente, Meierhold desenvolveu uma prática de domínio completo corporal e vocal do ator. Para Meierhold, o corpo tinha um poder de significação muito maior do que a palavra. Propôs a quebra da dicotomia corpo-cérebro com um treinamento global que envolvia o ator como um todo e que serviu de base para a construção da biomecânica. A relação entre plateia e palco foi o centro das suas experiências teatrais.

Ao quebrar a ilusão criada pela cena naturalista, Meierhold promoveu uma revolução no modo de interpretação do ator. “Teatralizou” o teatro amplificando-o enquanto jogo, o que chamou de Teatro da Convenção Consciente. Neste período escreveu seus primeiros textos teóricos e criou o Estúdio Escola. Apesar da aparente ênfase nas ideias da encenação, Meierhold se preocupou com o lugar do ator no teatro, considerando-o elemento fundamental do espetáculo.

O ator seria o ponto chave do espetáculo mais teatral, distanciando-se do realismo e com características mais simbólicas. Havia em Meierhold a preocupação com a questão da recepção do espectador em relação ao teatro. Para ele, deve-se deixar para o espectador um espaço para que a imaginação possa preencher e contribuir para a completude da obra.

Engajou-se com entusiasmo na Revolução Russa de 1917, transformando-se num importante militante cultural. Em contraposição às mostras de teatro tradicionais, criou o “Outubro Teatral”, movimento que transformou os teatros em espaços de discussão política e comunhão com os espectadores. Na sequência, deu origem ao ator-tribuno, o artista que não se limita a interpretar seu papel, mas que também agita e atua politicamente, distanciando-se por vezes de sua personagem para fazer com que a mensagem chegue de forma mais clara e límpida ao público presente nos espetáculos.

Apesar do compromisso com a causa revolucionária, da consistência dos espetáculos, dos sucessivos sucessos de público, seu teatro começou a ser taxado pelo estado militarista de “incompreensível para as massas” e de cultuar em suas montagens “aspectos místicos, eróticos e de espírito associal”. Os integrantes do Partido Comunista acusavam o encenador, assim como toda a vanguarda artística, de priorizar a forma em detrimento do conteúdo. Tornou conhecidas, por meio de suas encenações, as peças do seu amigo e poeta Maiakovski: O Mistério Bufo, O Percevejo e Os Banhos. Com a montagem de O Inspetor Geral, em 1926, Meierhold atinge o auge de sua carreira.

Os burocratas, no entanto, continuavam defendendo e exigindo um teatro em tudo maniqueísta, por demais simplista, esquematizado ao extremo. Foi perseguido pela crítica oficial, pela classe teatral e por toda uma geração de artistas. Isolado e solitário, passou a fazer frente ao período mais sombrio do stalinismo. O Teatro Nacional Meierhold foi fechado no início de 1938. Stanislavski surpreende a todos convidando Meierhold a trabalhar com ele no seu novo Teatro de Ópera. Foi uma decisão valente oferecer proteção a alguém que caíra em desgraça diante do sistema.

Mas Stanislavski alegou: “Precisamos de Meierhold no teatro. Ele é meu único herdeiro”. No Primeiro Congresso de Diretores, em 1939, defendeu o direito à liberdade de expressão e de pesquisa como armas revolucionárias. Logo em seguida, Meierhold foi preso. Acusado de diversos crimes, sem provas a partir de delações, é submetido à intensa tortura física e psicológica. Foi executado em fevereiro de 1940, aos 66 anos. Sua mulher, Zinaida Reich, atriz de sua companhia, foi encontrada morta em seu apartamento, pouco tempo depois da prisão de Meierhold.

A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz encontra, a partir da história de Meierhold, a oportunidade de refletir e se posicionar frente ao seu tempo e reafirmar as suas ideias e práticas libertárias. Com 40 anos de utopia, paixão e resistência na trajetória da cena teatral brasileira, o Ói Nóis Aqui Traveiz vem compartilhar com o público sua nova encenação teatral: Meierhold. A encenação parte da livre adaptação da peça da chamada dramaturgia de "micropolítica de resistência” do argentino Eduardo Pavlovski (1933-2015) Variaciones Meyerhold.

Meierhold mostra o encenador russo num tempo fora da realidade, póstumo, como um espectro que reflete sobre o seu discurso artístico e os relaciona com momentos dramáticos de sua trajetória pessoal, sujeito ao cárcere, à violência física e humilhações até o seu brutal assassinato. A história de Meierhold não deixa de nos questionar sobre o momento e o lugar em que vivemos.

A dinâmica da encenação busca perguntar aos espectadores como Meierhold nos afeta e nos comove no nebuloso Brasil de hoje. E afirmar, mais uma vez, o papel imprescindível que cabe ao teatro dentro de um projeto utópico de construção de uma nova sociedade, da imaginação criadora como potente instrumento de transformação, da estética como arma revolucionária.

* Por Paulo Flores, fundador e diretor da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz