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  • 31/03/2018
  • 11:29
  • Atualização: 11:40

Ói Nóis Aqui Traveiz completa 40 anos neste sábado

Caliban’ é um dos espetáculos mais recentes da Tribo de Atuadores e relaciona Shakespeare com a exploração na América Latina

Caliban’ é um dos espetáculos mais recentes da Tribo de Atuadores | Foto: Pedro Isaias / Divulgação / CP Memória

Caliban’ é um dos espetáculos mais recentes da Tribo de Atuadores | Foto: Pedro Isaias / Divulgação / CP Memória

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  • Paulo Flores

Em 31 de março de 1978 estreava “A Divina Proporção” e “A Felicidade Não Esperneia Patati Patatá”, duas peças curtas que formavam a primeira encenação do Teatro Ói Nóis Aqui Traveiz, na Rua Ramiro Barcelos. Ambas abordavam o processo de desumanização que o homem sofre pela violência da sociedade consumista. Viviam-se ainda os anos de intolerância e repressão policial da ditadura civil-militar que se instalara no Brasil em abril de 1964.

Era um momento de grande ebulição social com a volta das grandes manifestações de rua exigindo liberdades democráticas e anistia aos presos e exilados políticos. O núcleo que deu origem ao Ói Nóis Aqui Traveiz queria um teatro comprometido com o momento político vivido no país. O grupo nascia com a ideia de um teatro concebido fora dos padrões convencionais. Estruturado como coletivo autônomo o Ói Nóis Aqui Traveiz começou a desenvolver a sua expressão a partir da criação coletiva, do contato direto entre atores e espectadores e do uso do corpo em oposição ao primado da palavra.

O nome em grafia propositadamente iletrada era um aviso de que o grupo se propunha a tomar atitudes inusitadas e contestadoras. Esse teatro de transgressão e invenção levantou muita polêmica, e na retrospectiva da década, a crítica citou o grupo como o fato mais importante do teatro gaúcho. Fundamentado nos princípios de solidariedade, autogestão e anarquismo, no início dos anos 1980 o Ói Nóis Aqui Traveiz adotou o termo Tribo de Atuadores, que sugere uma nova sociedade, baseada na vivência em comunidade e na valorização das relações diretas e da responsabilidade individual.

É nesse momento que nasce o teatro de rua da Tribo com as primeiras intervenções cênicas em manifestações ecológicas e pacifistas. A partir daí o Ói Nóis Aqui Traveiz não saiu mais da rua. Antimilitarismo, denúncia de agrotóxicos, luta contra o racismo, defesa dos povos indígenas; em todos os momentos de mobilização política, em atos de repúdio à injustiça social e à violência institucionalizada, a Tribo estava presente, em defesa terna e intransigente de uma humanidade criativa e solidária.

Em 1984, os atuadores constituem a Terreira da Tribo, hoje situada na Rua Santos Dumont, no bairro São Geraldo. Um espaço cultural aberto a todo tipo de manifestações artísticas. O nome deste espaço feminino, telúrico e anarquista vem de terreiro, lugar de encontro do ser humano com o sagrado. Com o passar do tempo, a Terreira da Tribo se transforma em Centro de Experimentação e Pesquisa Cênica e Escola de Teatro Popular.

Partindo do princípio de que toda pessoa tem um potencial criador, o espaço oportuniza a todos os interessados o contato com o fazer teatral. Oferece à cidade oficinas de iniciação teatral, pesquisa de linguagem, formação e treinamento de atores, além de seminários e ciclos de discussão sobre a cena contemporânea, criando um processo de permanentes descobertas, disseminando o conhecimento e o estímulo ao aprendizado, desenvolvendo o espírito do trabalho coletivo, valorizando a diferença, revisando conceitos estéticos, buscando sempre a essência do teatro.

Além do trabalho pedagógico desenvolvido na Terreira, os atuadores criaram a ação Teatro Como Instrumento de Discussão Social levando oficinas para diversos bairros populares da Região Metropolitana. O teatro criado na periferia passou a ser um poderoso aliado na permanente luta em favor da construção da cidadania. Constituindo na prática um laboratório para imaginação social.

Tendo como base o Teatro Ritual de Antonin Artaud e o Teatro Épico de Bertolt Brecht, a Tribo bebeu de diversas fontes cênicas durante a sua trajetória, como o teatro revolucionário do Living Theatre, o trabalho de ações físicas dos mestres europeus Stanislavsky, Meyerhold, Grotowski e Eugênio Barba, e dos brasileiros Augusto Boal (Teatro do Oprimido), José Celso Martinez Corrêa (Teatro Oficina) e Amir Haddad (Tá Na Rua).

Nesses 40 anos criou encenações que marcaram o teatro brasileiro como "Ostal", "Antîgona Ritos de Paixão e Morte", "Fausto", "A Saga de Canudos", "Kassandra In Process", "O Amargo Santo da Purificação" e "Medeia Vozes". Nesse grave momento que o nosso país vive, onde novamente a sombra do fascismo paira sobre os brasileiros, o Ói Nóis Aqui Traveiz reafirma as suas ideias e práticas coletivas em defesa da democracia, liberdade e justiça social.

A Tribo continuará, nos próximos anos, compartilhando a sua experiência com o maior número de pessoas possível, através das suas encenações e da prática artístico-pedagógica. Certamente encontrará, como até aqui tem sido, os mais diferentes obstáculos para realizar o seu teatro de ousadia e ruptura. Mas resistir é manter abertos os vínculos com o futuro ainda sem nome e informe.