O poder das facções

O ano de 1979 é referência no surgimento de facções criminosas no Brasil. Foi quando se soube que um grupo se organizara na mescla entre presos políticos e bandidos comuns, na prisão carioca de Cândido Mendes. Era o Comando Vermelho. A vontade de cometer crimes conheceu estratégia e organização. E usou isto conforme seu interesse, sem qualquer compromisso revolucionário. E o CV já nascia sob protestos de superlotação carcerária e descontrole no sistema prisional. Quase quinze anos depois, nada mudou na gestão prisional ou na política de segurança pública brasileira. Então surge, na Casa de Custódia de Taubaté (SP), o Primeiro Comando da Capital (PCC). No início, um time de futebol de presos paulistanos para jogar contra os “caipiras”. Depois, um grupo a fim de organizar e unir os criminosos das cadeias públicas após o episódio das mortes no Carandiru. Hoje, esse poderio armado, quase bélico, espalhado pelos diversos estados da federação, com várias frentes “empresariais” do crime e milhares de bandidos a seu comando.

No RS, a Falange Gaúcha deu o ar da graça em 1987 e tocou o horror no Presídio Central de Porto Alegre e, um ano depois, em Charqueadas. Inspirado no homônimo carioca, o grupo nasceu para viabilizar fugas e capitalizar aliados, até para mais conforto nas cadeias. Essa facção perdeu força no meio da década de 90, quando Melara, um de seus líderes – que conseguiu comandar um motim no Central mesmo preso na PASC, sem que ainda existisse celular -, criou “os Manos” e sua ideologia de que não deveriam aceitar uma sociedade que não os aceitava (Mano não estuda e nem trabalha, Mano é do crime). E de Brasa a Unidos, Abertos e Bala na Cara ou Bala nos Bala, de lá pra cá os grupos criminosos só se fortalecem. Têm territórios, comandam cadeias e se diversificam nos crimes, como tráfico de drogas, cigarros ou armas, roubo e clonagem de carro, roubo de carga, assaltos, ataques a bancos e carros fortes, etc. E contam com integrantes e colaboradores – por simpatia política ou corrupção pura – muito bem postados na nossa sociedade.

Os presídios federais foram a saída para diminuir o poder paralelo desses grupos. Criar distância e dificultar o comando do crime. Porém, a decisão tomada pela justiça federal do Mato Grosso do Sul desfaz todo um esforço – bem dispendioso inclusive – neste sentido, ao determinar o retorno de líderes dessas facções aos presídios do RS. O comando da segurança pública gaúcha tenta mostrar as razões e reverter a situação, mas parece não ser ouvido. Incrível como certas decisões são tomadas desprezando contexto e realidade. Um belo presente às facções. E o preço a ser pago não será apenas jogar mais uma enorme quantia de impostos no ralo. Não. Muito sangue será derramado com a volta desses presos. E não será só sangue de bandido, obviamente.

Oscar :