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Porto Alegre, segunda-feira, 24 de Setembro de 2018

Copa do Mundo
  • 02/07/2018
  • 14:01
  • Atualização: 14:28

Silenciosos e atentos, cegos acompanham a vitória do Brasil sobre o México

Eles se reuniram na Associação dos Cegos do RS, em Porto Alegre, para assistir a partida

Luiz Antônio Burzlaff foi quem anunciou o primeiro gol do Brasil aos colegas | Foto: Guilherme Almeida

Luiz Antônio Burzlaff foi quem anunciou o primeiro gol do Brasil aos colegas | Foto: Guilherme Almeida

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  • Raphaela Suzin

Enquanto cada lance do jogo do Brasil era comemorado e gritado em diversos cantos do País, em uma sala na Associação dos Cegos do Rio Grande do Sul (Acergs), no Centro de Porto Alegre, a torcida era silenciosa, mas muito confiante. A atenção estava totalmente voltada para o som da televisão, que transmitia o jogo do Brasil contra o México, válido pelas oitavas de final da Copa do Mundo.

Sem enxergar, eles precisam prestar atenção na narração para acompanhar o jogo e, como diz a instrutora de braile, Franciele Brandão, 31 anos, "imaginar os lances". "A gente acompanha pela televisão ou pelo rádio, mas não sabemos exatamente como os lances acontecem. Temos que imaginar", explicou.

Alguns comentários esporádicos da partida disputavam espaço com o narrador. "Chegaram cedo hein", disse a aposentada Elisângela, de 41 anos, durante o primeiro ataque mexicano, logo aos dois minutos de partida. Mas quando o Brasil chegou, com Neymar arriscando da entrada da área, alguém lamentou: "Uh! Mas ele chuta muito".

Com os ouvidos atentos a narração, o silêncio, que perdurou durante a maior parte do jogo, foi quebrado aos 6 minutos do segundo tempo. "Neymar, Neymar, Neymar", gritou Luiz Antônio Burzlaff, 56 anos. "O Brasil tem que ser campeão", falou emocionado o aposentado que tem sobrenome alemão, mas que confessou: "Torci para a Alemanha ser desclassificada". Ele acompanhava o jogo pelo rádio e foi quem anunciou o gol para os demais torcedores. A comemoração foi tímida, pois precisavam estar atentos aos demais lances.

O segundo gol de Firmino foi narrado pelo técnico de informática e instrutor de oficiais, Maurício Wolker: “Foi uma jogada do Neymar, que chutou a bola, o goleiro espalmou e sobrou para o Firmino que marcou o gol”. “Eles gostam de mais detalhes, por isso eu explico para eles o que está acontecendo”, disse.

Ex-jogador da categoria de base do Sport Clube Gaúcho, de Passo Fundo, João Vilmar Fonseca, 60 anos, tem mais facilidade que os demais para compreender as jogadas narradas. Além da televisão, ele ouvia a partida por um rádio pequeno, grudado no ouvido direito. A narração é mais descritiva e facilita para eles compreenderem os lances da partida. "Para nós, o jogo é emocionante. A gente imagina a jogada através da voz, da narração. É muita emoção", contou.

Apaixonado pelo Grêmio e pela Seleção, João perdeu a visão justamente durante uma partida de futebol. Natural de Erechim, ele tinha 14 anos, quando uma bola atingiu o seu rosto, causando o deslocamento das retinas dos dois olhos. Desde então, não entrou mais em campo, mas a paixão pelo esporte permaneceu firme e a confiança pela Seleção também: "Acho que temos chance de sermos campeões", comemorou.

Foto: Guilherme Almeida

Associação

Por mês, a Associação dos Cegos do Rio Grande do Sul atende cerca de três mil pessoas. São oferecidas oficinas de poesia, terapia musical e seis modalidades esportivas: futsal de cegos, futebol de baixa visão, judô, atletismo, xadrez e gol-bol - a única modalidade criada especificamente para pessoas com deficiência visual.

Além do entretenimento, a associação é um espaço para os cegos se encontrarem e aprenderem atividades essenciais, como usar a bengala e a ler e escrever em Braile, um sistema de escrita em relevo. Uma das salas da associação simula, inclusive, um apartamento. "Aqui ensinamos a arrumar a cama, o sofá, enfim, a casa e até a combinarem as roupas", explicou o presidente da Acergs Gilberto Keemer.

Solidariedade

A associação junta tampinhas de garrafas plásticas e de produtos de limpeza para vender a recicladores. Com o dinheiro, eles compram bengalas para doar. Quem quiser ajudar, pode entregar as tampas na sede da Associação, na rua Vigário José Inácio, número 433, no sexto andar, das 9h às 18h.