Porto Alegre, quinta-feira, 30 de Outubro de 2014

  • 01/05/2014
  • 17:40
  • Atualização: 18:14

Ex-assessora de Senna conta que piloto morreu na pista do GP de San Marino

Betise Assumpção revelou nesta quinta que Bernie Ecclestone deu a notícia ao irmão do piloto, mas pediu para segurar a informação

Assessora contou nesta quinta que irmão foi avisado de morte de Senna ainda na pista de Ímola | Foto: Jean-Loup Gautreau / AFP / CP

Assessora contou nesta quinta que irmão foi avisado de morte de Senna ainda na pista de Ímola | Foto: Jean-Loup Gautreau / AFP / CP

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  • Lancepress

Um dos grande embates sobre o acidente de Ayrton Senna no dia 1º de maio de 1994, no GP de San Marino, em Ímola, foi se o piloto morreu na pista ou no hospital. Na época, divulgou-se a notícia apenas à tarde, quando o brasileiro já estava no hospital. Porém, nesta quinta-feira, há exatos 20 anos da morte de Senna, a assessora de imprensa do tricampeão da Fórmula 1 na época, Betise Assumpção, fez uma revelação em seu blog. O piloto morreu na pista. E a decisão de só divulgar a notícia depois partiu do chefe da categoria, Bernie Ecclestone. Tudo para não interromper a corrida.

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Betise afirmou que decidiu contar o que aconteceu naquela dia depois do que leu recentemente na imprensa por conta dos 20 da morte de Senna. "Não tenho a intenção de apontar dedo ou colocar culpa. Quero simplesmente registrar o que realmente aconteceu, porque eu era uma das poucas pessoas que estava lá. Vivi de perto os acontecimentos daquele dia, na preparação para liberar o corpo, na viagem para o Brasil, no velório e no enterro. Hoje eu vou falar sobre aquela reunião no interior do motohome da Foca (Associação de Construtores da F1), com Bernie, Slavica (então sua esposa), o Leonardo (irmão do Senna) e eu", escreveu.

Betise conta que saiu dos boxes da Williams ao lado de Leonardo em direção à torre de comando do autódromo em busca de informações sobre o acidente. Encontraram com Ecclestone, que puxou o irmão de Senna pelo braço em direção ao motorhome. Leonardo não falava inglês, então a assessora traduziu o que o dirigente falava. Ao ser barrada, Betise disse que teria de entrar também para ajudar na tradução.

Lá dentro, Slavica chorava. Ecclestone sentou no braço de uma poltrona e os dois num sofá. O dirigente tinha notícias sobre Senna. Segundo a assessora, Leonardo estava branco. Ao ouvir, em inglês, que o brasileiro estava morto, Betise ficou sem saber como traduzir de forma mais amena a notícia.

"Então, eu me virei para o Leo e, de maneira mais gentil e carinhosa possível, falei: Leo, eu sinto muito ter de te falar isto, mas ele está dizendo que o Ayrton está morto. Leo ficou atordoado. Ele olhou para mim, depois para Bernie. Não disse uma palavra. Tive vontade de abraçá-lo. Ele começou a chorar. A soluçar", escreveu a assessora.

Em seguida, Betise conta que Ecclestone completou dizendo que só iria anunciar mais tarde a notícia para não parar a corrida. Mais uma vez ela traduziu para Leonardo. "Mesmo antes de eu terminar, ele já estava descontrolado, chorando alto e tremendo. Eu realmente não sabia o que fazer. Eu nunca tinha visto uma dor tão crua", escreveu.

A assessora conta que levou alguns minutos para acalmar o irmão de Senna. E ela disse para, segurando suas mãos: "Leo, eu realmente sinto muito. Nossa, de verdade. Nem sei mais o que dizer para você, mas uma coisa você tem que fazer. Você precisa se recompor e ligar para seus pais no Brasil. Eles devem estar desesperados e não pode ser eu quem vai dar esta notícia. Eles precisam ouvir isso de você. Tenho certeza de que vai ser mais reconfortante para eles também".

Betise conta que Leonardo ligou do motorhome. Neste momento, Martin Whitaker, então assessor de imprensa da Federação Internacional de Automobilismo (FIA), entrou. Ele conversou com Ecclestone. Whitaker tinha dito na sala de imprensa que Senna teve ferimentos na cabeça e tinha sido levado para o hospital. Enquanto o irmão do piloto falava ao telefone, a assessora disse que o chefão da F1 comunicara sua morte.

Whitaker, então, insistiu na sua informação, enquanto Betise dizia que já sabia da morte. Os dois, então, foram para uma sala menor. Lá, ela relatou que Leonardo já comunicara à família. O assessor da F1 voltou a dizer que não falara em morte com a imprensa. Betise, então, retrucou: "Sim, Martin, mas o que estou tentando dizer é que, se você insistir nesta postura, eu vou ter que sair desta sala e dizer ao Leo que o Ayrton ainda está vivo e, consequentemente, dar ao pai e mãe dele a esperança de que ele possa se recuperar. Uma esperança que não existe", disse Betise.

Segundo a assessora, Whitaker respondeu, categórico: "Betise, ele não está morto. Esta é a informação que estou dando a todos". Ela saiu da sala e contou para Leonardo. O irmão de Senna ligou novamente para o Brasil e falou com seus pais. Betise conta que passou as cinco horas seguintes traduzindo, organizando e transmitindo recados e lidando com as esperanças e dores do irmão de Senna no hospital e da família no Brasil. De acordo com ela, somente quando o médico da F1, Syd Watkins, chegou ao hospital, tudo ficou esclarecido.

"Eu estava com a irmã do Ayrton (Viviane) no telefone me dizendo para rezar, que eu deveria ter esperança. Ayrton era forte. Eu simplesmente não conseguia fazê-los compreender a gravidade da situação. Tirei o telefone da orelha e disse para Syd: É a Viviane. Ela não acredita quando eu digo o quão grave é o estado do Ayrton. Eu não sei mais o que dizer. Você poderia falar com eles. Tenho certeza que vão te escutar. Syd olhou para mim. Ele estava visivelmente triste e com dor. Betise, não há esperança nenhuma. Ele já estava morto na pista (e passou a descrever alguns detalhes de suas lesões na cabeça, que eu não vou escrever aqui em nome do bom gosto e em respeito à sua família e amigos próximos). Eu fiquei muda. Cabeça vazia. Simplesmente entreguei-lhe o receptor".

Betise Assumpção revelou que Bernie Ecclestone deu a notícia ao irmão do piloto / Foto: Reproduçao / CP

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