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  • 15/10/2016
  • 13:03
  • Atualização: 13:25

Rio Grande do Sul lidera número de casos de racismo no futebol

De acordo com relatório, foram registradas nove ocorrências no Estado

Rio Grande do Sul lidera número de casos de racismo no futebol | Foto: Djalma Vassão / Gazeta Press / AE / CP Memória

Rio Grande do Sul lidera número de casos de racismo no futebol | Foto: Djalma Vassão / Gazeta Press / AE / CP Memória

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  • Carlos Corrêa

Pelo segundo ano consecutivo, o Rio Grande do Sul lidera um levantamento do qual desejaria estar na última posição: o de casos de racismo no futebol. De acordo com o Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol, divulgado essa semana pelo Observatório da Discriminação Racial no Futebol, foram identificados 35 registros no Brasil ao longo de 2015, sendo 24 ocorrências em estádios e outras 11 na internet.

Deste total, nove aconteceram no Estado, três vezes mais do que São Paulo, que vem logo atrás. Para piorar um pouco mais, na comparação com o ano anterior, o crescimento foi de 80%, pulando de cinco para nove, um aumento bruto maior do que qualquer número total dos demais estados. Os índices deixam claro que o racismo está longe de ser uma questão resolvida também no esporte. Paradoxalmente, há um lado positivo no gráfico que indica crescimento.

De acordo com Marcelo Carvalho, diretor do Observatório, a boa notícia está no fato de que, ao contrário do que acontecia até algum tempo, agora as vítimas não estão mais permanecendo caladas. “Acredito ser essa a grande mudança. A ofensa de chamar um jogador negro de ‘macaco’ sempre aconteceu, o que vem mudando é o posicionamento dos atletas”, afirma Carvalho, um dos responsáveis pelo relatório, um documento de quase 60 páginas que detalha cada um dos casos e inclui ainda episódios envolvendo preconceitos homofóbicos e xenofóbicos — jogadores do Paysandu foram chamados de “animais e índios” por torcedores do Fluminense em agosto de 2015.

Talvez o dado mais preocupante do relatório seja o fato de que na grande maioria das vezes a consequência é nada ou quase nada. Dos nove episódios registrados em solo gaúcho, em seis sequer houve denúncia formal ou registro em súmula, em dois os clubes acabaram absolvidos e em apenas um foi registrado um boletim de ocorrência. Informalmente, o Observatório acredita que o número de casos pode ser ainda maior, não fosse o receio de vários atletas em fazer a denúncia. Um caso emblemático neste sentido é o de Tchê-Tchê, do Palmeiras. O meia foi vítima de ofensas racistas em agosto, na Arena da Baixada, no Paraná. Dias depois, declarou: “Isso me incomodou pouquíssimo, estamos tão bem no Brasileirão, que não deu nem tempo de pensar em nada”. E o caso morreu ali.

Da parte dos clubes, o discurso é de que tudo que está ao alcance é feito. Grêmio e Esportivo, de Bento Gonçalves, por exemplo, estiveram no centro de polêmicas em 2014. Hoje, asseguram que mantêm campanhas de conscientização dos torcedores. Presidente do clube da Serra, Guilherme Salton lembra que a agremiação lança mão de placas dentro do estádio e de anúncios em jornais da região condenando qualquer ato discriminatório.

Para Carvalho, no entanto, os clubes ficam restritos a ações, quando deveriam encampar campanhas mais efetivas e de longo prazo. “Acredito que isso seja apenas a ponta do iceberg. A questão racial dentro do futebol é muito mais complexa quando vamos analisar a falta de negros nos cargos de comando, como treinadores e dirigentes”, lembra ele.

A análise encontra eco nos fatos, afinal, coincidência ou não, dos 20 clubes do Campeonato Brasileiro, apenas o Botafogo tem um técnico negro: Jair Ventura. O que só mostra como o caminho ainda é longo. Muito longo.

Casos não estão apenas na Serra 

A liderança por dois anos seguidos do Rio Grande do Sul nos casos de racismo no futebol brasileiro é recebida por dirigentes gaúchos com tristeza. Mas não com surpresa. No único estado do país em que um cântico que fala em “chora, macaco imundo” ainda divide opiniões — como se pudesse não ser racista —, os episódios são comuns.

Entre as explicações mais frequentes, aparecem fatores culturais como as colonizações italiana e alemã. “Vou dizer o quê? É um pouco da cultura do italiano. Ainda que eu ache que isso venha sendo quebrado, tem um pouco”, afirma o presidente do Esportivo, de Bento Gonçalves, Guilherme Salton.

A Serra Gaúcha, aliás, é citada quase sempre quando se fala de episódios racistas no futebol, o que evidencia uma meia-verdade. Sim, dois dos casos de maior repercussão — em 2006, o então zagueiro do Juventude, Antônio Carlos, fez gestos racistas contra o volante Jeovânio, do Grêmio, e, em 2014, o árbitro Márcio Chagas da Silva foi vítima de ofensas de torcedores do Esportivo — aconteceram na região e o relatório de 2015 aponta outros dois: em Caxias e Nova Prata.

No entanto, Porto Alegre lidera o relatório, com três ocorrências (duas no Inter, uma no Grêmio) e Pelotas vem logo atrás com outras duas — as outras duas são em Rio Grande e Lajeado. Ou seja, sim, uma parcela dos torcedores da Serra tem se mostrado racista. Mas, queira ou não o restante dos gaúchos encarar o fato, tais torcedores estão longe de ser uma exceção.


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