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  • 01/09/2018
  • 09:54
  • Atualização: 10:15

Mulheres aumentam presença no júri de exposições de animais

41° Expointer teve duas juízas

Lucyana Queiroz avaliou os zebuínos nas competições da raça em Esteio | Foto: Alina Souza

Lucyana Queiroz avaliou os zebuínos nas competições da raça em Esteio | Foto: Alina Souza

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  • Franceli Stefani

Elas deixam de lado o salto alto para entrar em pistas de julgamento. Enfrentam o sol e o clima adverso. Com os olhos atentos, prestam atenção em cada traço do animal. O jeito de caminhar, a compleição física e as características morfológicas. O toque feminino está no tom da voz, na vestimenta e nas unhas bem feitas. A 41° Expointer, que se encerra neste domingo no Parque Assis Brasil, em Esteio, teve duas juízas. Uma nos zebuínos, a zootecnista Lucyana Malossi Queiroz, 31 anos. A outra, nos ovinos, a veterinária e zootecnista Carla Bompiani D'Ancora Dias, 44.

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Ambas têm vasta experiência na área, enfrentaram a resistência e o preconceito iniciais e hoje são reconhecidas em todo o país. Lucyana e Carla têm histórias semelhantes. Precisaram lutar, estudar e confirmar que seriam capazes de conquistar seus espaços. “Ainda enfrentamos algumas barreiras, ainda somos a minoria. Porém, não diria que se trata de preconceito, porque a mulher tem capacidade de fazer a mesma coisa que o homem e não há necessidade de provar”, enfatiza Lucyana.

Segundo ela, todas têm os mesmos direitos. “A diferença é que eu nasci e cresci nisso. Eu tenho o dom. Não é problema nenhum ficar no sol. Toda profissão, se você não gosta é um problema. No meu caso, nem parece que estou trabalhando”, diz a única mulher a julgar uma Expoinel Nacional, com mais de 700 exemplares da raça Nelore em pista.

Jurada efetiva do Colégio Brasileiro de Jurados das Raças Zebuínas (CBJRZ) da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), Lucyana acumula em seu currículo cerca de 80 exposições julgadas e mais de 15 mil animais avaliados. Nascida em São Paulo e criada no Mato Grosso, conta que cresceu dentro de uma fazenda. Com facilidade na comunicação e curiosa na busca pelo conhecimento, começou a ser observada pela coordenação do curso, que passou a indicá-la para entrevistas. “Algumas vezes diziam que não tinham interesse em contratar mulher. Em outras, optavam por mim”.

A vontade de conquistar um espaço em um mercado popularmente visto como masculino levou Lucyana, aos 26 anos, a ser a mais jovem – entre homens e mulheres – a julgar uma Expozebu, em Uberaba (MG). “Lá é considerada a Copa do Mundo para jurados. A minha primeira foi em 2013 e hoje são cinco julgamentos. Para qualquer um, é um sonho. Somos em mais de 270 juízes em todo Brasil, sendo que são sete ou oito que conseguem. Chego a arrepiar só em falar”, exclama.

Hoje, com a carreira consolidada, tem na estrada nove países, entre eles o México, a Colômbia, a Venezuela, Honduras, Bolívia e Nicarágua. “Cruzo com poucas mulheres. Temos algumas, atuantes umas duas ou três. Com certeza seria ótimos termos outras, mas é preciso fazer aquilo que se gosta”, afirma.

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Para Carla, o início da carreira não foi diferente. Ela, que desde 2006 atua na área dos julgamentos, afirma que no segmento de ovinos também encontra poucas mulheres nas pistas dos campeonatos. “Ainda somos poucas. Percebemos que existe, de forma subliminar, um pouco de preconceito. Com o passar do tempo também percebemos que ele vem diminuindo”, relata. Pelo país, conforme a jurada, há pelo menos cinco mulheres de destaque na área. “No ovino a mulher está ganhando campo, está se interessando mais, acredito que por ser um animal menor, mais dócil.”

A profissional, que atua também em exposições e assistência a rebanhos, confessa ter enfrentado problemas com pecuaristas que têm receio de chamar mulheres para atender suas demandas. “Acredito que é porque muitos ainda têm a ideia da fragilidade, de que não temos o conhecimento suficiente para suprir as necessidades, mesmo comprovando todos os dias que isso não é verdade”, pondera.

Em comunidades mais interiorizadas, com menos informações, essa situação é mais frequente. De acordo com Carla, o Rio Grande do Sul não está nessa situação, que é mais observada no Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

Perfeccionistas e didáticas

Gerente executivo da Associação dos Criadores Gaúchos de Zebu (ACGZ), o mestre em zootecnia Nathã Carvalho afirma que o colégio de jurados da raça é formado, na maioria, por homens. Por outro lado, há três mulheres que se destacam. São elas Tatiane Almeida Drummond Tetzner, Lilian Jacinto e a Lucyana Malossi Queiroz. “Elas julgam corriqueiramente exposições em todo o país, América do Sul e Central. Frequentemente pedimos que elas retornem. Tanto que, em Esteio, a Lucyana está previamente convidada para estar de volta pela grande capacidade e forma que encarou a Expointer”, antecipa. O retorno deverá acontecer em 2020.

Os detalhes observados pelas profissionais, conforme o gerente, são singulares. “Elas se destacam pelo perfeccionismo, capacidade didática de abordar os comentários e os diferenciais morfológicos dos animais”, afirma. Carvalho acrescenta que elas também demonstram preocupação em falar sobre as características de cada um e o comprometimento com a competição.

Quando o assunto é preconceito, acredita que pode haver, mas no início da carreira. “Em 2011, quando a Tatiana veio pela primeira vez, não tivemos nenhum problema. A trajetória respeitada e a competência dessas juradas é de conhecimento de todos.”

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De acordo com o presidente da Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco), Paulo Afonso Schwab, no quadro são 130 técnicos e muitas mulheres que se destacam. “No Rio Grande do Sul é a primeira vez que temos uma pessoa do sexo feminino na pista. Extremamente conhecedora da área e com excelentes contribuições”, elogia.

Segundo ele, o sexo do jurado não interfere no resultado. Isso porque há normas e regras para o julgamento. “Encontramos poucas mulheres porque a maioria opta pela linha pet, cães e gatos, por exemplo. Porém, elas são a maioria na Arco. Posso dizer que 90% do nosso grupo é feminino.”

Primeira vez na Expointer

Carla tem a fala calma e o olhar atento. Durante o julgamento, observa o contexto do animal. Sem precisar qual é o item fundamental para formar um campeão, salienta a importância do equilíbrio. Pela primeira vez como jurada na Expointer, elogia a qualidade dos produtores. “Esteio é onde vem o que há de melhor. No espaço dos naturalmente coloridos, a qualidade deste ano está muito superior ao que vi em 2017, enquanto visitava o evento. Uma variedade de raças”, descreve.

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Experiente em feiras e julgamentos, Lucyana ficou impressionada com a estrutura do parque. “Vir aqui era um grande sonho, é a maior exposição da América Latina. A feira mais bonita que já presenciei. Bem interessante, totalmente diferente do que estou acostumado. Tem carneiro, máquina, cavalos, criadores apaixonados e pista totalmente cheia de emoção” enumera.

O envolvimento familiar foi outro ponto salientado pela zootecnista. “É lindo ver a família junta. Cada pavilhão tem uma churrasqueira e você vê a confraternização dos funcionários, patrões e técnicos.”