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ANO 115 Nº 256 - PORTO ALEGRE, DOMINGO, 13 DE JUNHO DE 2010

Olhar do outro



Emmanuel Tugny

De regresso de Munique, onde, empurrado pelo primeiro-ministro britânico, Neville Chamberlain, ele assinou em 30 de setembro de 1938 com Hitler acordos formidavelmente favoráveis à expansão do Reich, o presidente do Conselho francês, Edouard Daladier, foi aclamado por uma multidão persuadida de que a assinatura tivesse evitado uma guerra à França. Qual não foi a surpresa do secretário-geral do Ministério de Relações Exteriores Francês, o poeta Saint-John Perse, ao ouvi-lo exclamar "Ah, os cretinos!".

Não é questão de considerar, evidentemente, que o presidente da República do Irã, aquele mesmo que, desde a sua entrada em função, negou a realidade da Shoá, endureceu o Charia, ameaçou Israel de extinção, humilhou as Nações Unidas, não seja um democrata frequentável. É fora de questão não considerá-lo como um homem de Estado fiável e sereno que encarna uma terceira via geoestratégica entre Norte e Sul... Tudo prova que havia urgência para a Turquia e o Brasil oferecerem ao Irã aquilo que a absurda comunidade internacional se obstina a lhe recusar.

Proprichtchin, o herói do Jornal de um Louco de Nicolas Gogol inventava cães. Não passa um dia sem que o Irã invente cães. A invenção de cães é consubstancial da identidade totalitária. O Irã inventou seus cães: o poder ali queima, simbolicamente ou não, tratados, livros, rostos, bandeiras, cães. Ele combate seus cães, como Hamlet e seus fantasmas de culpados. E a comunidade democrática sabe, realmente, vendo-se cadela no olhar do outro, curvar a coluna dorsal para não dar razão a este olhar.

Ora, louco tem sempre razão.

As crianças italianas respondiam em coro nas aulas dos anos 30 "il Duce ha sempre ragione". O louco tem sempre razão, não poderia não ter razão: os cães são cães.

Qual louco imaginaria que é uma honra a comunidade democrática tentar opor-se ao olhar do louco não se fazendo cordeiro, mas, sim, lobo?

É a lição de Munique, segundo a Turquia e o Brasil: perigo para quem não dá razão ao tirano.

Os dois países esta semana acharam tolerável que o presidente iraniano julgue as ameaças de sanção da ONU, dignas de ser enviadas ao lixo: cadelas.

Têm razão de dar razão ao desarrazoado: não são cães, pois que lhe dão a pata!

Resta apenas desejar que Dunga convide suas tropas a dá-la aos jogadores da Coreia do Norte, para que Kim Jong II compreenda, enfim, o quanto é admirável, o quanto não é cão, o democrático Ocidente.

Na noite da derrota festejada por uma torcida brasileira entusiasta, esperemos que o técnico da Seleção não tenha o mau gosto, sobretudo na presença de um poeta, de pronunciar as três palavras cães de Daladier…

diplomata, escritor e músico francês que passará a

colaborar com esta coluna em domingos intercalados





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