Correio do Povo - O portal de notícias dos gaúchos | Versão Impressa

Porto Alegre

26ºC

Ver a previsão completa

Porto Alegre, quinta-feira, 24 de Janeiro de 2019

Jornal > Geral

ANO 116 Nº 180 - PORTO ALEGRE, TERÇA-FEIRA, 29 DE MARÇO DE 2011

Sonho de guri dura até 13 anos

Uma bala perdida interrompeu, em 2006, os planos de Vanderson Luis da Silva Chaves de ser um craque de futebol do Inter

Em uma cadeira de rodas, Vanderson não guarda mágoas e tenta praticar esportes paraolímpicos | Foto: VINÍCIUS RORATTO

Em uma cadeira de rodas, Vanderson não guarda mágoas e tenta praticar esportes paraolímpicos | Foto: VINÍCIUS RORATTO

Em uma cadeira de rodas, Vanderson não guarda mágoas e tenta praticar esportes paraolímpicos
Crédito: VINÍCIUS RORATTO

Com apenas 13 anos, Vanderson Luis da Silva Chaves tinha três objetivos de vida bem definidos: ficar longe do crime, ser jogador de futebol e assegurar um futuro melhor para a mãe, a auxiliar de limpeza Helena. Os sonhos do garoto, porém, foram parcialmente interrompidos ao entardecer de 24 de maio de 2006. Ele acabara de chegar em casa, no bairro Bom Jesus, zona Leste da Capital, voltando do curso de Informática e com uma novidade para contar.

Vanderson se preparava para informar aos familiares que conseguira a oportunidade de fazer um teste para ingresso nas categorias de base do Sport Club Internacional, seu time, quando uma bala perdida o condenou a passar o resto da vida em uma cadeira de rodas. Ele ficou entre a vida e a morte por dois dias, na UTI do Hospital de Pronto Socorro (HPS), e somente 48 horas após ser baleado recobrou os sentidos. "Quando acordei, minha mãe me disse que eu não iria mais caminhar", recorda o jovem, de 16 anos, aluno do 2 ano do Ensino Médio da Escola Estadual Monsenhor Leopoldo Hoff.

A escola está localizada a cerca de 15 quadras da casa de Vanderson e não possui nenhum tipo de adaptação para cadeirantes. Ele queria trilhar um caminho diferente de outros jovens da favela onde reside e que são obrigados a conviver diariamente com a violência e, em alguns casos, são seduzidos pelo crime. "Tinha vizinhos traficantes, mas não era esse o caminho que desejava seguir", revela Vanderson.

Mesmo perseguindo a carreira de jogador de futebol, ele já era tenista e integrava um projeto social da PUCRS. No entanto, quando retornou às quadras, meses depois, percebeu que era preciso buscar uma outra alternativa. "Eu era o único cadeirante e não me sentia bem", afirma. Como morava na favela, quando relatava ter sido vítima de uma bala perdida, algumas vezes enfrentava olhares de desconfiança. "Por certo, pensavam que eu fui baleado em uma boca de fumo", lamenta Anderson.

No ano passado, ele passou a praticar esgrima na Academia de Polícia Militar. Como não tem condições financeiras para a compra dos equipamentos necessários à prática do esporte, treina com o material emprestado pelo atleta paraolímpico Jovane Guissoni. É em Guissoni e no também para-atleta Maurício Stempniak que Vanderson busca a inspiração necessária para um futuro campeão. "Já que não pude ser jogador de futebol, agora tenho a meta de, em breve, integrar a Seleção Brasileira Paraolímpica de Esgrima", diz.

E quando isso acontecer, Vanderson terá múltiplos motivos para comemorar. Afinal, ele percorre as ruas da cidade em uma cadeira de rodas obsoleta e vive em uma casa de dois pequenos cômodos, sem qualquer tipo de adaptação para um cadeirante, e estuda em uma escola que não tem sequer uma rampa. Vítima da violência urbana, Vanderson Luiz não guarda rancor e tampouco reclama da vida.

Com o olhar distante, ele afirma que não tem raiva de quem o paralisou. "Tenho que seguir em frente, sonhando sempre. Preciso de uma cadeira motorizada e de um lugar melhor para viver", comenta. Vanderson Luiz garante nunca ter recebido apoio do Estado ou da prefeitura para atenuar sua luta diária.