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Jornal > Juremir Machado da Silva

ANO 116 Nº 195 - PORTO ALEGRE, QUARTA-FEIRA, 13 DE ABRIL DE 2011

''Sova'' de palmas

 | Foto: ARTE PEDRO LOBO SCALETSKY

| Foto: ARTE PEDRO LOBO SCALETSKY


Crédito: ARTE PEDRO LOBO SCALETSKY

Outra dia, por iniciativa do meu amigo Antonio Carlos Valente, titular do microfone da rodoviária, que se consagrou no radialismo santanense como apresentador de "A Hora do Rei", dedicado a Roberto Carlos, conversei no ar com o goleiro Orlando Pataca. Foi num programa de rádio de Livramento comandado por Valdir Penedo. Pataca foi grande personagem santanense quando eu era criança. Um mito. Uma lenda viva. Eram inúmeras as histórias em que ele figurava como protagonista. Fui vê-lo muitas vezes, com seus mais de 100 quilos, defender o Fluminense local. Pataca era o nosso ídolo. Nos campinhos da cidade, todo gordinho era mandado para o gol e chamado de Pataca. Ele tinha o seu preparador físico, o Curitibano, um negro esguio e tão lendário quanto ele. Conta-se que Curitibano foi correr com um cavalo pela cidade. O bicho cansou e morreu. Só Palomas tinha tantos personagens importantes.

Pataca dividia-se entre o gol e a luta livre. Fugia da concentração sábado à noite para lutar no ginásio Guanabara. Imagino que o imaginário popular exagerasse um pouco essa relação. A vida de Pataca ficou marcada por um acontecimento que não me sai da memória, pois ouvi, pela Rádio Guaíba, esse jogo monumental em que ele foi escolhido o melhor jogador em campo do Ferrocarril, de Uruguaiana. Fez defesas inacreditáveis. Parecia voar. Defendeu, ao menos, 86 bolas indefensáveis. Deixou passar apenas 14. Era contra o Internacional de Porto Alegre. Resultado: 14 a 0 para o Inter. Perguntei-lhe como via, passados tantos anos, aquele jogaço. Modesto, desculpou-se com algo como "não dá para pegar tudo num jogo". De fato. Pataca tornou-se um deus para nós naquele dia. Tomou 14. Quem não tomaria? O Inter era uma máquina.

Em Livramento, acho que era o Clodomiro Gonçalves, não tenho certeza, tinha um narrador de futebol com este bordão delicioso: "O balão de couro subiu, subiu, subiu, enquanto ele desce eu fumo um cigarro". Que tempos! Hoje, no auge do politicamente correto, não cairia bem. Será que imaginei isso? Será que estou "variando"? Em Palomas, aí tenho certeza, o João da Égua narrava os jogos do campo do Jaci numa lata de massa de tomate. O seu bordão era: "O juiz trila o apito, o mogango está rolando, começa o espetáculo". Na hora do gol, gritava: "Meteu o mogango lá onde o arado não alcança". João da Égua era louco por mogango com leite. Só detestava os fiapos amarelos, que lhe escorriam pelos fartos bigodes negros.

Em Palomas, não se falava salva de palmas, mas "sova" de palmas. Nos bailes, quando o gaiteiro, quase sempre o alemão Schultz, conhecido como "Seu Chutes da gaita", ia além dos seus limites, bastante reduzidos, alguém gritava entusiasmado: "Uma sova de palmas para o bagual da sanfona". Lembrei de tudo isso ouvindo o Pataca. No mais fundo do meu imaginário de infância, só cabem dois goleiros: Manga e Pataca. Dois monstros. Peço, mesmo aos que não o conhecem, uma "sova" de palmas para ele. Uma "sova" de palmas para o lendário Pataca. Caberia no "onde anda" da coluna magistral do Luis Carlos Reche.

Juremir Machado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br





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