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Jornal > Juremir Machado da Silva

ANO 116 Nº 209 - PORTO ALEGRE, QUARTA-FEIRA, 27 DE ABRIL DE 2011

Campo de concentração em Itaqui

 | Foto: ARTE PEDRO LOBO SCALETSKY

| Foto: ARTE PEDRO LOBO SCALETSKY


Crédito: ARTE PEDRO LOBO SCALETSKY

Jornalistas não costumam resenhar livros de dois anos antes. Nada como andar na contramão. Recebi só agora "Nuvens de Chumbo sobre o Cambaí - a Queda de João Goulart, um Campo de Prisioneiros em Itaqui", de Iberê Athaide Teixeira. É uma história incrível e documentada com papéis do inquérito policial militar e do processo. Palavras do autor: "No hangar do aeroclube de Itaqui, devidamente cercados por arame-farpa eletrificado e sob a mira de fuzis com baionetas caladas, ao lado do prefeito e do seu vice, dos vereadores e seus suplentes, também os líderes camponeses e estudantes, sindicalistas, médicos, advogados, cerca de 40 pessoas, que integravam a fina flor da liderança local, mesmo sem mandato eletivo, se viram garroteados em sua liberdade física e moral por cerca de longos e intermináveis 111 dias, no período de 31 de março a 06 de agosto de 1964". Dá para acreditar?

Não foi em Palomas, mas em Itaqui. O tenente-coronel Caetano Pinto Rocha, comandante da Guarnição do 1 Regimento de Cavalaria, mandou prender todo mundo sob acusação de "crimes contra o Estado e seu patrimônio, à ordem política e social, bem como atos de guerra revolucionária". Entre os prisioneiros estavam o então prefeito da cidade, Gil Cunegatto Marques, que tomara posse três meses antes, seu vice, Otoni Monteiro Píffero, vereadores e outros terríveis "subversivos". Os sargentos Pacífico Berne e Catelan foram encarregados da vigilância do campo eletrificado. No lugar do prefeito, foi instalado o fazendeiro Júlio Santiago. A nova Câmara de Vereadores pagou o mico de remeter ofício ao comandante da guarnição e de propor a cassação dos mandatos dos prisioneiros.

Em ofício de 17 de abril de 1964, endereçado ao presidente do IPM, a Câmara de Vereadores rotulou os prisioneiros do campo de "verdadeiros filhos do diabo", determinados a levar a cabo um "processo de comunização do país", um "plano diabólico" do qual não podia estar fora o município de Itaqui. Não parece coisa de Gabriel García Márquez? Iberê Teixeira descreve a vida dos prisioneiros: "Segundo lembrança de um dos remanescentes da época do ''campo'', as necessidades fisiológicas mais primárias, como defecar e urinar, eram feitas em uma latrina de madeira, sem cobertura e com apenas três paredes, como aquelas ''casinhas'' plantadas no fundo dos quintais da periferia: um buraco sem assento, feito rés do chão, e o preso ali, acocorado e de calças arriadas, com as vergonhas à mostra, tendo na porta escancarada um soldado empunhando um calibroso fuzil de baioneta".

Não é realismo-fantástico? O banho, com uma lata de querosene, exigia uma pessoa para segurar o chuveiro improvisado sobre a cabeça do banhista e outra para enchê-lo. Houve tentativa de suicídio e desespero. Alguns permaneceram mais de 40 dias sem acusação formal. Que "crime" haviam cometido? Terem apoiado um plano de reforma agrária envolvendo uma grande fazenda chamada de Mata-Fome. Pertencerem ao PTB de Leonel Brizola. Terem lançado um manifesto "ao povo itaquiense" propondo uma "frente de mobilização popular" em apoio às "reforma de base" do presidente João Goulart. Uma novela surrealista.

JUREMIR MACHADO DA SILVA | juremir@correiodopovo.com.br





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