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ANO 116 Nº 309 - PORTO ALEGRE, SEXTA-FEIRA, 5 DE AGOSTO DE 2011

Orson Welles em Bom Jesus

 | Foto: ARTE PEDRO LOBO SCALETSKY

| Foto: ARTE PEDRO LOBO SCALETSKY


Crédito: ARTE PEDRO LOBO SCALETSKY

Vou falar de livros. Antes que desapareçam. Há muitos bons escritores gaúchos sem ou com pouca mídia. Paulo Ribeiro é um deles. Professor na Universidade de Caxias, jornalista, colunista semanal, Paulo está na literatura há um bom tempo. Não gostei dos seus primeiros livros, especialmente de "Glaucha" (1989) e "Vitrola dos Ausentes" (1993), experimentalistas em excesso, desses que ficam quase ilegíveis ou só podem ser compreendidos por iniciados em hermetismo. Mas, devo reconhecer, que criatividade e ousadia formal nunca lhe faltaram. Paulo está de novo nas paradas (pena que ainda não nas de ônibus) com "Chegaram os Americanos" (Editora Modelo de Nuvem). É uma espécie de romance-reportagem que conta a visita de Greg Toland, câmera do grande Orson Welles, o cineasta magistral de "Cidadão Kane", à gaúcha Bom Jesus.

O Brasil vivia o Estado Novo de Getúlio Vargas. O mundo rezava pelo fim da Segunda Guerra Mundial. Os americanos queriam mostrar nossas belezas ao mundo para nos adular e liquidar vestígios de namoro com o fascismo. Orson Welles e sua turma vieram para os trópicos. Toland acabou numa gelada. Quer dizer, na parte fria do projeto. Coube-lhe mostrar o Rio Grande do Sul. Cinegrafista de "No Tempo das Diligências", "A Longa Viagem de Volta" e, claro, "Cidadão Kane", descobriu Porto Alegre. Terá ido mesmo a Bom Jesus? Paulo Ribeiro o mostra por lá em companhia de Justino Martins, editor da poderosa Revista do Globo. Ficção? Realidade? Ironia? Licença poética? Pouco importa. É verossímil. E envolvente. Ribeiro encontrou o tom. Continua experimentando. Mas se tornou legível. Os diálogos revelam um ouvido apurado para o falar espontâneo e coloquial das pessoas no cotidiano.

Se Orson Welles não foi a Bom Jesus, mandou Toland no seu lugar. Se Toland não esteve lá por conta própria ou arrastado pelo elegante Justino, foi levado por Paulo Ribeiro. O livro é uma demonstração de amor ao cinema. Na época, sem televisão, a telona concentrava os sonhos e as fantasias de todo mundo. Welles aprontou o que deu no Rio de Janeiro. Gastou muito, divertiu-se ainda mais, encheu a paciência dos seus patrões nos Estados Unidos e foi-se embora deixando um rastro de estragos e emoções. E imagens para o documentário "É Tudo Verdade". Não vou ficar contando toda a história. Paulo Ribeiro fez isso muito bem. Quero é dizer o seguinte: leiam. Não se assustem com o estilo diferente. Não resistam. Soltem o corpo na onda. É como se deixar levar por um tsunami. Bem, calma, um tsunami simulado. Ninguém morre no final.

Paulo Ribeiro está maduro. É dura a vida de escritor. Precisa construir um estilo, encontrar boas histórias para contar, envolver os leitores, fazer diferença, inovar e ser entendido. Ribeiro já agradou críticos apaixonados por experiências formais. Agora, está procurando alcançar leitores exigentes, mas normais, gente que lê por paixão ou distração. Todos nós. Aí é muito mais difícil do que ser chato hermético e cultuado. Chegaram os americanos. E o Paulo. Espero que para ficar.

Juremir Machado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br





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