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ANO 116 Nº 326 - PORTO ALEGRE, SEGUNDA-FEIRA, 22 DE AGOSTO DE 2011

Vice em missão diplomática

Propositalmente ou por simples coincidência, João Goulart cumpria agenda na China comunista

Jango desconfiava do convite para liderar a missão à China | Foto: CP MEMÓRIA

Jango desconfiava do convite para liderar a missão à China | Foto: CP MEMÓRIA

Jango desconfiava do convite para liderar a missão à China
Crédito: CP MEMÓRIA

Não era para João Goulart ter saído do Brasil em missão diplomática à China naquele 1961. O primeiro nome a ser cogitado por Jânio Quadros era o de José Ermírio de Moraes, que não aceitou a missão que tinha um caráter muito mais comercial. Coube então ao ministro das Relações Exteriores, Afonso Arinos, fazer o convite oficial ao vice-presidente para que liderasse a missão.

Meses antes, o clima entre Jango e Jânio não era dos melhores. O nome de João Goulart apareceu numa das comissões instaladas por Jânio para uma devassa na administração pública. No caso, o Serviço de Alimentação da Previdência (Saps) e no Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Bancários (IAPB) estariam envolvidos no uso de dinheiro público para a campanha eleitoral de Jango, além de outros favorecimentos. O vice exigiu explicações da inclusão de seu nome sem provas ou fatos e denunciou os procedimentos das comissões. A resposta, demorada, veio da própria comissão, confirmando o que ela mesmo apurara.

Jânio encontrava forte resistência no Congresso por conta da superioridade, em número, da base oposicionista com PSD, o PTB de Jango e o PSP. A mesma oposição atacava ferozmente a política econômica de Jânio Quadros. E o PTB se aproximava, cada vez mais, do Partido Comunista Brasileiro. João Goulart aceitou a missão proposta pelo presidente desde que fossem esclarecidos à opinião pública os reais interesses da viagem, como a ampliação das relações comerciais entre os continentes. Jango viajou, no final de julho, acompanhado pelo diplomata Araújo Castro; por sete técnicos especialistas em comércio exterior; por 15 parlamentares como os deputados Franco Montoro e Gabriel Hermes e mais alguns empresários. Aproveitando a "carona", a mulher Maria Thereza, os dois filhos e o irmão João Fontella foram até a Costa Brava, na Espanha, onde eles aguardariam a volta de Jango.

Com escala de três dias em Moscou, João Goulart e a comitiva foram recebidos por Nikita Krushchev, que elogiou a política externa de Jânio e ainda sugeriu que a URSS ajudasse os países subdesenvolvidos. Já em Pequim, Jango, em discurso, disse que a comitiva brasileira viera com o "firme propósito de fortalecer os vínculos comerciais entre os dois países, o que contribuirá para aumentar o entendimento entre ambos os povos". Em Xangai, conforme noticiava o Correio do Povo de 21 de agosto de 1961, Jango adiantava que "não existem e nem nunca existiram quaisquer obstáculos, discordâncias ou conflitos entre nossos dois países". Na prática, a visita brasileira resultou na assinatura de um acordo comercial no valor de 56 milhões de dólares entre o Banco do Brasil e o Banco da China. O vice-presidente aproveitou para declarar, já em Hong Kong, que a "China Vermelha deveria ser admitida como membro das Nações Unidas". A declaração, disse Jango, era dada não na condição de vice-presidente, mas como líder do PTB.