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ANO 116 Nº 37 - PORTO ALEGRE, SÁBADO, 6 DE NOVEMBRO DE 2010

Grandes minicontos

 | Foto: ARTE PEDRO LOBO

| Foto: ARTE PEDRO LOBO


Crédito: ARTE PEDRO LOBO



Nem sempre os bons livros estão nas grandes e conhecidas editoras. Fui patrono da Feira do Livro de Cachoeirinha. Conheci lá dois escritores, Ana Mello e Marcelo Spalding. Eles me deram seus livros, respectivamente "Minicontando" e "Minicontos e Muito Menos", ambos lançados pela Casa Verde. Guardei-os no bolso do casaco. No primeiro instante de tédio, no lotação, saquei o volume da Ana. Uma delícia. O trajeto entre o Centro e a PUCRS voou. São textos divertidos, ternos, suaves, contundentes, tocantes, de tudo um pouco. Já andei contando algumas dessas pequenas histórias até em programa de televisão. Uma delas, "sétima série, 13 anos", diz simplesmente assim: "A tarde estava ensolarada e quente quando Clarice saiu do colégio para buscar o resultado. Positivo. Um misto de felicidade e medo dominou seu corpo. Ruborizou: - Se for menina, poderá brincar com minhas bonecas". Constrangedoramente eficaz.

Cada miniconto da Ana Mello é uma alfinetada, uma "boutade", uma provocação: "Os noticiários de todo o mundo comentaram a tentativa de salvamento. Um cão removeu outro cachorro que agonizava na rodovia, arriscando a própria vida. Para os seres humanos, isso pareceu surpreendente". Perfeito. Uma estocada firme e certeira. Economia de palavras, de gestos e de mensagens. Mais com menos. Alguns dos minicontos da Ana são hilariantes como este "no inferno IV": "E o diabão ali, com aquela cara de tarado. Ela, assustada: - A gente pode resolver, mas beijo na boca não". Como diria o outro, o inferno é bem perto daqui. Curiosidade: Ana Mello é licenciada em Ciências e Matemática e atua como técnica química da Fundação de Ciência e Tecnologia (Cientec).

Marcelo Spalding não fica atrás em eficácia narrativa com poucas palavras: "Eram sete irmãs. Marta casou virgem. Marcela fugiu de casa. Mariana não teve filhos. Miriam quase foi freira. Michele mudou de sexo. Melissa perdeu dinheiro. De Maria não se sabe: finalmente o chá funcionou". Marcelo é especialista em Literatura Digital, atua em oficinas literárias, milita na Fundação Gaúcha de Escritores. Está conectado, como mostra seu miniconto "Online": "Não sei + o q fazer, Joana, meu filho ñ sai da frente do computador, vive nesses jogos de lutinha, de tiro, de... só um pokinho. Vê se eu posso, veio todo arrumado pedindo pra ir na casa do Beto. Imagina, pegar ônibus até a zona Norte a essa hora! Claro que ñ, né, Joana... Mt perigoso!". Tempos de linguagem comprimida. Tudo precisa ir rápido, até a literatura. Depois da metade, o livro é de Laís Chaffe, verso e reverso, mais minicontos com boa verve, nada se perde.

Ana Mello parece querer contar a vidinha nossa de todo dia e pronto. O resultado é uma crônica sincera, singela e verossímil do cotidiano. Marcelo Spalding gosta mais de literatura. Pratica a chamada intertextualidade, esse jogo de referências a autores e obras espalhadas por aí: "Rocinha, quarenta graus - o inverno são os outros". Tem seu charme intelectual: "Quando nasci, nenhum anjo torto me disse nada. Mas lembro da voz do pai perguntando como iam sustentar mais uma boca. Fui ser gauche na vida". Não digam que não dou dicas na Feira do Livro.

Juremir Machado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br





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