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ANO 117 Nº 207 - PORTO ALEGRE, TERÇA-FEIRA, 24 DE ABRIL DE 2012

Travestis ganham ala no Central

Michels (E), Treieslebene Marcelly Malta prestigiam inauguração de ala
Crédito: TARSILA PEREIRA

A criação de uma ala exclusiva para travestis e homossexuais, no Presídio Central de Porto Alegre, vem atender a uma reivindicação dos gays que cumprem pena na casa prisional. O Rio Grande do Sul é o segundo Estado do país a ter espaço exclusivo para homossexuais - o primeiro foi Minas Gerais. Nalanda, um dos detentos da ala, disse que com o novo espaço, situado na 3 galeria do pavilhão H, os homossexuais sentem-se mais tranquilos e seguros. Antes, independentemente de orientação sexual, eles estavam divididos em outros pavilhões, em especial o G, onde a homofobia gerava, inclusive, casos de agressão física. "Não podíamos andar pelo corredor no dia de visitas, pois os presos não queriam que seus familiares soubessem da existência de travestis na ala", lembrou Nalanda, que tem mais um ano a cumprir de pena, por roubo. "No pátio, tínhamos de ficar atrás das colunas ou deitadas no chão, para que as visitas não nos vissem", recordou. A inauguração ocorreu ontem e contou com a presença do secretário da Segurança Pública, Airton Michels, do superintendente da Susepe, Gelson Treiesleben, e da representante da Associação dos Travestis do Rio Grande do Sul, Marcelly Malta.

Segundo Nalanda, o tratamento dos outros detentos no pavilhão G era semelhante ao dispensado a castas inferiores, na Índia, com os "intocáveis", por exemplo. "Os outros presos não pegavam uma caneca que tínhamos tocado. Nem comiam, se soubessem que tínhamos tocado na panela ou noutro recipiente", recordou.

No novo local, salientou Nalanda, a situação mudou. Ela afirmou que os colegas de cárcere podem andar pelos corredores, sentar e ficar conversando, sem que ninguém os force a se esconder nos dias de visita. Na ala, estão 36 presos (a capacidade é para 43), a maioria casais. Nesse grupo, muitos se dedicam ao artesanato ou a lavar roupas para outros detentos do Presídio Central. "No pátio, que agora podemos ir sem medo, jogamos futebol", disse Nalanda. "Aqui no pavilhão H melhorou muito, não somos mais oprimidos apenas pela nossa opção sexual", completou.

O mesmo pensamento tem Thaís, um travesti de 22 anos preso sob acusação de tráfico de drogas e que espera para breve a sua libertação. O detento também lembra do período em que ficavam escondidos para que os outros não os vissem no estabelecimento prisional. Se não fizessem isso, poderiam sofrer agressões físicas. "Era muito triste ter de me esconder, apenas porque não me aceitavam como ser humano", lamentou. "Agora, ando pelo pátio livremente."

Para Marcelly Malta, o espaço inaugurado ontem é lugar de liberdade. "Elas (travestis) estão aqui para pagar pelos seus crimes", disse. "Mas também para cumprir a pena com dignidade e sem torturas", salientou.