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Jornal > Juremir Machado da Silva

ANO 117 Nº 218 - PORTO ALEGRE, SÁBADO, 5 DE MAIO DE 2012

Caipira universal

 | Foto: ARTE JOÃO LUIS XAVIER

| Foto: ARTE JOÃO LUIS XAVIER


Crédito: ARTE JOÃO LUIS XAVIER

Morreu Tinoco, aos 91 anos. Esse era bom. Era dez. Mil. Tonico e Tinoco representaram um Brasil rural. Na música que faziam havia autenticidade, poesia popular, simplicidade, natureza, sabedoria existencial. Tinoco era o que Michel Teló nunca será: um mestre, um artista espontâneo, um criador. Mais do que sertanejo, caipira. Tem razão Rogério Mendelski: o caipira está para o sertanejo assim como o samba de raiz está para o pagode. É a diferença da arte para o produto descartável da indústria cultural. Minha tia Sueli, lá no fundo de um campo, na campanha profunda e solitária, um lugar chamado Florentina, de frente para o cerro de Palomas, ouvia Tonico e Tinoco, no programa do Zé Bétio, e chorava. Sim. Por que chorava? Porque eles falavam do que ela vivia.

Tinoco morreu pobre. Andava na maior pindaíba. Precisou de ajuda de artistas famosos e de amigos. Vendeu rifa no final da vida e buscou desesperadamente dinheiro para tratar-se de um câncer. Esses artistas quase ingênuos, marcas de um tempo que tinha os seus horrores, mas que ainda não estava dominado pelo horror simbólico supremo, a baixaria espetacular, apagaram-se com uma mudança de imaginário. Tonico e Tinoco foram os Gonçalves Dias populares do século XX, cantando a natureza. Nada de apelação sexual, de coreografias sensuais ou de sacadinhas de duplo sentido. Eram cantores da época pré-bunda, peito e sacanagem nas composições. Esse sertanejo de artistas que não foram além do primário dá aulas de cultura e sensibilidade ao sertanejo universitário.

Um aluno, outro dia, veio me puxar a orelha: "Professor, o senhor não gosta de nada", disse. Fiquei pensativo. Eu, um humorista, sendo rotulado de rabugento. Reagi. "Sim, gosto de muita coisa e de muitos." Por exemplo, de Tonico e Tinoco. Assim como sempre adorei Teixeirinha, Gildo de Freitas e, principalmente, José Mendes. Admiro os artistas populares que exprimem a experiência cotidiana mais trivial com a profundidade dos simples e sinceros. Isso pode aparecer na sofisticada arte de um Villa-Lobos, de um Tom Jobim, de um Chico Buarque, ou na caipirice sentida de Tonico e Tinoco. Se existe um sertanejo universitário, o de Tonico e Tinoco era um sertanejo universal, o universalismo da aldeia.

Nostalgia? Um pouco. É bobagem, na maior parte do tempo, pensar que antigamente era melhor. Esse melhor sem violência nem crise de valores. Quem pensa assim esquece das guerras, dos genocídios, do voto a cabresto, das ditaduras, do autoritarismo dominante nas relações familiares, trabalhistas e escolares. Nunca houve paraíso. Mas havia um sentimento do mundo, uma atmosfera, Tonico e Tinoco, sertões, grotões, veredas, berrantes, ranchos, luares, cadeiras na calçada. Hoje também? Não seja chato, caro leitor, pare de me contrariar! Estou fazendo uma homenagem. Não me venha com relativismo! Serei categórico: quem amou Tonico e Tinoco jamais se renderá a Michel Teló. Nem mesmo à bela Paula Fernandes.

Juremir Machado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br



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