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Jornal > Juremir Machado da Silva

ANO 117 Nº 291 - PORTO ALEGRE, TERÇA-FEIRA, 17 DE JULHO DE 2012

WikiLeaks brasileiro

 | Foto: JOÃO LUIS XAVIER

| Foto: JOÃO LUIS XAVIER


Crédito: JOÃO LUIS XAVIER

Nada como dar uma boa chafurdada no passado. Em 1997, o repórter Geneton Moraes Neto, sem estuprar quem quer que seja, deu uma de Julian Assange. Publicou um livro, "Dossiê Brasil", com declarações confidenciais de diplomatas americanos e ingleses sobre nossa amada Pátria e sobre algumas das suas figuras ilustres. Sobrou espaço também para as revelações de um diplomata russo aposentado. Geneton foi aos arquivos da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos. O resultado é categórico: diplomatas são dissimulados, maldosos, arrogantes, preconceituosos e perigosos. Publicamente, fazem salamaleques. Em relatórios feitos para permanecerem secretos durante décadas, soltam o verbo. Dizem verdades e mentiras com a mesma desenvoltura. Melhor seria nunca convidá-los para jantar. A fofoca oficial, terminada a festa, é certa.

São coisas que podem ser vistas também no livro de Marcos de Sá Correa, "1964 Visto e Comentado pela Casa Branca" (L&PM). Episódios de um tempo em que o glorioso Jornal do Brasil, que se via como baluarte da democracia e da liberdade de expressão, referindo-se à cassação do presidente JK, permitia-se passar a mão na cabeça dura dos militares. A revolução não devia "ter medo" de cortar pescoços. Enquanto isso, franceses viam no regime um só defeito: "A ligação íntima com os Estados Unidos". Graças a um relatório britânico fica-se sabendo que "a estrela política de Jânio Quadros parece estar afundando numa poça de uísque". E que se pedia nos bares "forças ocultas com soda". Sem dúvida, muito instrutivo e histórico. Uau!

O olhar diplomático não perde viagem. Sobre a primeira ida de Carlos Lacerda à capital inglesa: "O Sr. Lacerda declarou que gostou de Londres. Deu a impressão, ao final da visita, de que tentou comprar a cidade aos poucos, porque levou uma montanha de malas, com quadros, gravuras, roupas, faqueiro de prata, porcelana, livros, cachimbos, um fonógrafo antigo, bule de chá, máquinas de escrever, comida enlatada etc. Três porteiros do Hyde Park Hotel tiveram de passar 20 minutos carregando as malas". O chefe do pessoal, revelando certamente o seu humor britânico, teria resumido assim a situação: "Ele se esqueceu de levar a pia da cozinha". Os hábitos dos lacerdistas continuam os mesmos. As compras agora são feitas em Miami. A fúria de gafanhoto ainda é a mesma.

Diplomatas, assim como jornalistas, adoram uma manchete sensacionalista. O petebista Bocaiúva Cunha, avaliando o papel de San Tiago Dantas antes do golpe, teria dito: "O que ele e outros da esquerda deveriam ter feito era usar o dinheiro para comprar tudo o que estivesse à vista: o Exército, os políticos, até a Igreja. É sentimentalismo pensar em termos britânicos numa economia capitalista tão primitiva como é a do Brasil". Dantas era apreciado pelos ingleses. Em 16 de setembro de 1964, dez dias depois da morte do político brasileiro, a Embaixada Britânica registrou: "Deixa a esquerda sem o seu principal - e virtualmente, único intelectual". Somos tratados como burros, venais e ocos. Conclusões cevadas a chope, caipirinha e boa feijoada.

Juremir Machado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br



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