Correio do Povo - O portal de notícias dos gaúchos | Versão Impressa

Porto Alegre

15ºC

Ver a previsão completa

Porto Alegre, sexta-feira, 17 de Agosto de 2018

Jornal > Juremir Machado da Silva

ANO 117 Nº 366 - PORTO ALEGRE, DOMINGO, 30 DE SETEMBRO DE 2012

Minha sina

 | Foto: ARTE JOÃO LUIS XAVIER

| Foto: ARTE JOÃO LUIS XAVIER


Crédito: ARTE JOÃO LUIS XAVIER

Quando eu nasci, não veio anjo algum me dizer para ser "gauche" na vida. Na época, os anjos não viviam à sombra nem falavam francês. Também não liam Carlos Drummond de Andrade. Diante dessa indiferença, tive de sair rolando por aí. Suspeito que os anjos não se interessavam por Palomas. Essa falta de orientação deve ter marcado a minha vida. Liderei a minha primeira insubordinação com 6 anos de idade, em 1968, contra ter de cantar o Hino Nacional em posição de sentido. Perseguidos, três coleguinhas e eu buscamos refúgio em cima de uma bergamoteira, de onde saímos direto para a tortura, atrás da porta, no grão de milho. Que trauma!

Continuo assim. Por falta de anjo, ando por aí criticando mitos, polemizando, comprando brigas. Soube que seria assim quando, num segundo ato, entendi que jamais aprenderia a marchar. O professor grudava em mim, no 7 de Setembro, e gritava: "Está com o passo errado". O instrutor da parada escolar tentou me salvar de ser torto, mas eu já estava condenado. Não acredito em prêmios e distinções. Espontâneos, não recuso. Digo o que penso sempre que possível. Pago por isso. Recebo mensagens de consolo. Fico rindo. Aqueles que me consolam, acreditam piamente no meu sofrimento. Aqueles que me criticam, acreditam piamente que sou invejoso. Não quero decepcionar: sou o maior invejoso que já conheci. Sofro como Paulo Coelho. Afinal, ele e eu somos os maiores intelectuais em atividade no Brasil. E os mais incompreendidos. Paulo Coelho deve ter anjos da guarda.

Eu não tenho. Nem aceitaria proteção. Qual é o meu problema? A incapacidade de aceitar a eterna supremacia do passado sobre o presente. Não tenho dificuldade em achar que Maradona foi melhor que Pelé. Menos ainda de achar que Messi é melhor que os dois. Não encontro razões objetivas para medir. Também não tenho dificuldades para achar que existam hoje escritores melhores que Machado de Assis ou Balzac. Borges foi melhor que Machado de Assis. Gabriel García Márquez é tão bom quanto Balzac. Essa adoração do passado é um efeito, uma ilusão de ótica, uma distorção provocada pelo fator "clássico", um mecanismo de realimentação, feito uma palavra que, por ser mais procurada num motor de busca, acaba por se tornar ainda mais procurada, aparecendo sempre em primeiro lugar.

Minha regra é torta: pode-se saber o que é ruim. Não se pode definir categoricamente, entre duas coisas muito boas, o que é melhor. Se penso assim é culpa do anjo, que não estava lá. Essa falta afetou o meu olhar. Examino os jornais de São Paulo e do Rio de Janeiro: que provincianismo patético! Que pobreza intelectual! Que falta de autonomia estética! Dizem sempre a mesma coisa. Toda semana, uma resenha de Machado de Assis. Chego a pensar que ele ressuscitou. Ficou imaginando o que teria acontecido comigo se um anjo tivesse aparecido no meu nascimento para me mandar ser torto na vida. Como isso não aconteceu, fiquei idiota, com cérebro de ervilha. Nada tem o meu respeito absoluto. Culpa do tal anjo.

Juremir Machado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br



JUREMIR MACHADO DA SILVA > correio@correiodopovo.com.br