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ANO 117 Nº 366 - PORTO ALEGRE, DOMINGO, 30 DE SETEMBRO DE 2012

Campereada

 | Foto: arte de joão medeiros sobre obra de jorge alvaro

| Foto: arte de joão medeiros sobre obra de jorge alvaro


Crédito: arte de joão medeiros sobre obra de jorge alvaro

As visões de Teodora

Existem mulheres bonitas, simpáticas, delicadas, faceiras, alegres e candongueiras. Percebem-se as interessantes e até aquelas que nem são bonitas, nem interessantes. Tem prendas negras, mulatas, ruivas e louras. No entanto, nascem mulheres que são, vamos dizer assim, lindas. Esse, meus amigos, era o caso de Teodora, um florão de tropa, uma ilusão, um delírio, um devaneio, enfim, um sonho de mulher. Ou não seria mulher, na verdade uma ninfa, uma dessas deusas que vêm a este mundo para mostrar a todos o que é a verdadeira beleza celestial?

Por ser especial, diferente de tudo o que existia, Teodora vivia em seu mutismo. Não tinha amigas e os rapazes fugiam dela, pois não suportavam seu profundo olhar que penetrava na alma e provocava calafrios. Passava horas debruçada sobre a grande janela lateral do casarão ancestral da estância, imóvel, com seus longos cabelos soltos sobre o rosto imaculado. A fisionomia apenas se alterava quando via o pai, dom Antonio, ou a mãe, dona Cidinha. Fora isso, seguia impávida, sem se importar com os chamados dos irmãos, das primas e das irmãs. Era uma esfinge. Eu a vi só uma vez e confesso que tive um tremor na espinha.

Teodora carregava um segredo, nunca revelado. Depois, contaram que passou a falar apenas para a mãe. Quando se deitava nas cocheiras ou até mesmo no piquete atrás das casas, junto dos cavalos, tinha visões do futuro, antevia o que ia acontecer, fossem tragédias ou felicidades. Certa vez, dona Cidinha informou ao marido que o solo ia rachar por completo, nenhuma gota de água cairia durante cinco meses. Que era bom venderem os animais. Assim foi feito. Dom Antonio foi o único que se salvou daquela seca. Dois anos depois, nos devaneios noturnos, Teodora enxergou a água tapando toda a várzea, casas sendo arrastadas. De novo, a família vendeu a criação e ficou o período da enchente na cidade.

Até a morte do pai a visionária enxergou numa madrugada de fevereiro. A mãe só acreditou quando o estancieiro amanheceu morto, dias depois, derrubado pelo infarto. Anos depois, quando Gabriel, o comprador de gado, apeou da caminhoneta, Teodora, falou baixinho para Oliveira, seu gato brasino. "Este homem morrerá junto comigo". Foi seu único e derradeiro amor. Após o jantar, no silêncio da noite, Teodora entrou no quarto de Gabriel, amaram-se por horas, até que, com o revólver do pai, atirou quatro vezes no amante. A última bala reservou para si...

Paulo Mendes | pmendes@correiodopovo.com.br