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14/12/2013 15:56 - Atualizado em 14/12/2013 16:07

Arte com um toque rural

Materiais como palha, escama e madeira viram artesanato em mãos habilidosas

Artesanato com um toque rural
Crédito: Émerson Foguinho / Divulgação / CP

Eles estão disponíveis em abundância nas propriedades rurais e, muitas vezes, viram entulho e fonte de dor de cabeça ao produtor. Materiais como palha, escamas e aparas de madeira são a base de uma atividade que, mais do que complementar a renda das famílias que vivem do campo, significa lazer e interação. Nas comunidades rurais, o artesanato integra as mulheres à lida, faz com que elas se aproximem da produção e dela tirem os insumos para uma nova atividade. Reunidas para a confecção e troca de ensinamentos, debatem o futuro do agronegócio mesmo sem sentir. Mostram aos filhos, que geralmente estão pela volta, que uma nova realidade no campo é possível. O segredo é apenas olhar além. Ver que os galhos que sobraram da poda do parreiral podem virar uma guirlanda e que a palha do milho acumulada ao lado da lavoura, com um pouco de boa vontade e talento, transforma-se em bonecas ou em um presépio campeiro. Os adereços que resultam desse trabalho podem virar decoração natalina, itens para ornamentar a casa e até um presente. 

Palha de milho, fibra de bananeira, escama de peixes e lã tomam forma de brinquedos, cestas, chapéus, porta-cuias, descanso de panela, sacolas, bijuteria e vestuário. Diferentemente da agroindústria, que envolve especialmente homens, o artesanato rural é feito, geralmente, por mulheres que buscam, ainda, complementar a renda. São elas que têm nas mãos a delicadeza para preparação das fibras para tingimento e trançado.

O Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), que, além de desenvolver ações de formação profissional, realiza atividades que contribuem para a integração na sociedade, oferece inúmeras opções de cursos. “Nosso objetivo principal é atender à família na integralidade e viabilizar a promoção social familiar no meio rural”, explica a coordenadora de promoção social do Senar, Sandra Catarina Vieira.

O público que participa dos cursos é formado por mulheres na faixa dos 40 a 50 anos. Com o aprimoramento da técnica e aumento do convívio comunitário, é preciso ganhar produtividade. “Uma descobre o talento da outra”, explica Sandra, referindo-se à comercialização dos itens. Como consequência, o resultado é a participação em feiras onde ofertam seus produtos.

Trabalho que resgata tradições

O cunho cultural dos itens criados com elementos oriundos do campo é uma das características expressas pelo artesanato rural. O trabalho manual imprime, em cada peça, o resgate de tradições dos imigrantes alemães e italianos, principalmente as mulheres, que faziam flores e tapetes para enfeitar a casa, e também dos negros, que utilizavam o cipó e a palha de milho na confecção de cestos e peneiras para a lida diária. “Cada um teve a sua contribuição, virando um artesanato tipicamente brasileiro”, resume a instrutora de Artesanato do Senar, Eva Danila Moura, de Sobradinho, que trabalha na área há mais de 25 anos. Ela, que aprendeu o ofício ainda na infância, destaca que o afazer é ainda uma atividade de lazer e exercício motor. “Pessoas com mais idade que fazem trança têm uma ótima memória”, descreve, lembrando ainda de casos de recuperação de depressão.

Mas a fonte de renda extra ainda é o que mais motiva o interesse pelo trabalho manual. “Quem leva a sério o artesanato, conquista um grande espaço, pois são peças com energia que vêm da terra, feitas com carinho”, afirma Eva. Aluna do Senar, a produtora rural e artesã Renilda Friderichs, do interior do município de Três Passos, faz quadros de palha de milho para comercializar em feiras, além de ministrar cursos em escolas e clubes de mães. “Estou sempre semeando”, brinca ela. Como matéria-prima, ela também utiliza sementes e porongos. No Natal, o número de encomendas sempre aumenta com os pedidos de guirlandas e arranjos de mesa.

No Sebrae, dois projetos que fomentam o artesanato foram criados especialmente para desenvolver a atividade para a Copa de 2014. “Cada vez mais, o artesanato tem ocupado um espaço importante no mercado, pois são produtos diferenciados, de valor cultural agregado”, define a coordenadora estadual de Artesanato do Sebrae, Vânia Fernandes. Com grupos formados de acordo com a atividade desempenhada em determinadas regiões turísticas — palha de milho, lã de ovelha, couro e pedras —, a entidade vem desenvolvendo coleções. “Quem viajam, sempre quer levar algo daquele lugar, e cada produto tem a sua história. Queremos trabalhar com as tipologias que representam o Rio Grande do Sul”, acrescenta. Os itens produzidos com a identidade do Estado e do país, com matérias-primas tradicionais, serão comercializados durante os 30 dias de competição.

Estimativa do Sebrae calcula que, em um evento de sete dias, como feiras e rodadas de negócios, é possível comercializar até R$ 7 mil em artigos de lã, incluindo vestuário, brinquedos e peças decorativas. Para não limitar a venda a estes eventos, os grupos do Sebrae estão se organizando para criar sites e páginas em redes sociais.

Escama de peixe vira opção de renda

Na Ilha da Pintada, um grupo de 12 mulheres pescadoras tem no artesanato a sua principal fonte de renda. Com o trabalho em escama de peixe, que vem da cultura de antigas receitas dos Açorianos, elas conseguem garantir o sustento da família. É o caso de Neiva Marcia, que há quase dez anos preserva a natureza, aproveitando as escamas de peixe que iriam parar no lixo. Com a matéria-prima em mãos, doada por frigoríficos, ela confecciona as mais variadas peças. Mas as bijuterias são o carro-chefe da produção. “Crio peças exclusivas, como um brinco em formato de peixe”, conta. Além de colares e pulseiras, a artesã também confecciona flores ornamentais e outros objetos decorativos.

Nesta época do ano, a produção está bastante focada em decorações para árvore de Natal. O forte da comercialização é aos domingos, na loja de artesãos da Ilha da Pintada, na Colônia de Pescadores. Atualmente, o artesanato representa praticamente 100% da renda mensal de Neiva.

Para a colega Sirlei Bittencourt, que também integra a Associação dos Artesãos e Pescadores da Ilha da Pintada e trabalha com escama de peixe, tricô e crochê, o artesanato responde por 70% da renda mensal.

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Fonte: Bruna Karpinski / Correio do Povo





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