Porto Alegre, sábado, 25 de Outubro de 2014

  • 23/03/2014
  • 16:31
  • Atualização: 17:03

Perdas no refino e distribuição fazem Petrobras ter pior rentabilidade do setor

"Os principais problemas da Petrobras são poucos, mas são muito grandes", alerta analista

  • Comentários
  • AE

A Petrobras é a mais rentável entre as grandes petroleiras do mundo no segmento mais crucial e desafiante do setor: encontrar, desenvolver e produzir petróleo. Seus campos são tão fartos que diluem os custos crescentes que têm assombrado petroleiras mundo afora. Mesmo assim, a estatal tem a pior rentabilidade global entre as maiores petroleiras do planeta, segundo levantamento global do Credit Suisse. O motivo é a perda na área que engloba refino, distribuição e revenda - principalmente por causa do controle do preço de combustíveis feito pelo governo para evitar impacto na inflação.

"Os principais problemas da Petrobras são poucos, mas são muito grandes", alerta Canheu. A defasagem de preços é o maior. A estatal, calculam, teria hoje um resultado anual US$ 10,2 bilhões mais gordo não fosse a defasagem de preços de combustíveis, vendidos com um desconto de cerca de 20% em relação ao mercado internacional.

Há mais de dois anos, a Petrobras vende diesel e gasolina por preços menores do que os pagos quando importa. A perda com o segmento é tamanha, segundo a equipe de analistas do Credit, que "destrói valor da empresa", afirma o analista Vinícius Canheu, autor de estudo de 124 páginas sobre a empresa junto com André Sobreira. 

Hoje, a Petrobras vale o mesmo na bolsa que em 2005, antes da descoberta do pré-sal. É quase três vezes menos do que o pico de valor, R$ 510 bilhões, em 2008. Trata-se de uma empresa de extremos. É a mais rentável em exploração e produção: o retorno sobre o capital bruto investido fica em 18%, contra uma média de 12% do setor e de 11% de gigantes como Exxon e Shell.

Já em refino, distribuição e revenda é a única do mundo com resultado negativo. O retorno é de -9%, contra média de 3% do setor. Exxon lidera com 11%, Shell vem atrás com 9%. No cômputo final, o retorno sobre o capital investido é de 7%, o mais baixo do setor. Chevron lidera com 12%, a média do setor é de 9%.

A Petrobras também é a petroleira que mais investe: cerca de US$ 43/44 bilhões por ano, contra uma média de US$ 19 bilhões do setor. Em segundo e terceiro lugares, vêm Exxon, com US$ 40 bilhões, e Shell, com US$ 38 bilhões nos dados mais recentes referentes a 2012.

Quando o parâmetro é a gastança em relação ao tamanho do bolso, a estatal também tem o pior resultado. "A empresa não é apenas a mais alavancada, mas também a que está se alavancando mais rapidamente", diz Canheu. Enquanto o setor em média economiza 10% do que gera de caixa, segundo o levantamento, a Petrobras desde 2007 investe mais do que faz de caixa.

Para isso, tem tomando dinheiro emprestado, principalmente no exterior, elevando rapidamente o endividamento. Com a alta do dólar, o custo fica ainda mais caro. Os analistas do Credit lembram que há destruição de valor pois ela tem de retorno de investimento menos do que gasta para pegar dinheiro emprestado (custo de capital).

A alavancagem está em 3,5 vezes a dívida líquida sobre geração de caixa (Ebitda), estourando um limite interno estabelecido em 2,5 vezes. Em 2011, por exemplo, estava em 1,66 vezes. O quadro é tão preocupante que o conselho fiscal da Petrobras recomendou ao conselho de administração, presidido pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, que envide esforços para reduzir a alavancagem.

O risco é de rebaixamento da nota pelas agências de rating, o que tornaria ainda mais caro para a Petrobras tomar dinheiro emprestado, disseram os conselheiros em ata de reunião tornada pública na semana passada. A situação fez a empresa usar esse ano premissas em seu plano de negócios que o mercado considera irreais, numa forma de mascarar a realidade.

A principal delas é o câmbio de referência. Analistas têm considerado baixo demais os R$ 2,23 que a Petrobras decidiu este ano adotar nos cálculos. O Banco Central (BC) estima a média do ano em R$ 2,45, um valor bem mais alto que elevaria a dívida da empresa. "Tinha que mandar o (diretor Financeiro da Petrobras Almir) Barbassa conversar com o (presidente do BC Alexandre) Tombini, esse câmbio de R$ 2,23 é irreal", diz o analista Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).

Canheu faz um exercício. Se a Petrobras aplicasse o câmbio do BC em suas contas, a relação dívida líquida/Ebitda já teria passado de 4 vezes. A agência Moody's alertou que um dos motivos que a poderia fazer rebaixar a nota da Petrobras seria a alavancagem financeira aumentar e ser sustentada com indicador acima de 4 vezes.

"Os ratings poderiam ser rebaixados como resultado de progresso limitado no ajuste e obtenção de flexibilidade no programa de capital, se a alavancagem financeira aumentar e for sustentada com indicador Dívida/EBITDA acima de 4x, ou se o crescimento da produção ficar abaixo das metas", disse a agência no relatório.

Bookmark and Share


TAGS » Petrobras, Economia