Porto Alegre, sexta-feira, 31 de Outubro de 2014

  • 01/04/2014
  • 18:40

Retomadas audiências do processo sobre a boate Kiss

Depoimento de três vítimas confirmou que havia barras de ferro impedindo a saída das pessoas

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  • karina Reif / Correio do Povo

As audiências no processo sobre a boate Kiss foram retomadas nesta terça, em Santa Maria, com o depoimento de três vítimas do incêndio que matou 242 pessoas no ano passado. Elas confirmaram informações já conhecidas do
caso, dizendo que havia barras de ferro impedindo a saída e que civis continuaram entrando no prédio para socorrer os feridos, mesmo depois da chegada dos bombeiros. Por uma lado, os advogados assistentes da acusação questionavam se as vítimas consideraram que os responsáveis pela casa noturna haviam colocado a vida delas em risco. Por outro, a defesa de um dos donos do estabelecimento, Elissandro Spohr, o Kiko, perguntava se o proprietário teria motivo para fazer algum mal a quem estava na festa na noite de 27 de janeiro de 2013.

Estavam previstos quatro depoimentos, porém um deles foi transferido para quinta-feira, quando devem continuar as oitivas em Santa Maria. No entanto, também está marcada uma audiência na Comarca de Bagé e outra no Paraná. O primeiro a falar ontem foi Robert Andrade Correia Luge. O jovem afirmou que era frequentador da boate e que o local estava sempre cheio.

“Tinha muita gente, mas eu já estive em dias em que havia mais pessoas”, declarou. Assim como ele, os outros dois depoentes – Daniel dos Santos Silva e Bárbara Aline Soldatti Fillipetto – afirmaram que tiveram a impressão de estarem em um ambiente superlotado. “Era uma situação claustrofóbica para mim”, comparou Silva. Já Bárbara disse ter
contabilizado cerca de 1 mil pessoas na Kiss. A jovem teve lesão no pulmão e não pôde dar continuidade ao tratamento medicamentoso este ano por estar grávida.

Silva, que é músico, sofreu ferimentos e teve sequela no fígado em razão do uso de remédios após o incêndio. A namorada que o acompanhou na festa ficou em coma por aproximadamente dez dias, logo depois do acidente.
Questionado pelo juiz que conduz o caso, Ulysses Fonseca Louzada, se nos shows que costuma fazer usar equipamentos pirotécnicos, a vítima respondeu que jamais faria uso desse artifício por considerar insalubre.

Todos negaram ter visto Kiko na boate no dia do incêndio. Porém, Bárbara acrescentou que uma amiga havia encontrado ele e o sócio Mauro Hoffmann, que também é réu no processo, jantando. Esta informação motivou Omar Obregon, advogado do vocalista da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos, a solicitar ao juiz depoimento dessa testemunha. O músico acompanhou atento o relato de todas as vítimas, sem se pronunciar.

Louzada esclareceu que esta etapa de depoimentos encerrará em abril. Depois, haverá uma nova fase com as testemunhas de acusação. “As coisas estão andando de maneira célere. A gente não pode atropelar para não prejudicar seja a acusação, seja a defesa. Não adianta querer apressar um processo, que mais tarde, poderá ser anulado”, explicou, avaliando que as chances de os crimes prescreverem é muito remota.

Na opinião, presidente da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), Adherbal Ferreira, não há necessidade de ouvir as vítimas, que já prestaram depoimento mais de uma vez à Polícia Civil. “Poderia partir para as testemunhas. Tudo o que é dito já é sabido. A defesa quer ganhar tempo”, observou.

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