Porto Alegre, segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

  • 01/04/2014
  • 20:03
  • Atualização: 21:21

Suzana Lisboa relembra anos de repressão no Brasil

Viúva de guerrilheiro morto na ditadura segue em busca de informações de desaparecidos

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  • Correio do Povo

No apartamento antigo onde vive Suzana Lisboa, em Porto Alegre, há um quadro na parede ao lado da porta, emoldurando uma foto em preto e branco. Na fotografia, um casal muito jovem, feliz apesar da dor daqueles tempos. Eles são Suzana e seu marido, Luiz Eurico Tejera Lisboa. O cenário histórico na época do registro era a ditadura militar, nos seus primeiros anos após o golpe militar de 1964, que completa hoje 50 anos.

Suzana se casou com Luiz Eurico em março de 1969, quando tinha 17 anos. Ambos faziam parte do movimento estudantil gaúcho. Quando ainda eram namorados, ela integrou o grupo que tentou reabrir o Grêmio Estudantil do Colégio Estadual Júlio de Castilhos, o Julinho.

O ano era 1968: “A direção do Julinho fechou o Grêmio porque não aceitava a participação que a gente estava tendo. Fizemos um jornalzinho porque houve uma repressão muito forte nas passeatas, e lá dizia: ‘Que país é esse que sua bandeira empresta pra encobrir tanta infâmia e covardia?’ Aí fecharam o Grêmio. Montamos uma barraca na frente da escola, onde funcionava o Grêmio Livre. O Luiz Eurico era meu namorado na época. Ele não era mais aluno, mas era da União Gaúcha dos Estudantes Secundários (UGES). Levamos à UGES um abaixo assinado pedindo a reabertura do grêmio. O Luiz Eurico e o Claudio Gutierrez foram na direção da escola levar. O diretor chamou o DOPS no colégio. Eles foram presos e enquadrados na Lei de Segurança Nacional pela tentativa de reabertura de um entidade ilegal”, lembra Suzana, em entrevista nessa segunda-feira. 

Ali começou o caminho que levaria à vida clandestina dos dois. A Lei de Segurança Nacional fazia parte de um processo de identificação de inimigos internos, uma marca da Guerra Fria aplicada nas ditaduras do Cone Sul. O regime observava e perseguia qualquer um que apresentasse comportamento julgado subversivo e que desafiasse o arbítrio da ditadura. Cerca de 50 mil pessoas foram presas apenas nos primeiros meses da ditadura.

Do Julinho a um cemitério em São Paulo

À época, Luiz Eurico foi detido e interrogado no DOPS. Compareceu à audiência militar e foi inocentado. Mas em outubro de 1969, já casado com Suzana e trabalhando como escriturário, foi surpreendido por uma notícia no jornal que informava sua condenação a seis meses de prisão. “Isso é o retrato de como era a ditadura militar, e até onde iam os tentáculos dela. Depois da condenação, passamos a viver na clandestinidade, éramos da Ação Libertadora Nacional (ALN). Nós saímos daqui, fizemos treinamento de guerrilha em Cuba, em 1970. Em 1971 voltamos, no auge da ditadura. Em 1972 fomos a São Paulo e o Ico desapareceu em setembro, em circunstâncias que até hoje eu não conheço. Eu fiquei clandestina até perto da anistia, em 1978.”

Em 1978, o chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), os olhos atentos do governo militar, era o general Otávio Medeiros. Ele prometeu informações sobre o paradeiro de Luiz Eurico Lisboa aos seus familiares. O rosto de Eurico estava no primeiro cartaz dos desaparecidos políticos da ditadura militar brasileira. Os relatos do SNI davam conta de que ele estava vivendo em Montevidéu, casado. A realidade era outra: “Comecei a participar da luta pela anistia e do movimento dos familiares. Dentro do movimento eu localizei o corpo do Luiz Eurico enterrado com nome falso no cemitério de Perus”, recorda Suzana.

Durante o Encontro Nacional das Entidades de Anistia, em 1979,no Rio de Janiro, surgiu a denúncia de que muitos presos políticos tinham sido sepultados no cemitério D. Bosco, em Perus, em São Paulo. Eurico Lisboa usava um documento com o nome Nelson, e no registro de óbitos do cemitério constava um Nelson Bueno, morto em setembro de 1972.

A Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos organizou uma investigação que levou a uma pensão no bairro da Liberdade, endereço informado no cemitério como o local de morte de Nelson Bueno. Na pensão, os moradores identificaram prontamente a foto de Eurico como sendo o “moço que se suicidou ali” – uma inquietude que a acompanha há 40 anos. “Tem uma versão oficial de suicídio, um inquérito montado em cima de um nome falso que diz que ele se suicidou num quarto de pensão. Tem fotos dele deitado na cama com uma arma em cada mão, diversos tiros pelo quarto. Eu tinha certeza absoluta de que ele não tinha se matado, que era mais uma versão de suicídio entre tantas outras que a ditadura criou. Mas só tive a comprovação no ano retrasado, quando fui depor na comissão na Comissão da Verdade de São Paulo e pedi aos peritos da Comissão Nacional da Verdade que fizessem uma análise pericial em cima da documentação da morte dele. No laudo eles provam que ele não se matou. Mas ainda tenho um atestado de óbito de suicídio e não sei quem o matou, nem onde foi realmente. Ainda assim, tenho o que muitos familiares não têm. Eu tive o privilégio de poder enterrar o Luiz Eurico. Mais de uma centena de pais e mães morreram sem poder enterrar seus filhos.”

Luiz Eurico foi morto com um tiro na cabeça. A versão do suicídio se assemelha a um dos mais conhecidos casos da ditadura, a morte do jornalista Vladimir Herzog, cujo engodo do enforcamento suicida fica evidente na foto póstuma, em que ele aparece com o pescoço pendendo em um cinto, mas as pernas flexionadas tocando o chão.

“Enquanto existir essa impunidade, vão desaparecer pessoas”

 Mais de quatro décadas depois, Suzana persiste na busca por respostas para os acontecimentos que esmagaram sua juventude. Há a indignação de quem foi condenada por desafiar uma ordem repressora, calcada no medo e na tortura como política de Estado. “A tortura foi sistemática desde 64. Existia a pena de morte, mas eles matavam ilegalmente e ainda escondiam corpos. É incrível que, 50 anos depois, ainda tenha gente que chame aquilo de revolução. Enquanto houver uma pessoa de bem nesse país, que não seja um assassino ou torturador, que ache que aquilo foi uma revolução, nós temos que falar, temos que lembrar o que foi. Os crimes cometidos em nome do Estado brasileiro não foram investigados, não foram julgados, e só isso vai permitir que a gente dê um passo a frente para a construção de uma democracia plena. Enquanto existir essa impunidade, vão desaparecer pessoas, como o Amarildo. Amanhã será outro. A impunidade de hoje se perpetua em cima dos crimes do passado que não foram punidos”, reflete.

Suzana segue como militante dos Direitos Humanos e integra a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos. “Depois disso eu não consegui retomar integralmente minha vida, até em função da militância. Eu tenho um filho de 28 anos, que nasceu depois, mas cresceu com a carga de ter uma mãe dentro de cemitérios, procurando cadáveres. Isso foi um peso muito grande para ele. Hoje em dia se ouve muito mais em função da Comissão da Verdade e desse cinquentenário do golpe. Mas não existe um acompanhamento direto. Nosso trabalho nunca parou e nunca vai parar. A Comissão da Verdade não vai nos dar as respostas que queremos, já sabemos disso. Queremos informações sobre cada um dos mortos e desaparecidos políticos, mas que vá além do que nós já temos, porque tudo que temos até hoje foram os familiares que levantaram, não foi o Estado.”

Há, pelo menos, 426 mortos e desaparecidos políticos no Brasil, segundo a lista organizada pela Comissão de Familiares. Centenas desapareceram depois de terem sido brutalmente torturadas com choque elétrico e toda sorte de instrumentos e práticas sádicas durante a ditadura militar. Muitos jamais foram reconhecidos como vítimas do Estado. Luiz Eurico Lisboa é um deles: “Ele foi assassinado e enterrado com um nome falso, e a morte e a prisão dele nunca foram admitidas”.

Com informações de Thamíris Mondin / Especial CP