Porto Alegre, sábado, 25 de Outubro de 2014

  • 22/04/2014
  • 07:32
  • Atualização: 07:56

Casa da família Boldrini pode acolher crianças vítimas de maus-tratos

Comunidade de Três Passos está reunida em torno do projeto

População quer desapropriação da residência onde Bernado residia | Foto: Vinícius Araújo / Especial / CP

População quer desapropriação da residência onde Bernado residia | Foto: Vinícius Araújo / Especial / CP

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  • Wagner Machado / Correio do Povo

A população de Três Passos quer transformar a casa onde o menino Bernardo Boldrini residia em um local para acolhimento de crianças vítimas de maus-tratos. O projeto ainda não saiu do papel, até porque o imóvel precisará ser desapropriado, mas a comunidade está reunida em torno desse objetivo. Ainda não há nada de concreto, mas a ideia já é cogitada por toda população da cidade.

• Leia mais sobre o caso Bernardo Boldrini

Nesta terça-feira, as aulas para os 410 alunos do Colégio Ipiranga de Três Passos, onde Bernardo Boldrini estudava, foram retomadas pela manhã. A direção da escola, situada no centro da cidade contratou a psicóloga Fabiane Ângelo para orientar os professores a falar aos alunos, no início das atividades, logo no primeiro horário, às 7h30min. A psicóloga é a mesma que atuou com as famílias que perderam seus familiares no incêndio da boate Kiss, em Santa Maria, ocorrido em janeiro de 2013, que causou 242 mortes.

Na entrada da escola estão fixados dezenas de cartazes, colocados a partir do dia 4 de abril, quando o garoto foi considerado desaparecido. A psicóloga adiantou que a turma de Bernardo, de 21 alunos, vai receber uma atenção toda especial. Até para que os estudantes consigam vencer o trauma, pois muitos eram mais que colegas do garoto. Eram amigos do menino assassinado.

Segundo o diretor da escola, Nelson Antônio Gabriel Weber, o objetivo da presença da psicóloga na retomada das aulas, após o desfecho da tragédia, justifica-se pelos momentos de angústia e dor enfrentado pela "família" do Colégio Ipiranga. "O clima entre professores, alunos, funcionários e de toda a comunidade de Três Passos é de dor e aflição", afirmou o diretor. "O Bernardo deixou marcas profundas de alegria que o tempo não irá apagar", lembrou Weber.

Médico poderá ter registro cassado


O médico Leandro Boldrini, suspeito de envolvimento no assassinato do filho Bernardo Uglioni Boldrini, de 11 anos, pode ter o registro profissional cassado se for comprovado que usou a medicina para cometer o crime. O julgamento pelo Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers) só deve ocorrer se ele for julgado pela morte do menino e condenado pela Justiça.

O presidente do Cremers, Fernando Matos, explicou que a suspensão cautelar do exercício da Medicina é outra hipótese, que pode ser aplicada ao caso, mas só se ficar comprovado que o cirurgião sofre de algum tipo de problema mental, o que ainda não foi cogitado pela Polícia. Nesse caso, ele fica impedido de trabalhar por um período determinado até a reavaliação.

Caso seja julgado e condenado pela morte do filho, mas sem o uso dos conhecimentos médicos para cometer o crime, Boldrini não vai ser impedido de trabalhar, podendo exercer atividade, inclusive, dentro da prisão. O presidente comentou não recordar de casos, no Rio Grande do Sul, de cassação do diploma por envolvimento com crime. Matos acentuou, no entanto, que a cada ano, de uma a duas suspensões cautelares ocorrem.

Será pedida quebra de sigilo bancário

O advogado da família Uglione, Marlon Adriano Taborda, informou que irá investigar o patrimônio do médico Leandro Boldrini que, segundo ele, seria bem acima da média da sociedade brasileira. A Polícia, que também quer saber a origem do dinheiro que seria destinado à assistente social pela madrasta de Bernardo, inclusive já teria pedido a quebra do sigilo bancário dos suspeitos do caso.

Taborda afirmou que estará o mais tardar nesta quinta-feira na cidade de Três Passos. Marlon confirmou, na tarde dessa segunda-feira, que vai solicitar o desarquivamento do processo-crime referente a morte de Odilaine Uglione, morta em 10 de fevereiro de 2010. Segundo ele, Marlon disse querer realizar uma "leitura" mais profunda do inquérito, onde a Polícia apontou que a mãe de Bernardo praticou suicídio. Odilaine morreu depois de comparecer na clínica do então marido no centro de Três Passos. Segundo o inquérito, ela estaria armada com um revólver. Ela não encontrou o marido e teria cometido o suicídio, segundo as investigações da época.

O defensor também deve solicitar uma avaliação psiquiátrica dos suspeitos, para investigar quem está mentindo. Taborda relatou que foi o único que viu o corpo de Bernardo e, havia sobre um dos braços um líquido, que pode ter sido usado para acelerar a decomposição do corpo.

De acordo com autoridades, ouvidas pela Rádio Guaíba, os três suspeitos estão isolados dos demais presos e uns dos outros. Os presos foram colocados, cada um em uma cela, para que evitem o contato entre eles. O cuidado é para que não combinem versões a serem relatadas à Polícia, prejudicando a investigação. Outro motivo do isolamento é o temor de que sejam hostilizados por apenados da mesma unidade de detenção. A pedido da Justiça e por recomendação da Polícia Civil, o local da prisão não é divulgado

A prisão dos três é temporária. Em função de a suspeita ser por participação em crime hediondo, eles ficarão privados de liberdade por 30 dias. Depois desse período, a detenção pode ser prorrogada ou substituída por uma preventiva, mantendo o trio preso. Leandro deve depor nesta terça, na DP de Três Passos.

Caso Bernardo abre debate sobre mudança na legislação

O assassinato do garoto Bernardo Boldrini, 11 anos, fez com que a sociedade se mobilizasse para uma mudança na legislação, criando mecanismos para a proteção de crianças que sofrem o mesmo drama que atingiu o garoto morto em Três Passos, no Interior. A primeira iniciativa partiu da cidade onde o menino residia, com um rapaz, que não conhecia a vítima, anunciando o lançamento pelas redes sociais, a partir da próxima sexta-feira, de uma petição para que seja criada a "Lei Bernardo".

Magnos Leandro de Souza, 33 anos, lançou a ideia, que se propagou pelas redes sociais, ganhando apoio para uma discussão sobre o caso. De uma forma geral, a nova norma teria três aspectos básicos: fortalecer o Ministério Público, de forma que a instituição, em ações semelhantes, tome atitudes mais ágeis e determinantes.

A outra é quando uma criança procurar as autoridades e relatar maus-tratos, ela não retorne para casa e, se voltar tenha acompanhamento constante. Por fim, a petição pretende tornar a função de conselheiro tutelar um cargo público e não um trabalho exercido após uma eleição.

Embora não conhecesse Bernardo, Souza idealizou a página na rede social (Desaparecido - Bernardo Boldrini), fundada quando a criança ainda estava desaparecida. Souza afirmou que após a confirmação do crime, o foco foi direcionado para impedir casos semelhantes. A partir da comoção dos internautas e com dicas dos próprios participantes, Souza criou a "Corrente do BEm", grifada com o B e o E em maiúsculas em uma alusão ao nome da vítima. "Agora, devemos lançar a partir de sexta-feira, a petição on-line", disse o idealizador da página. "Ainda não sabemos quais as orientações jurídicas para que essas assinaturas virtuais tenham força para forçar uma mudança na legislação", comentou ele.

A intenção, assegurou Souza, é pressionar os deputados para que não deixem essa situação (o assassinato) passar em branco. "Projeto que, no mínimo, 50 mil adeptos da ideia devem assinar a petição logo após o lançamento", projetou o rapaz, lembrando que a Constituição federal outorga este direito aos cidadãos. Estes têm direito a apresentar, individual ou coletivamente, às instituições ou aos governos, petições.

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