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24/05/2014 16:36 - Atualizado em 24/05/2014 17:24

RS registra queda de 33% nas doações de órgãos

Estado foi líder nacional durante 20 anos e agora ocupa 8º lugar

Barros (E) faz campanhas após receber coração. Na equipe, estava Plabo Py, então residente e também transplantado
Crédito: Mauro Schaefer

O Rio Grande do Sul registrou queda de 33% nas taxas de doação de órgãos no primeiro trimestre de 2014. O Estado, que permaneceu durante 20 anos como líder nacional, é o oitavo, de acordo com a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). A negativa de familiares de pessoas com morte cerebral é de 47%. No RS, a taxa de proibição foi de 45% em 2013, conforme dados da Secretaria Estadual da Saúde.

Para o diretor-presidente do Instituto de Cardiologia do RS, Ivo Nesralla, falta conscientização da população da importância do ato, pois algumas pessoas ainda têm dúvidas sobre o processo. “Quem atesta o óbito são neurologistas a partir de diversos exames e não a equipe de transplantes. Há um exame, por exemplo, que visualiza a falta de sangue no cérebro, o que determina a morte cerebral”, explica. Apenas depois do diagnóstico, da entrevista com a família para a autorização e de testes para saber sobre a compatibilidade e saúde dos órgãos é que a equipe de transplantes recebe o aviso.

O diretor médico do Hospital Dom Vicente Scherer, da Santa Casa de Porto Alegre, José Camargo, cobra participação do governo em ações de conscientização em escolas e com diversos públicos. “Nos dois últimos governos estaduais não há interesse com a causa para a realização de campanhas efetivas e permanentes de doação de órgãos.” Para Camargo, a revolta e a dor não combinam com a generosidade, por isso o tema tem de ser debatido antes entre as famílias. “O governo deveria impor que o assunto fosse abordado nas escolas para que seja criada, desde cedo, uma cultura de doação. Quando ela existe, a doação de órgãos se torna algo natural”, argumenta.

A coordenadora da Central de Transplantes do RS, Rosana Nothen, acredita que o governo está investindo em campanhas e, principalmente, na qualificação dos profissionais envolvidos no processo para torná-lo mais rápido. “Temos a certeza de que a educação é mais importante para mudanças comportamentais do que campanhas, pois o efeito delas é temporário”, avalia. Para ela, a negativa familiar é consequência da mudança cultural. “A não autorização está relacionada ao momento social que vivemos de individualismo”, diz.

A fim de combater essa barreira e esclarecer as dúvidas sobre doação de órgãos, Erni Sebastião Barros, 52 anos, depois de receber um coração de um jovem de 18 anos há um ano e nove meses, passou a fazer campanhas em Rio Pardo, onde mora. “Eu jurei no dia que saí do hospital que iria levar informação sobre o tema para ajudar quem está esperando”, conta Barros, que ficou sete meses na expectativa do transplante, após passar por procedimentos de ponte de safena e stent. Durante a captação do órgão e transplante, o médico Pablo Py, do Instituto de Cardiologia, na época residente, anunciou após quatro horas de cirurgia que também era transplantado de coração. Atualmente, são dez anos desde a sua operação, quando tinha 23 anos. “Foi por causa do meu problema que escolhi a cardiologia e acho que por ter passado por isso, a aproximação com os pacientes é mais fácil”, relata. Já participou de outros três transplantes com a equipe do médico Paulo Prates, que o operou.

Lista de espera

Rim: 981
Fígado: 154
Pulmão: 61
Coração:16
Pâncreas/Pâncreas-Rim: 20
Fígado/Rim: 3
Córnea: 125

* Dados de 19 de maio, da Central de Transplantes do RS

Pulmão é o primeiro que se perde

Segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, há 61 pessoas na lista de espera por pulmão. O cirurgião José Camargo informa que o órgão é o primeiro que se perde. O transplante deve ser feito até seis horas após o óbito. Segundo o médico, a média de espera por esse órgão é de dez meses. “Quando o paciente entra na lista a expectativa de vida é de dois anos”, ressalta.

Sofrimento duplo para Fernanda


Com a doença rara linfangiomatose, a dona de casa Fernanda Silva Rocha, 38 anos, sentia muita falta de ar e com o tempo precisou usar oxigênio durante 24 horas. Teve o pulmão afetado pela doença e precisou entrar para a lista de espera para receber novo fôlego. Permaneceu por quatro meses na expectativa de vencer a etapa. “É uma luta diária com muita ansiedade para conseguir viver normalmente.” Na época, as filhas tinham 9 e 15 anos e ficaram assustadas com a situação. Em 2007, fez o transplante, mas após dois anos houve rejeição. Uma bactéria atingiu seu novo órgão.

Isso é comum, segundo o cirurgião torácico José Camargo, pois o órgão fica continuamente em contato com o meio externo devido ao processo de respiração. “Fiquei cinco meses na UTI. Perdi um rim e estive em coma”, relembra Fernanda. Outro transplante foi feito. “Em agosto fará três anos e hoje estou 100%”, comemora. Hoje o sentimento é de gratidão pelos médicos e pelos doadores.

Médico na esperança de novo coração


 Há um mês na lista de espera para receber novo   coração o médico José Carlos Rosa Delfini, 58 anos, sente ansiedade na sua única possibilidade de voltar a exercer sua profissão e ter uma vida normal sem cansaço. “Eu preciso de um doador. Essa é minha única chance de viver.”

Há oito anos teve três infartos e problemas no pulmão, pois até um ano antes fumava de três a quatro carteiras ao dia e mantinha um ritmo acelerado, trabalhando em diversas instituições perto de Camaquã, onde reside. “É muito difícil um médico parar. Estou sempre me lembrando das minhas atividades pela movimentação na rua ou ao escutar uma sirene.”

Delfini está com diabetes e passou a tomar 23 comprimidos/dia. No último ano começou a sentir palpitações e falta de ar. Necessitou implantar um marca-passo. “Às vezes bate uma tristeza por achar que as coisas não darão certo, em outros momentos penso que tudo ocorrerá bem.” Ele encontra força na esposa Vera e na filha Giovanna.

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Fonte: Jéssica Mello / Correio do Povo





» Tags:Saúde Geral

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