Porto Alegre, sexta-feira, 31 de Outubro de 2014

  • 08/06/2014
  • 09:26
  • Atualização: 09:33

Copa e frio atraem olhos para sem-teto em Porto Alegre

Ações da Fasc serão ampliadas durante Mundial

Seu Paulo é conhecido como Leitor na Ipiranga | Foto: Fabiano do Amaral

Seu Paulo é conhecido como Leitor na Ipiranga | Foto: Fabiano do Amaral

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  • Nildo Júnior / Correio do Povo

Toda cidade grande tem um número significativo de moradores de rua. Na Capital gaúcha, são 1.347 pessoas dormindo sob marquises e/ou nos bancos de praças, de acordo com pesquisa de 2011, sendo 51% oriundos do Interior. Com o frio e o início da Copa do Mundo, Porto Alegre se preocupa com o bem-estar dessas pessoas. A Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc) dispõe de duas Kombis para abordagem à população de rua.

Uma vez por semana, todas as secretarias se reúnem para discutir o Plano Municipal de Acompanhamento e Monitoramento da Política Nacional da População em Situação de Rua com a Defensoria Pública da União e o Ministério Público do Estado.

A fundação controla os Centros Pop I e II, onde os sem-teto têm acesso a exames médicos e podem fazer trabalhos artísticos. O Albergue Municipal, no bairro Floresta, atende mensalmente 430 pessoas diferentes. Segundo o coordenador, Frank Hendler, as pessoas têm direito a banho, duas refeições, guarda-volumes, arteterapia, atendimento social e serviço de saúde. “A nossa única exigência é que não venham com drogas e álcool.”

A assistente social Vera Lúcia Gomes faz a triagem. “A maioria a gente conhece há anos. Sempre voltam quando perdem emprego, brigam com familiares ou o companheiro.”

O presidente Marcelo Soares diz que a função primordial da Fasc é dar proteção às pessoas que estão em situação de vulnerabilidade. Ele não concorda que se fale que existem grupos dispostos a “limpar” as ruas, retirando os mendigos de prédios públicos. Diz que, durante o período de Copa, as ações da Fasc serão ampliadas.

O Leitor é conhecido na Ipiranga

Paulo Roberto Soares, 59 anos, vive em uma barraca na praça Adair Figueiredo, ao lado do Zaffari Ipiranga. A figura esguia, sentada em uma cadeira de alumínio, lê tranquilamente um romance de Machado de Assis ou uma coletânea da revista Seleções. É conhecido no bairro como Seu Paulo, o Leitor, pois está sempre com um livro, uma revista ou um jornal nas mãos.

Desde 2002, mora na praça. A presença dele garantiu a segurança do local, que recebia muitos dependentes químicos. “Espantei todos eles”, conta.

Seu Paulo diz que estudou até a quarta série, mas sempre gostou de ler. Morava com a esposa até se separar. Viveu com a mãe, que veio do Rio. “Quando eu estava me acostumando com as manias dela, ela faleceu. Larguei tudo e vim morar aqui.”

O livro “A Cabana”, de William P. Young, é o seu favorito. Ele perdeu o exemplar que tinha, mas ganhou outro pouco tempo depois. “Eu emprestei não sei para quem e essa pessoa nunca me devolveu. Outro dia me lembrava do livro e não é que aparece uma garotinha me doando um exemplar.”

Câmara apura denúncias de “limpeza”

Por causa de denúncias de violência contra moradores de rua, os vereadores de Porto Alegre criaram um grupo de trabalho para verificar se a situação está acontecendo. Coordenador do grupo, o vereador Alberto Kopittke (PT) saiu na sexta-feira à noite para percorrer as ruas da cidade. “Existe um boato de ‘limpeza’ por causa da Copa do Mundo e fomos a campo para averiguar”, informa.

Kopittke não notou ausência de moradores nos locais mais conhecidos, mas descobriu que existe registro de violência policial contra essas pessoas. “Até agora não vimos ninguém falando que Fulano sumiu, que desapareceram com Cicrano. O que temos é a violência permanente de alguns policiais da Brigada Militar”, afirma o vereador.

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