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  • 01/02/2012
  • 14:19
  • Atualização: 15:23

Cabo Horn: com um pé no fim do mundo

Ponto mais ao sul da América tem ventos que ultrapassam os 100 km/h

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  • Danton Júnior / Correio do Povo

Ao cruzarmos a Ilha de Navarino, em direção ao sul, o balanço do navio parece servir de aviso. Estamos próximos do Cabo Horn, ponto mais austral do mundo antes da Antártica. Ventos que podem ultrapassar os 100 km/h dão as boas-vindas aos que se aventuram a visitar o local, assim como faziam com os navegadores na época dos grandes descobrimentos. Estima-se que, entre os séculos XVI e XX, mais de 800 embarcações se perderam nestas águas, tendo a bordo cerca de 10 mil homens.

Ao chegar a um ambiente tão inóspito, é difícil acreditar que haja vida humana neste local. O mais inusitado é que no "fim do mundo" vive uma família feliz, que está sempre disposta a receber os turistas de braços abertos. Ivan Cadiz, 39 anos, sargento da Marinha do Chile, é o responsável pelo farol do Cabo Horn há dois meses. Ele irá permanecer nesta função durante um ano. Para acompanhá-lo, trouxe a esposa Paula e os filhos Daniela, 13 anos, e Ivan, 7. "É uma experiência inesquecível. Temos a oportunidade de conhecer muitas pessoas que vêm realizar o sonho da sua vida", conta o sargento.

Enquanto Ivan controla o tráfego marítimo da região, Paula dedica-se a vender lembranças de viagem cada vez que chegam os turistas. Como toda mãe, ela vive pedindo para que os filhos se agasalhem – o que, neste caso, está longe de ser um exagero. Durante o verão, a temperatura fica em torno de 0°C. "Eles se acostumaram bem e até me ajudam nas tarefas diárias", conta Paula. Sem escola ou colegas, Daniela e o pequeno Ivan estudam e se comunicam com os amigos pela internet. A única companhia para brincar é o cãozinho Goof.

Ivan Cadiz levou a família para passar um ano no Cabo Horn / Foto: Danton Júnior / Especial / CP

Além do orgulho de servir ao seu país, o faroleiro do Cabo Horn acredita que a experiência irá reforçar a união da família. Segundo ele, a postulação foi voluntária. "Houve um processo de seleção, com exame médico, psicológico e de acordo com a carreira profissional", explica. Desde que ingressou neste trabalho, ele afirma ter conhecido muitos brasileiros. "É algo precioso para eles. Quem não conhecia vê, ao chegar aqui, que é muito mais bonito", acrescenta. No local podem ser visitados o farol, o monumento ao Cabo Horn e uma pequena capela católica.

Tráfego começou em 1616

As visitas ao Cabo Horn são possíveis por meio de botes Zodiac, mas o acesso só é possível se as condições meteorológicas permitirem. Não raro, os turistas são recebidos por uma rápida mas intensa chuva de granizo – como ocorreu na última terça-feira. Desde a época da navegação à vela, é difícil imaginar um lugar onde o homem se sinta mais vulnerável.

"Já se conhecia o Estreito de Magalhães desde 1520, mas foi em 1616 que começou o tráfego de navios entre Ásia e Europa, transportando especiarias", explica o guia de expedição Cristóbal Fierro. "Hoje muitos marinheiros gostam de fazer essa travessia por ser um local histórico, comemorando aquela época", continua.

Atualmente passam pelo local principalmente navios de turismo e pesca. "Nesta época tem bastante trânsito, mas durante o inverno é para morrer de pena", brinca Fierro. "Colocar um pé no Cabo Horn é colocar um pé no fim do mundo."

O Correio do Povo participa de uma viagem à Patagônia Chilena e à Terra do Fogo a convite do Serviço Nacional de Turismo do Chile (Sernatur). O percurso a bordo do cruzeiro de expedição Stella Australis encerra-se nesta terça-feira, no Cabo Horn (ou Cabo de Hornos). A visita à região, porém, continua por terra até o Parque Nacional Torres del Paine.

Acompanhe a expedição à Patagônia

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