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  • 11/02/2018
  • 16:49
  • Atualização: 11:33

Abandonado, Sessinzão tem matagal e arquibancada com risco de queda

Homens vivem debaixo do estádio de Cidreira, que está interditado e em ruínas

 Desativado desde 2010, estádio se desmancha a cada dia  | Foto: Guilherme Almeida

Desativado desde 2010, estádio se desmancha a cada dia | Foto: Guilherme Almeida

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  • Henrique Massaro

As marcas da cal do Estádio Municipal Antônio Sessim, em Cidreira, continuam visíveis, brancas e firmes, como à espera de uma partida de futebol. Mas nenhuma bola vai rolar no que um dia foi um gramado e hoje mais parece um matagal devido à vegetação que cresce descontrolada. Desativado desde 2010, o espaço se desmancha a cada dia e estado de abandono chama a atenção, mas é ainda mais impactante do que parece à primeira vista. Sem condições de sequer receber o público para um jogo, a arquibancada, com risco de queda, tem pessoas morando debaixo de sua estrutura.

Antes mesmo de se entrar no Sessinzão, como é conhecido, o seu entorno já revela condições de precariedade. Resíduos e entulhos podem ser vistos sendo trazidos em veículos à luz do dia, aumentando os morros que circulam a parte de fora do estádio. Dentro dele, é inevitável o estranho sentimento de solidão. O barulho e a paixão que certamente permeavam jogos da dupla Gre-Nal realizados no local há mais de dez anos foram trocados pela imensidão de um vazio. Em meio às ervas daninhas que crescem para fora do fosso e no campo em meio às traves sem redes, o silêncio só é quebrado pelo canto dos quero-queros.

A ferrugem tomou conta do alambrado e o concreto da arquibancada está quebrado e rachado por toda a extensão, que, em uma parte, também é coberta por cacos de vidro das antigas janelas das tribunas de imprensa. Mas esses espaços, assim como as casamatas, mostram que o Sessinzão não é de fato deserto. Colchões, cobertas e roupas podem ser vistas até revelarem que há pessoas vivendo no estádio interditado.

Uma abertura na estrutura da arquibancada, onde costumava ser o acesso para a copa, atualmente é o hall de entrada da casa improvisada de três homens. A disposição do local conta com cozinha, sala de jantar e, em uma das peças anexas, um quarto individual, onde há também um vaso sanitário feito com um assento sobre um balde. “Aqui tudo é organizado”, disse um dos homens enquanto escolhia a colher certa para mexer o feijão que fazia no fogão a lenha para o almoço.

O nome dele é Harvei da Silva e tem 48 anos. Desempregado, ele costumava trabalhar com serviços gerais e vive no estádio há cerca de quatro meses. De uma magreza que chama atenção e com feridas espalhadas pelo corpo, ele conta ter se afastado da família devido ao consumo de álcool. É o mesmo motivo que levou Wilson de Azevedo, de 59 anos, a se mudar para o Sessinzão, já há aproximadamente quatro anos. De Cidreira, ele afirma ser pedreiro, mas estar impossibilitado de trabalhar devido a uma hérnia que salta da região da virilha.

Os dois homens – o terceiro não quis ser mostrado – são receptivos, segundo eles porque os cachorros que também vivem no local não estranharam a presença da reportagem. Também são, de certa forma, orgulhosos da forma como organizaram o espaço, até com grinalda de Natal pendurada na porta de entrada. Nem por isso, porém, deixam de comentar a precariedade em que vivem. Apesar de ter água encanada, por exemplo, a luz é sempre através de velas.

Clube europeu pode resolver situação do estádio

Os moradores do estádio de Cidreira dizem que não costumam ser incomodados por viverem embaixo da arquibancada. Mas o secretário municipal de Assistência Social, Claudir Luiz Serafim, afirma que o Executivo já os retirou do local mais de uma vez. O motivo, segundo ele, é a interdição, que põe em risco a própria segurança dos homens. “Se acontece qualquer coisa, a responsabilidade é da prefeitura”, explica.

O município também teve que interferir recentemente, quando um outro homem foi retirado do local por problemas de saúde. Depois de ser hospitalizado, ele voltou a viver com a família em Viamão através de acompanhamento da Assistência Social. Mas os outros moradores, conforme o secretário, retornaram para o Sessinzão depois de todas as intervenções. O interesse da prefeitura de que ninguém permaneça nas dependências do estádio, ainda de acordo com Serafim, só tem um desfecho possível.

Trata-se de uma reforma de toda a estrutura e, consequentemente, a sua reativação. Para isso ocorrer, no entanto, são necessários cerca de R$ 2 milhões, os quais a prefeitura não dispõe, afirma a coordenadora do Desporto da Secretaria de Turismo, Flaviana de Andrade. A alternativa atual, comenta, é o interesse de um clube de futebol europeu. Em andamento, as negociações, podem levar a uma concessão do espaço.

De Portugal, o Club Sport Marítimo vê semelhanças no litoral gaúcho com o da Ilha da Madeira, onde está sediado. A ideia do clube, que já está presente em 36 cidades brasileiras – entre elas, Osório, também na região litorânea -, é montar seu centro de treinamento de referência no país. Com hospedagem para 300 atletas das categorias de base, o espaço teria um “padrão europeu”, afirma o coordenador sul-americano do Marítimo, Mauro da Rocha.

A vinda do clube luso, de acordo com o representante, resolveria a situação do estádio de Cidreira. Ele pondera, no entanto, que, mesmo com o interesse do clube e com o esforço da prefeitura em encaminhar o negócio, as tratativas ainda não foram concretizadas. Um dos principais motivos envolve a questão estrutural do Sessinzão, que ainda passa por estudos. “Está muito depreciada. Quase vale a pena ser desmanchada e construir de novo. Está sendo avaliado.” 


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