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  • 09/06/2018
  • 17:49
  • Atualização: 18:58

Presidente do Padre Cacique pede colaboração dos empresários para não fechar as portas

Instituição pode chegar em dezembro com déficit de cerca de R$ 5 milhões

Presidente do Padre Cacique pede colaboração dos empresários para não fechar as portas | Foto: Fabiano do Amaral

Presidente do Padre Cacique pede colaboração dos empresários para não fechar as portas | Foto: Fabiano do Amaral

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  • Franceli Stefani

Com as salas lotadas de alimentos, de leite a chocolate, e produtos de limpeza e roupas, a direção do Asilo Padre Cacique agora tem outro desafio: mudar a realidade financeira da instituição, que desde 2016 fecha as contas no vermelho e, neste ano, pode chegar em dezembro com um déficit de cerca de R$ 5 milhões, de acordo com o presidente, Edson Brozoza.

Segundo ele, não há falta de comida, nem de produto de limpeza, o apelo agora é financeiro. Perto de comemorar 120 anos, festejados no próximo dia 19, a organização não governamental, luta para conseguir tocar no coração dos empresários. Através do Fundo Municipal do Idoso, criado em 2011, as empresas podem doar 1% do imposto a pagar sem nenhum centavo do custo.

De acordo com o presidente, nos últimos três anos a quantia de mais de R$ 2,5 bilhões, que poderia ter sido destinada ao Padre Cacique, foi para Brasília. “Não pedimos arroz e feijão, mas que cada pessoa da comunidade nos ajude a convencer os empresários. Nós apostamos alto nesse fundo, ele sério, é verba federal, que tem o Ministério Público Federal como fiscalizador. Tudo é documentado, fazemos balanços e prestação de conta”, detalhou.

Brozoza disse que o projeto inicial, quando o Fundo foi estruturado, era de que a captação beiraria os R$ 14 milhões, porém o valor foi considerado decepcionante, e ficou em torno de R$ 750 mil até agora. “Nós apostamos todas as nossas fichas, tanto que fizemos reformas na enfermagem, no refeitório, cozinha, ficou tudo nota 10. Padrão do que tem de melhor no país, porém os resultados foram bem diferentes do que estávamos focados”, lamentou.

Ele explicou que desde que retornou à gestão da organização, encontrou as contas com R$ 2,5 milhões de déficit. A projeção é deste ano, se nada mudar, fechar com dívida de R$ 5 milhões. Sem reserva, diz que as portas poderão ser fechadas definitivamente. “Não teremos mais o que fazer, teremos que entregar as chaves para o governador ou prefeito. Essas doações de alimentação são contínuas, porém desde semana passada há filas de carros para fazer entregas. Nossas salas estão cheias e não estamos com falta. Precisamos de doações, que os empresários acreditem no nosso trabalho.”

“Se não mudar, vamos fechar”

O presidente, que há 20 anos atua no Asilo Padre Cacique, contou que largou “tudo” para tentar reerguer o lar, que atualmente abriga 113 idosos entre homens e mulheres. “Nosso máximo seria 150, porém na primeira redução, foi para 128. Agora chegamos nesse número e nas condições que estamos, vou ter que tentar recolocar mais alguns em outros lares que tenha as mesmas, ou semelhantes, características daqui”, lamentou ele.

Professor universitário, largou oito turmas do curso de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), para cuidar dos idosos. “São pessoas carentes que não teremos mais condições de ajudar. É matemático, se não mudar, vamos fechar. Temos 160 mil reais no caixa, a despesa mensal é de R$ 840 mil, tudo em números redondos”, detalhou.

Segundo ele, a pessoa física está sempre presente, porém sem a jurídica pouco poderá ser feito. “A comunidade é sempre parceira e vários fazem depósitos, que juntam totalizam de R$ 6 a R$ 8 mil, mas não é suficiente. Os empresários podem se juntar e somar uma quantia substancial, em vez de mandar para Brasília o montante, não sei porque não deixam conosco.” O apelo é feito em todos os momentos, sempre que é dada voz a Borzoza: “Empresários, nos ajudem, não temos muito tempo.”

Mais cortes

Dos 113 idosos que vivem na casa, a maioria não tem nenhum vínculo familiar e encontram nos colaboradores uma grande família. O presidente diz que alguns desses laços estão sendo rompidos e outros poderão acontecer. Uma auditoria é realizada para buscar em qual área podem ser feitos cortes de gastos. “A despesa maior é de funcionários. Quando assumi eram 112, hoje 93. Infelizmente, precisei fazer demissões", disse.

Atualmente, o peso desses trabalhadores foi, no último ano, de R$ 4,7 milhões, contra R$ 3,3 em 2014. "Temos colaboradores diferenciados, formam uma família, ganham e vivem daquilo diariamente, porém qualificamos a equipe e isso encareceu o total", conta.

É por isso que o presidente apela para que a comunidade sensibilize o empresariado. “As pessoas nunca nos deixaram mal, agora, mais do que nunca têm nos apoiado direto. Porém não adianta termos comida e não termos cozinheiro, nem ter gás e não ter a equipe para fazer o Padre Cacique andar”, expressou. Conforme ele, tudo o que era possível economizar ou reduzir, foi feito. Desde economia de água e luz, até cortes de horas extras. Agora, mais economia somente se houver redução do número de moradores ou demitindo os funcionários.

Transferência de moradores

De 150, para 113 e com tendência a diminuir ainda mais. “Na medida que tenho condições de realocar os idosos em outros lares, com as mesmas condições, farei. Já proibi ingresso de novos homens e mulheres no Padre Cacique, só se for em risco de morte”, avisou.

Borzoza salientou que não adianta entrar em lista de espera, porque ninguém será chamado. Ao menos até a situação ser normalizada, que é a esperança de todos que atuam no lar. Porém, nesta semana acontecerão transferências. “Segunda ou terça-feira uma moradora idosa e cega, que envolve uma série de cuidados, os quais não estamos preparados para atender, vai para um lar especializado.”

Além disso, os próprios moradores querem ficar e torcem para que o cenário seja outro, em breve. Uma delas é a moradora Elza Pacheco dos Santos, 78 anos. Ela disse que não quer sair do local. “Eu gosto muito daqui, tenho amigos, tem os cachorros, a vida da gente é isso aqui”, detalhou.

A mesma opinião de Vilma da Silva, 89 anos, que há 10 vive do Padre Cacique. “Nossa, é muito bom. A casa está cheia, olha quantas pessoas nos ajudando, ficamos felizes, já que o governo não ajuda”, lamentou. Sentada na cadeira de balanço, bem na porta de entrada, Vilma aguardava a chegada dos sobrinhos que a visitariam na tarde do sábado. “Desde 1949 moro em Porto Alegre, mas nunca tive filhos. Quando eu adoeci, vim para cá e nunca mais saí. Tenho muitos amigos, tem muito verde, cinema, e cuidam bem da gente.”

O asilo em números

O ano de 2015 foi o último que fechou no azul. O superávit foi de R$ 1.094.195. Valor um pouco inferior de 2014, quando o saldo positivo havia sido de R$ 1.356.707. As coisas começaram a ficar complicadas em 2016. As contas ficaram no vermelho, o déficit chegou a R$ 881.600. Valor menor do que o último ano, que foi de R$ 2.553.127. Para 2018, o montante poderá ser ainda maior – cerca de R$ 5 milhões - e, caso se confirmar, as portas poderão não ser mais abertas.

Como ajudar

Empresas e pessoas que quiserem ajudar a entidade, financeiramente, podem entrar no site e entrar no link “Saiba como ajudar”, lá estão explicados os caminhos para auxiliar a casa. Na aba “Fale com o presidente” é possível falar com Borzoza, que está disponível para explicar o funcionamento do Padre Cacique e mostrar a atual situação do local.

“Quem não conhece pode visitar, empresários podem levar contador, eu libero a documentação para auditoria. Prezamos a transparência, estamos de portas abertas”, convidou.

O asilo está localizado na avenida Padre Cacique, 1.178, no bairro Menino Deus. Os telefones de contato são 3233-7571 ou 3233-1691. O e-mail é asilo@asilopadrecacique.com.br.