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Porto Alegre, terça-feira, 26 de Setembro de 2017

  • 22/04/2017
  • 11:41
  • Atualização: 16:39

Escolas de Porto Alegre estimulam diálogo e espaços de discussões sobre suicídio

Encontro entre secretarias de Saúde e Educação com o Ministério Público Estadual está prevista para segunda-feira

O suicídio é, depois dos acidentes de trânsito, uma das maiores causas de morte entre adolescentes | Foto: Mauro Schaefer

O suicídio é, depois dos acidentes de trânsito, uma das maiores causas de morte entre adolescentes | Foto: Mauro Schaefer

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  • Carlos Corrêa e Mauren Xavier

Nos últimos dias, milhares de pais e mçaes em Porto Alegre ganharam motivos para se preocupar em relação ao filhos adolescentes. Isso porque temas delicados vieram à tona com força a partir não apenas de suposta disseminação do desafio da "baleia azul", que incentiva atitudes de isolamento e automutilação para, ao fim, pregar o suicídio, mas também da estreia do seriado "13 Reasons Why", disponível no Netflix, no qual uma jovem relata as razões pelas quais tirou a própria vida.

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Neste panorama, o papel dos pais aparece mais uma vez com destaque na avaliação dos especialistas. “É tarefa dos pais estar por perto. Eles precisam estar próximos para perceber as mudanças”, enfatiza Nadvorny. Neste sentido, Gabriela Filipouski observa que é preciso que limites sejam estabelecidos, mesmo com todas as dificuldades de se impor barreiras em uma época na qual o acesso ao conteúdo à Internet beira o irrestrito.

Assim, a psicóloga afirma que os pais precisam ter conhecimento de quais os programas que seus filhos estão assistindo, quais os sites têm acessado, quais os círculos de amizade. Não existe, por exemplo, a proibição ao uso do Facebook, mas Gabriela pondera que é normal que nestas situações os pais pelo menos tenham acesso às senhas utilizadas.

Por mais delicado que o tema seja, há consenso entre os especialistas de que o suicídio entre jovens deva ser tratado sem restrições, sob o risco de ser eternamente um tabu, como ocorre atualmente. “Suicídio é uma das maiores causas de morte de jovens depois de acidentes de trânsito. Isso precisa ser falado e tratado como política de saúde pública”, prega Rosangela Costa, que completa: “É preciso mostrar para esse adolescente que ele vai fazer falta”. Por vias tortas ou não, o certo é que o assunto tomou conta das conversas de pais e filhos, que se viram obrigados a lidar com uma matéria então evitada até que fosse inevitável. “Não vi o seriado, mas já sabia do jogo há alguns dias. Então perguntei para minha filha se ela também conhecia. Ela comentou que já ouviu falar, mas pelo que disse, não sabe o conteúdo e o que representa”, conta Jacqueline Soares.

Em um cenário no qual pipocam por todos os lados informações sobre novos casos envolvendo jovens, há dificuldade em se confirmar a veracidade de muitas delas, como aquelas envolvendo o “desafio da baleia azul”. Assim, surge como natural a preocupação dos pais em identificar sinais de comportamento de risco entre os filhos. É preciso, no entanto, ter em mente que algumas atitudes são típicas da adolescência e não podem ser confundidos com indicativos de uma predisposição para suicídio. Rosangela Costa alerta que as situações que exigem um cuidado maior são, por exemplo, mudanças bruscas de comportamento, isolamento, falta de amigos e excesso de tempo dedicado a filmes ou jogos com temáticas ligadas à violência. Uma queda no rendimento escolar e sinais de tristeza, como choro repentino, são outros indicativos.

Dada a complexidade do tema, não é de se esperar respostas objetivas acerca das razões que levam adolescentes a entrar em um suposto desafio que lida com sofrimento e invariavelmente termina com a morte. O psiquiatra, psicanalista e membro da SPPA, Carlos Augusto Ferrari, contudo, faz algumas observações. A primeira é que o problema pode parecer simples aos olhos de pessoas mais experientes, mas a realidade do adolescente é outra.

“Quem tem um juízo mais crítico está preservado, mas para quem não tem, é quase como um feitiço”, afirma, lembrando que neste caso pouco importa se o feiticeiro existe, se está de alguma forma materializado ou escondido no anonimato da Internet. A rede, aliás, lembra ele, é um terreno propício para que este tipo de fenômeno se desenvolva, dada suas características como a fácil disseminação de informações, verdadeiras ou não. Na outra ponta do problema, acredita, está alguém com maldade suficiente para criar um desafio ou uma lenda urbana sobre um desafio. “O indivíduo perverso não tem consideração pelo outro, ele não sente culpa. É um predador”, diz.

Escolas são protagonistas

Uma vez que o tema é debatido tanto por estudantes como por pais, a preocupação com as consequências do “desafio da baleia azul” e de uma possível influência negativa de “13 Reasons Why” tem batido direto na porta das escolas.

Muitas já tratavam de assuntos como bullying e depressão rotineiramente, mas, a situação atual trouxe outros elementos e aumentou consideravelmente o alerta. Um exemplo foi a nota das Comissões Internas de Prevenção de Acidentes e Violência Escolar (Cipave), na quinta-feira, aos pais e às escolas para que ampliem a atenção com as mudanças de comportamento dos jovens. Mais do que isso, aponta que os “mais procurados (para participar do desafio) são adolescentes que possuem um perfil autodestrutivo ou alguma mágoa ou tristeza profunda”. A nota foi distribuída na rede estadual de educação.

No âmbito de Porto Alegre, a situação não é menos preocupante. Um encontro está previsto para esta segunda-feira entre representantes das secretarias de Saúde e Educação da capital e o Ministério Público Estadual para alinhar como o assunto deve ser trabalhado nas instituições e diante da suspeita de ocorrências e do aumento de casos.

Na rede privada o debate também foi aberto. O Sindicato do Ensino Privado do Estado encaminhou manifestação às instituições para que o diálogo seja estimulado e espaços de discussão ampliados. Segundo o presidente do Sinepe/RS, Bruno Eizerik, o momento deve ser aproveitado para que os estudantes possam se manifestar e haver troca de informações.

Antes da nota, algumas instituições já tinham tomado a frente do debate. O Colégio João XXIII, de Porto Alegre, agendou para o dia 8 de maio uma palestra com o psiquiatra Felipe Picon sobre o impacto das mídias no comportamento de crianças e adolescentes. Além disso, a estratégia pedagógica é abordar o assunto em sala de aula com os professores.

O Colégio Farroupilha também agendou para o dia 4 de maio um debate para abordar os mesmos assuntos. “As exposições que os jovens estão submetidos são grandes e acreditamos que é preciso estar ao lado dos pais para desenvolvermos ações de enfrentamento”, explica a psicóloga educacional do Serviço de Orientação Educacional do Ensino Fundamental – Anos Iniciais do Colégio Farroupilha, Luciana Motta.

Assim muitas atividades com esta temática acabam sendo mais relevantes aos responsáveis do que propriamente aos alunos. Mesmo assim, ressalta que é essencial que os pais fiquem atentos ao comportamento dos jovens. “Os familiares precisam encontrar uma maneira de estarem conectados aos filhos. Estar ao lado e escutar. Não como amigo ou no confronto, mas sendo pais”, aconselha.

O Colégio Rosário, da rede Marista, também abriu o debate de maneira franca, afirmando a defesa da valorização da vida. “Entendemos que as conversas, feitas de forma tranquila e educativa tanto em casa quanto na escola, são a melhor maneira de elucidar dúvidas, levantar e questionar argumentos e compreender razões e motivações que estejam associadas ao que acontece com nossos jovens”, diz a nota.