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  • 22/04/2017
  • 11:12
  • Atualização: 16:37

Aumento de tentativas de suicídio alerta para uma abordagem mais atenciosa

Especialistas chamam a atenção à influência da série “13 Reasons Why” e do "jogo Baleia Azul" nos adolescentes

Aumento de tentativas de suicídio alerta para uma abordagem mais atenciosa  | Foto: Netflix / Divulgação / CP

Aumento de tentativas de suicídio alerta para uma abordagem mais atenciosa | Foto: Netflix / Divulgação / CP

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  • Carlos Corrêa e Mauren Xavier

Na quarta-feira passada, o aparelho celular de Juliana Zasso apitou. O som típico de uma mensagem no Whats App, no entanto, não poderia preparar a farmacêutica para a mensagem que leria em seguida: “Me chamo Ricardo, moro em Canoas, entrei no jogo da baleia azul e meu primeiro desafio é infelizmente dar 30 balas envenenadas às crianças de escolas. Só vou indicar que avisem seus filhos a não receber balas de ninguém na rua. Fiquem atentos com esse jogo. Eu entrei e não posso sair mais”.

Ao longo do dia, o mesmo alerta foi recebido por Juliana, que não conhece Ricardo, em pelo menos outras quatro oportunidades. Ela não foi a única. Nos últimos dias, milhares de pais e mães em Porto Alegre e outras cidades gaúchas ganharam motivos para se preocupar em relação aos filhos adolescentes, seja a mensagem falsa ou não. Isso porque temas delicados vieram à tona com força a partir não apenas da suposta disseminação do desafio da baleia azul, que incentiva atitudes de isolamento e automutilação para, ao fim, pregar o suicídio, como também da estreia do seriado “13 Reasons Why”, em 31 de março, disponível no Netflix, e no qual ao longo da temporada, a jovem protagonista relata as razões pelas quais tirou a própria vida.

Os pais acompanham as informações com incontida tensão, algo ressaltado com o constante som de uma nova mensagem no celular. Cada notícia é compartilhada em grupos de WhatsApp na mesma proporção em que o assunto toma as rodas de conversa, virtuais ou não, dos adolescentes. A preocupação tomou novas proporções na quarta-feira, quando a Secretaria Municipal de Saúde da Capital (SMS) emitiu um alerta, revelando que nos últimos dias foi verificado um aumento no número de atendimentos a crianças e adolescentes que haviam tentado o suicídio, com o adendo de que poderia existir uma relação tanto com o desafio da baleia como com o seriado do Netflix.

Segundo a SMS, em dez dias foram registrados oito tentativas de suicídio, sendo que metade fez referência ao jogo. Já de acordo com a nota informativa da Secretaria Estadual da Saúde, no Rio Grande do Sul, os dados de lesão autoprovocada, embora subestimados, mostram a ocorrência de 848 casos, entre 9 e 19 anos de idade, no ano de 2016. “Não estou em pânico, mas estou em alerta”, admite Juliana. “Fiquei chocada e incrédula a princípio, mas depois foram chegando mais e mais informações e a ficha foi caindo”, completa Jacqueline Soares, mãe de uma filha de 9 anos.

Receosos, uma pergunta em especial tem deixado pais e mães inquietos. Que o desafio da baleia azul é nocivo, não restam dúvidas, mas e o seriado, pode de fato representar algum perigo? Especialistas avaliam que sim, há riscos envolvidos para determinadas audiências. “Sim, pode ser perigoso porque ele pode causar danos a quem está emocionalmente precisando de ajuda”, afirma Rosangela Costa, psicóloga e psicanalista da infância e adolescência da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA).

Entre as principais críticas, duas se destacam. A primeira é o fato de a protagonista, Hannah Baker, ser de certa forma glamourizada na trama juvenil. Para um público predominantemente adolescente, tornar como modelo uma personagem que tira a própria vida traz riscos um tanto quanto complexos. A segunda ressalva é a de que a cena na qual ela se suicida é muito descritiva. “Suicídio é um tema que tem que ser falado sim. Mas não ensinado, não incentivado”, diz a psicóloga e mestre em saúde da criança e do adolescente, Gabriela Filipouski.

Na prática, um programa de televisão, ou mesmo um jogo que circula na Internet, não tem a capacidade de fazer com que um jovem atente contra a própria vida. No entanto, podem servir como um empurrão até certo ponto decisivo. “Ninguém vai se suicidar se não estiver depressivo. É preciso ver os sinais e tentar evitar”, explica o diretor da clínica Laboratório da Depressão, psiquiatra Nei Nadvorny. Em outras palavras, a pessoa encontra-se numa situação doente.

Ele ressalta que a ocorrência desses casos na adolescência está ligada ao fato de ser uma fase problemática e conturbada. “Há os problemas existenciais e a mudança no corpo e de pensamento. Por isso, se unem (os jovens) em grupo para ficarem fortes”, completa. A preocupação está ligada ainda ao fato de que eles estão mais propensos a se arriscar e a experimentar coisas diferentes. “Sempre existiram jogos em que os adolescentes se arriscam, como com bebidas, drogas ou excesso de velocidade, por exemplo. A questão é que esse desafio (da baleia azul) ganhou destaque, mas é desafio”, afirma Nadvorny.

Ver ou não ver?

O ideal seria então impedir que os filhos assistam à história de Hannah, Clay que é o personagem que escuta as fitas ao longo dos episódios e companhia, por exemplo? Não necessariamente, desde que com alguns cuidados, até mesmo porque toda e qualquer proibição acaba despertando uma curiosidade ainda maior.

“Os pais assistirem com os filhos é melhor do que estes jovens assistirem sozinhos. É preciso uma voz e presença adulta para dizer o que bom e mau”, pondera Rosangela. Para Gabriela, a questão vai além e escancara a distância que muitos pais mantêm de seus filhos atualmente. “Tanto o seriado como o jogo da baleia nos mostram como as famílias estão afastadas dos seus filhos. Não deixa de ser um reflexo de como as famílias têm tratado suas crianças, que são criadas praticamente por computadores e iPads como babás”, afirma a psicóloga. Curiosamente, os pais de um dos personagens centrais na história, Clay, apresentam comportamento semelhante e sequer fazem ideia da realidade do filho, a ponto de não saberem que ele era bastante ligado à menina morta, apesar de tentarem, muitas vezes de maneira frustrada, manter o diálogo com o filho e tentar compreender o que estava acontecendo.

Desde que tomou conhecimento do tema tratado em “13 Reasons Why”, Juliana Zasso fez questão de indicar o seriado a outros pais, ciente da importância de que o assunto seja amplamente discutido. Curiosamente, no entanto, a farmacêutica foi pega de surpresa quando soube que a filha de 13 anos já havia visto, sozinha, todos os episódios antes dela. Fez questão então de ver tudo o quanto antes e em dois dias havia completado a série, ainda que ao final restasse um sentimento estranho. “Não foi algo legal. Eu fiquei pensando que preferia que ela tivesse visto comigo”, conta, lembrando o desconforto com algumas cenas mais fortes, como as que envolvem estupro, além do próprio suicídio da protagonista.

Diante de um debate que parece só crescer, a presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, Carmita Abdo, amplia a problemática e questiona as razões de os jovens serem o alvo. “Vários filmes já abordaram a questão do suicídio. Não é isso que é determinante. Mas o que chama a atenção é que a confluência de situações (a baleia azul e a série) que mostrou na verdade o quanto os jovens estão vulneráveis”, alerta a psiquiatra.

Sobre a influência de ambos, ela vai além e recorda que uma pesquisa da Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta que 90% dos suicidas tinham problemas de ordem psiquiátrica. “O importante é que a gente não subestime os sintomas e sinais”, destaca. Nesta mesma linha, Nei Nadvorny explica que a sociedade de uma maneira geral está mais doente, em parte pelo excesso de informações e estímulos, nem sempre positivos. “Existem os gatilhos para que uma pessoa doente vá contra a sua vida. Neste ponto, sempre uso uma comparação com dois lutadores num ringue. Um pode levar 10 porradas e cair e outro aguentar 20 e não cair. Todos temos um nível de resistência. A questão é que hoje há gatilhos demais”, pondera.