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Porto Alegre, terça-feira, 25 de Setembro de 2018

  • 11/06/2018
  • 13:40
  • Atualização: 13:57

Tarifas sobre veículos podem prejudicar grandes empresas americanas

Renegociação do Nafta, no entanto, pode ser acelerada

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  • AFP

Ao reiterar sua ameaça de estabelecer novas tarifas para os veículos importados, Donald Trump corre o risco de debilitar as empresas automotivas americanas e destruir o emprego, mas pode acelerar a renegociação do Acordo de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta, na sigla em inglês), atualmente estagnada. Após uma cúpula do G7 concluída como um fiasco, o presidente dos Estados Unidos reiterou que considera taxar em 25% os veículos importados, a fim de frear fabricantes alemãs e japonesas, acusadas de prejudicarem marcas americanas, como Cadillac (General Motors) e Lincoln (Ford). Esta decisão, que pretende reduzir desequilíbrios comerciais, poderia chegar a ser negativa para os interesses americanos, não apenas porque as empresas estrangeiras afetadas têm fábricas nos Estados Unidos, mas também porque os grupos automobilísticos locais estão entre os maiores importadores de veículos provenientes de Canadá e México. Sobretudo quando a China, principal mercado mundial do setor, opera na direção oposta, baixando o imposto sobre os automóveis estrangeiros de 25% para 15%.

"O Honda Accord não é uma ameaça para nossa segurança nacional", criticou o presidente do Comitê de Finanças da Câmara dos Representantes, o republicano Jeb Hensarling. "Contudo, impor tarifas é uma ameaça à segurança econômica de milhões de famílias americanas que trabalham duro", acrescentou. A consultoria Trade Partnership Worldwide estimou que tarifas suplementares de 25% possam criar 92 mil empregos na indústria, mas destruir outros 250 mil no restante da economia. Cerca de 1 milhão de postos de trabalho estão atualmente ligados à indústria automobilística nos Estados Unidos, contra 660 mil em 2010, segundo a Agência de Estatísticas sobre o Emprego.

Mais importações que exportações

O desequilíbrio entre importação e exportação de veículos nos Estados Unidos denunciada por Trump é uma realidade. Em 2017, os Estados Unidos compraram no exterior 8,27 milhões de veículos por 192 bilhões de dólares e venderam 1,98 milhão por 57 bilhões, segundo o Departamento do Comércio. Em geral, porém, Washington importa veículos baratos e vende modelos de ponta. Mais de 70% dos 371.316 veículos produzidos em 2017 pela BMW em sua fábrica na Carolina do Sul foram destinados à exportação. "Os construtores europeus não só exportam veículos para os Estados Unidos, mas a maioria deles possui fábricas importantes naquele país e cria, consequentemente, milhares de empregos diretos e indiretos. Grande parte de sua produção é exportada para outros países, incluindo os da União Europeia", afirma a ACEA, lobby das fabricantes do Velho Continente. "Nos Estados Unidos, a Toyota tem dez fábricas, emprega 136 mil pessoas e tem uma rede de 1.500 concessionárias que contribuem para as economias locais. Tarifas sobre veículos importados podem afetar os empregos nos Estados Unidos e aumentar os custos para os consumidores", alertou o grupo japonês.

Destravar o Nafta?

Para a especialista Kristin Dziczek, do Center for Automotive Research de Michigan, não se pode esquecer que os "Três Grandes" de Detroit (GM, Ford e Fiat Chrysler) poderiam ser afetados pelas novas tarifas. Os veículos importados dessas três grandes empresas foram responsáveis por 14,5% de todos os carros vendidos nos Estados Unidos no ano passado. Antes de serem comercializados nos Estados Unidos, esses veículos foram fabricados no Canadá e no México, dois parceiros de Washington no Nafta, que podem acessar livremente o mercado americano e representam mais da metade das importações e exportações, à frente do Japão (21% das importações), da Alemanha (11%) e da Coreia do Sul (8%). "Vendemos regionalmente, mas competimos internacionalmente", disse Joe Hinrichs, gerente de produção da Ford.

A segunda fabricante americana, que havia decidido repatriar a produção do Focus do México sob pressão de Trump, acabou optando por fabricá-lo na China diante do aumento galopante dos custos de matérias-primas, como aço e alumínio, afetados pelas novas tarifas impostas pela Casa Branca. A ameaça de taxas alfandegárias sobre veículos importados do Canadá também pode ser um meio de pressão para forçar Ottawa na renegociação do tratado norte-americano, dizem especialistas. "Estimamos que a maior parte dessa ameaça está diretamente focada em encontrar um acordo final do Nafta" favorável para Washington, escreve Ed Mills, analista da Raymond James. "As regras de origem, especialmente os veículos, têm sido um dos mais importantes pontos de bloqueio" das discussões com México e Canadá, observou.